Crónica para ser lida só por quem gosta (mesmo) de automóveis

Luis Pimenta
Luis Pimenta
Tendências

Há um restaurante em Lisboa que, para além de servir dos melhores hambúrgueres que podemos encontrar neste mundo de Deus, ainda nos brinda com doses generosas de filmes italianos do pós-guerra em ecrã gigante. A cópia restaurada do “La Dolce Vita”, de Fellini, é um dos meus favoritos e passa constantemente em “loops” intermináveis. É assim mais ou menos como um buffet à discrição, mas sem a indigestão no final.

Numa recente tertúlia de amigos, saltou-nos à vista e à conversa aquele Triumph TR3 (claro!) em que Marcello (Marcello Mastroianni) discute com Emma (Yvonne Furneaux). Sim, também comentámos como aquele confronto físico no final da altercação seria suficiente para colocar as brigadas do politicamente correto aos pulos nas redes sociais, espalhando sal e cruzes sobre a carreira de Federico e de Marcello (e de Yvonne, pois claro, porque não tinha nada que alinhar em guiões espúrios).  Mas o ponto não é esse. “La Dolce Vita” é um filme e as paixões são o seu grande protagonista e talvez por isso não deixe de ser curiosa a escolha do roadster inglês num país com tantas marcas empolgantes naquele princípio da década de 60.

A história deste TR3 (mais exatamente um “TR3A” de 1958) é, de resto, sintomática dos afetos alimentados pela película de Fellini. Depois de muitos anos desaparecido, foi descoberto e totalmente restaurado com o mesmo amor inflamado de Marcello e Emma. Filippo Berselli, um ex-senador italiano e amante de clássicos, seguiu o rasto dos documentos originais e acabou por encontrar o automóvel, devolvendo-o à condição em que se encontrava durante as filmagens. A história, que vale a pena ler, está toda aqui neste artigo do Guardian.

Esta odisseia faz-me lembrar uma outra, protagonizada pelo Lamborghini Miura que aparece na sequência inicial do filme “The Italian Job” (1969). Quem gosta de cinema e quem adora carros não esquece aquele genérico, filmado no Col du Gran Saint Bernard, na fronteira entre a Suíça e Itália, ao som de “On Days Like These”, cantado por Matt Monro, a embalar a condução daquele Miura de cor indecifrável. O “cálice sagrado dos automóveis”, como lhe chamou um dia a revista inglesa Top Gear, esteve desaparecido durante 46 anos, na posse de vários proprietários, mas foi adquirido o ano passado por dois empresários britânicos. Atualmente, está à venda por uma empresa do Reino Unido especializada em clássicos – como conta esta peça que o Motor24 publicou bem recentemente.

Não há como iludir a questão: cada carro está predestinado a ter a sua história, um filme de vida onde cabem os 15 minutos de fama, os heróis, as paixões e, reconheço, as deceções. Faz parte de um carro ter a sua identidade própria – a indústria automóvel não valeria nem um terço sem essa identidade.

E já que estamos em registo italiano (aquele TR3 de “La Dolce Vita” até que já podia ter uma nacionalidade latina, vá…) olhemos para um dos dados mais marcantes dessa identidade: os scudetti das marcas transalpinas. Navegar por estes logotipos é entender essa relação visceral que os seus criadores tinham com o automóvel, que se manifesta ainda hoje em verdadeiras obras primas da heráldica. Autênticos brasões de armas, transmitem valores, vincam a individualidade ou, pura e simplesmente, escondem histórias únicas. Podia citar o exemplo da Ferrari (mas o Motor24 já o faz aqui…), ou as alusões astrológicas do Escorpião de Carlo Abarth ou do Touro de Ferruccio Lamborghini, porém detenho-me por agora no scudetto da Alfa Romeo, um dos que encerra mais mensagens por milímetro quadrado. E dos mais bonitos também.

A explicação mais recente que encontrei é a que foi dada ao site Jalopnik pelo Automobilismo Storico Alfa Romeo e que vale a pena pelo detalhe: “À esquerda, a cruz vermelha sob fundo branco representa o símbolo de Milão, a cidade natal da Alfa Romeo. À direita encontramos o símbolo de uma das famílias mais importantes da história de Milão (e de Itália), a família Visconti – que governou Milão. Existem muitas lendas sobre as origens deste símbolo heráldico, representando um animal mitológico com um ser humano na boca (alguns acreditam que é um dragão, mas provavelmente trata-se de uma cobra). Durante as cruzadas, Otone Visconti, o cavaleiro fundador da família Visconti, venceu um nobre sarraceno (nómada do deserto sírio, na fronteira com o Império Romano) e, seguindo a tradição, tomou os símbolos que este carregava no seu escudo: uma serpente com um homem na boca. À primeira vista, parece que a cobra está a devorar o humano, mas, na realidade, este está a sair da cobra como um “homem novo”, purificado e renovado. O significado: A serpente – animal capaz de se renovar naturalmente ao mudar a sua pele – traduz a mudança e o renascimento.”

A explicação é fantástica – e oficial, note-se! – mas não consigo resistir em pensar que cabe quem nem uma luva numa marca que já morreu e renasceu mais vezes do que aquelas que me consigo lembrar.

Nunca como agora a identidade dos automóveis esteve tão em risco e não é por acaso que falo disso neste momento. Dentro de alguns dias, vamos ter dois eventos incontornáveis do calendário anual do setor, o CES2017 (que celebra 50 anos, como assinalo numa das breves mais abaixo) e o Salão de Detroit. Em ambos os casos iremos assistir a mais um desfile de soluções de mobilidade e a uma nova miríade de discursos e interrogações sobre o modelo de negócio desta indústria em profunda mudança.  Os carros autónomos voltarão a estar no topo da agenda, juntamente com tecnologias e marcas das quais só agora começamos a ouvir falar.

Não é que os autónomos sejam o anti-cristo que vai fazer desabar o apocalipse sobre o automóvel atual, mas convenhamos que o maior risco é precisamente o de esmagamento da tal identidade que tem sido o fator de atração – e de rentabilização – sobre o qual repousa a indústria há mais de um século. O próprio conceito de “mobilidade partilhada”, em que não temos a propriedade do carro e o utilizamos enquanto transporte do ponto A ao ponto B, encerra em si mesmo uma certa contradição com essa mesma identidade, ou com a liberdade individual que sempre esteve associada ao carro. Foi assim que ele nasceu e multiplicou o seu valor perante a sociedade.

A indústria automóvel está no “olho do furacão” e, como sempre nestas mudanças profundas, é preciso esperar para ver como serão os carros e os padrões de mobilidade autónoma no futuro. Para já, não me atrevo sequer a retirar qualquer conclusão – nem que seja para o curto-prazo.

A única coisa que tenho como certa é que se em 1960 já existissem carros autónomos e mobilidade partilhada, a Emma de “La Dolce Vita” nunca teria ficado sozinha, ao frio da noite, naquele descampado agreste do subúrbio de Roma. Mas, bem vistas as coisas, também nunca se teria reconciliado com Marcello na manhã seguinte quando este a foi buscar no seu Triumph TR3.

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CES ASSINALA 50 ANOS – Este ano, mais do que nunca, vale a pena consultar o site oficial do Consumer Electronics Show, ou CES2017, para ter uma ideia clara da forma como a tecnologia evolui a ritmo exponencial. Numa parte dedicada da web do CES podemos aceder a uma timeline e ver o que aconteceu e o que foi lançado nas várias edições, desde a primeira, em 1967, então em Nova Iorque. Só uma dica rápida antes de ir para o link: vale a pena consultar este infográfico absolutamente imperdível sobre os 50 anos de inovações na eletrónica de consumo.

ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO? – “Eu não guio apenas para ir do ponto A ao ponto B. O que gosto é de sentir as reações do carro, fazer parte dele.” – Enzo Ferrari

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Luís Pimenta acompanha o setor automóvel há mais de 25 anos. Editou e dirigiu vários órgãos de comunicação social especializados e generalistas e dedica-se hoje à consultoria e produção de conteúdos e de plataformas de comunicação online.