Colecionar é viver

Sempre tive um certo fascínio por colecionadores. Alguma inveja, até. Como se estivessem um estádio acima do meu, gente munida de um escudo protector contra a realidade e, sobretudo, contra o tédio, que tipos como eu dificilmente conseguirão alcançar sem ajuda de um whisky ou de uma garrafa e vinho”.  As aspas são minhas é feio, eu sei, prometo voltar a citar-me só mais uma ou duas vezes até ao final do texto – retiradas do livro Volta a Portugal em 80 dias, aventura realizada em 2014 com dois amigos jornalistas.

Além de confessar admiração por coleccionadores, sejam ele de pacotes de açúcar, selos ou pénis em gesso como é o caso da norte-americana Cynthia Plaster Caster, uma artista plástica e antiga groupie que tem um grande espólio de pénis moldados directamente no sexo dos músicos com quem dormia – lamentava nunca ter conseguido catalogar uma obsessão. Ainda tentei com uma série de garrafas de vinho e pacotes de chá, mas entornei tudo.

Chegou esta conversa a livro a propósito de uma colecção de Land Rovers. Vagueávamos pelo Parque Nacional da Serra de Aires e Candeeiros à cata de uma tasca, como qualquer jornalista em viagem que se preze, quando nos deparámos com uma série de modelos da marca britânica “escondidos” num quintal. O quintal de António Serôdio, antigo piloto, vice-campeão de França de Todo-o-Terreno, sete participações no Dakar, mecânico, Coleccionador. Mais de vinte carros em casa, às vezes em concentrações, entre eles blindados que combateram no Afeganistão, Iraque ou Irlanda do Norte, o Discovery V8 de 300 cavalos com que participou na prova africana ou o Pronto Socorro que o pai conduzia em Angola.

– Como é se chega até aqui? – pergunto, invejoso.

A conduzir, é claro. Desde o berço. “O meu pai utilizava o Land Rover para as expedições de caça. E para me levar à escola. Aos nove anos já o conduzia, com uma almofada atrás das costas para chegar aos pedais. Aos dez parti o chassis. Para aprender a lição obrigou-me a desmontá-lo e montar o novo. Já nasci com isto. Em 1959, em África, dentro de um Land Rover, a caminho da maternidade”.

Reencontro estas frases na estante da sala de casa dos meus pais, juntamente com os anuários da escola, DVDs ripados, livros das Selecções do Reader’s Digest, sempre eles, garrafas de whisky e Vinho do Porto, um baralho de cartas, rios carros em miniatura e o tabuleiro das Damas. Jogámos sempre uma partida de Damas na noite de Natal.

Aproveito e leio até ao fim, só para rever como termina. É certo que nunca coleccionarei Land Rovers, carros antigos, pacotes antigos ou vulvas em gesso, resta-me a esperança saloia de apanhar momentos, escrever sobre eles, e esperar que alguém os possa guardar…

Será que se tivesse nascido no Mini 1000 teria a garagem repleta de Minis? Ou pelo menos uma garagem?

– Gostava que nunca te desfizesses dessa colecção – diz o meu pai, vendo-me agarrado à estante.

– A de garrafas?

– A dos carros.

São dezenas deles, sobretudo da Burago. Alguns deles raros, tenho a certeza.

– Eu e tua mãe não te queremos deixar uma herança pesada.

É claro que sim – respondo, em piloto automático, grato não só por herdar uma colecção que nunca seria capaz de erguer sozinho, mas, sobretudo, por não terem motor. A certeza de que, mesmo que me deixassem um carro de guerra, jamais conseguiria salvá-lo.