O futuro precisa de baterias

Silva Pires
Silva Pires
Jornalista

O meu ceticismo em relação aos automóveis elétricos tem vindo a diminuir. É normal. Como eu haverá mais uns quantos – milhares… Está longe de significar isto que acredite nas projeções que apontam no sentido de termos um cada vez mais próximo 2030, essa data mágica do projeto alemão, marcado por um parque automóvel naturalmente elétrico, ou quase exclusivamente elétrico: nem diesel, pequenos antes de mais, nem talvez gasolina, e, claro, algum, pelo menos algum hidrogénio.

Está a milhas de significar isto a minha convicção na inevitabilidade de nos encontrarmos perante matéria sem história ou discussão, tão óbvio resultará termos de admitir o desenvolvimento, o avanço tecnológico, a supremacia da questão ambiental sobre todas as outras. Tudo vai resolver-se com naturalidade. É simples. É sempre assim, inexoravelmente. É o progresso! Será?

Por mais voltas que dê, por mais que tente convencer-me de que as baterias capazes de garantirem percursos de muitos quilómetros, 500/600, serão as coisas mais simples do mundo no futuro que nos pintam, falta-me qualquer coisa quando penso nesse progresso. Afinal, pego no telemóvel e é um instante enquanto a carga desaparece se não me limitar a utilizá-lo para aquilo que nasceu – a simples chamada telefónica. Não é como era, com certeza, os progressos foram imensos, o smartphone é outra coisa, hoje até posso ter um pequeno carregador no bolso, dispor de uma tomada USB no automóvel e, claro, aproveitar o almoço ou o jantar no restaurante para um “cheirinho” de carga. Afinal, até posso ter dois telemóveis… E passaram quantos anos desde o tempo do “tijolo” que permitia fazer telefonemas? Em números redondos: 25 anos! Menos do que o tempo que nos separa de 2030.

Os lóbis

Mas vai uma distância enorme entre o telemóvel e o automóvel. Até vão outros interesses, lóbis poderosíssimos e, pelo meio, uma sociedade que será preciso transformar e adaptar a outra realidade, admito que inclusivamente outro estilo de vida.

Eu sei que até a Mercedes, que não brinca em serviço e pensa a sério no futuro, se decidiu a construir uma fábrica de baterias, vai investir um balúrdio para ampliar a sua produção e está a patrocinar estudos exaustivos e a tentar os cérebros da investigação de modo a convencê-los a queimarem neurónios para até descobrir como reciclar o que vai sobrar das baterias dos automóveis que, parece garantido, nunca mais servirão para os fazer andar… Mas esse é outro problema de que nem interessa agora falar muito. Porque nisto de lóbis, eles andam por todo o lado, pólos opostos não deixam de ter interesses. E todos se batem pelos seus. Lembre-se o que o sr. Trump diz sobre o aquecimento global!

Eu sei, tenho olhos na cara, que são cada vez mais os automóveis elétricos, vejo-os à carga nos postos de carregamento em Lisboa, encontro-os Europa fora em grandes cidades, Amesterdão por exemplo, e exemplo a reter na fronteira de duas Europas bem diferentes, pois para Norte, a realidade é outra, condicionada também por razões tão diversas que até contemplam o clima… e uma outra forma de viver e utilizar o automóvel durante quase metade do ano. Atente-se no caso da Noruega, vista como um dos grandes exemplos na adesão à mobilidade elétrica.

Todos sabemos que os combustíveis fósseis são finitos. Todos sabemos que é preciso poluir menos. Que o problema até nem está só nos automóveis. Mas é preciso começar por qualquer lado e o automóvel tem de mudar.

Como fazer?

Claro que sim! O automóvel tem de mudar. E o resto, as cidades, a sociedade? Vamos ter um carregador em cada lugar de estacionamento? Vamos limitar quem vive em bairros históricos em Lisboa ou no Porto, Madrid ou Barcelona, Paris, Londres, Roma a optar entre estacionar o automóvel longe de casa, provavelmente pagando e bem, ou a mudar de casa para viver num prédio com garagem? Vamos considerar que ao fim-de-semana, ou nas férias, a solução das famílias se resume aos transportes públicos eventualmente combinados com um automóvel elétrico alugado num qualquer sistema de partilha? Ou talvez a utilizar a bicicleta?

E o mundo é só a Europa? Os Estados Unidos? Essa China que não para de crescer e parece ter dinheiro e capacidade para tudo? E o resto? E a América do Sul e a África? E a imensa Austrália? E tanto, tanto mais, como será?

Vamos continuar a falar de automóveis elétricos, com certeza. Ou a hidrogénio. Ou híbridos e Plug-in que sejam mais do que a atual fantasia que procura pintar de verde uma mentira que mascara as performances com economia medíocre e uma defesa ambiental que vai pouco mais longe do que os sistemas start-stop.

Vamos continuar a falar do automóvel do futuro mas olhando em seu redor. O problema está longe de ser apenas a autonomia das baterias. Importa agir, claro, encontrar alternativas, pensar e discutir soluções. Mas importa, antes de mais, deixar de fingir e, sobretudo, falar verdade. No dia em que todos os automóveis forem elétricos ou a hidrogénio muito terá sido preciso mudar. Muito mesmo e não é necessário estar ao nível do pensamento dos génios para o admitir. A menos que como aquele jovem desenrascado e meu vizinho, se admita que, para carregar a scooter elétrica, basta um cabo do quinto andar para a rua… O futuro não pode ser tão simples. Parece-me, pelo menos.

Um futuro elétrico? Tem espaço, com certeza! Mas é preciso arranjar baterias para alimentar uma solução de compromisso. Afinal, isto de automóveis elétricos não é só ligar à corrente… e ter baterias com mais autonomia.