A ilha

João Oliveira
João Oliveira
Jornalista

Um carro pode ser uma ilha, um pequeno pedaço de chapa rodeado de memórias por todos os lados.

Quando era pequeno, e me zangava, fechava-me no carro dos meus pais. Também me fechava no quarto, como todos os miúdos, às vezes no guarda-fatos, mas talvez porque não tinha imaginação suficiente para criar um mundo só meu, como no livro Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak – Max, zangado com a mãe, fecha-se no quarto e navega até uma ilha repleta de monstros – precisava das rodas para dar aso à imaginação.

Ficava ali, sentado no banco do condutor, primeiro agarrado às onomatopeias, vrum, vrum, vrum, depois a meter velocidades e a ouvir a Renascença, que deus e a TSF me perdoem,  fantasiando com o dia em que poderia acelerar dali para fora. Cheguei a tentar, mas bati contra o portão. Nada como um portão para demarcar o nosso território.

Já em Lisboa, adulto, a trabalhar num jornal de automóveis e a ter que andar de um lado para o outro com carros novos numa cidade que não era minha, percebi de imediato que a noite seria a minha salvação. A única coisa que um jovem com os bolsos vazios e o depósito cheio pode fazer é seguir em frente. Saía de casa sempre depois da meia noite, às vezes a meio da noite, e andava às voltas pela cidade, com o rádio sintonizado na Radar – 97,8 FM. Se não era a Radar, que talvez ainda nem existisse, era outra qualquer.

Há uma estranha e viciante sensação de poder, de perigo, de fragilidade, de liberdade – a lista é longa e cheia de adjetivos contraditórios – quando se conduz à noite numa cidade tão grande, pelo menos na altura pensava que era grande.

– Onde vais a esta hora? – perguntaram-me muitas vezes, já quando partilhava cama, não acreditando que apenas saía de casa para estar sozinho.

Ainda há pouco tempo revia Um sítio Onde Pousar a Cabeça, documentário sobre Manuel António Pina a que volto constantemente (e peço desde já desculpa por usar o termo rever), no qual o antigo jornalista, cronista e poeta diz: “À noite todos os poemas são pardos. Tudo parece mais forte, mais verdadeiro. Isto é um problema de verdade. A verdade é mais fácil aparecer-nos, porque é uma forma de aparição, à noite”. Poucos antes, logo à abrir o documentário, afirma também: “Preciso muito de solidão. Se calhar toda a gente precisa sem saber. Aqui é o meu locus solus. É o meu lugar de solidão. E de silêncio. Porque a solidão também é uma forma de silêncio. De silêncio e de intimidade”. Enquanto fala, e fuma, o som dos automóveis entra pela janela. “O ruído de fundo dos automóveis a passar aqui faz parte do silêncio. Não é propriamente um intruso. É quase também silêncio”.

Nunca estava verdadeiramente sozinho, nunca estamos. De vez em quando cruzava-me com outros passageiros frequentes. Reconhecia-os. Reconhecíamo-nos. É possível que haja um grupo de facebook de pessoas que gostam de andar de carro sozinhos à noite, não sei.

Há gente que passa muito tempo no trânsito, mas pouco no carro. A sua terapia é o trânsito, não a estrada. Se me permitem a moral e um conselho, experimentem passar às escuras pelas ruas onde ficam presos durante o dia, vão ver que buzinam menos palavrões.

Também eu estou a precisar. O meu carro está parado na “garagem” e só tenho andado no da minha mulher. De dia.

De vez em quando vou lá. Fora d´horas, é claro. Não faço vrum, vrum, vrum, que já não tenho idade para isso, ligo o motor e o rádio, peço desculpa por tê-lo deixado chegar a este estado, e fico ali durante alguns minutos a fingir que está tudo bem.