Quando o passado rende muito dinheiro

Luis Pimenta
Luis Pimenta
Tendências

O único Ferrari que tive o privilégio de conduzir até hoje foi exactamente o meu favorito de sempre: um 456 GT. Para o melhor e para o pior, a experiência aconteceu numa pequena pista que alimentava o meu imaginário: Fiorano, mesmo ali ao lado da fábrica de Maranello.

“Melhor” porque é um circuito que respira história. “Pior” porque só me deixaram fazer uma volta ao volante e aquele carro pedia-me (ou era eu?) um passeio pelas cores pastel da Emilia Romagna em final de Verão.

Tinha feito uns vibrantes 250 km desde Monza até Maranello num Fiat Panda de aluguer sem direcção assistida ou ar condicionado e no qual nem o vermelho era Ferrari. Enfim, a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos. Num momento estamos a sentir a estrada – e todas as suas irregularidades – num assento tipo cadeira de praia, no outro estamos encaixados numa bacquet de couro Connolly com vista para a casa de Enzo Ferrari.

Ainda hoje me arrepio quando me lembro do momento em que me sentei naquela poltrona debruada artesanalmente, de frente para o Cavallino provocante no centro amarelo do volante. Nem levei a mal quando, ao meu lado, o piloto de testes – que guiava de forma sublime, aliás – me levou ao tapete mesmo antes de arrancarmos: “piano piano se va lontano” – disse-me ele, enquanto colocava uma mão autoritária no manípulo da caixa. Tomei aquilo como um eufemismo italiano para um mais prosaico “ou te portas bem ou sais porta fora num instante”.

Daquele dia trouxe muito mais do que uma volta ao volante de um Ferrari 456 GT: foi o momento em que a minha cultura automóvel ganhou vida. Sim, sempre gostei de carros e naquela fase da minha carreira até escrevia diariamente sobre eles, incluindo a Ferrari. Mas ter um culto sem o experimentar é como ser um melómano que investe tudo no sistema de som e dispensa a música ao vivo.

O automóvel é um mundo repleto de ícones e de uma imensa história. E à medida que os anos vão passando, este universo vai-se enriquecendo e ganhando contornos de uma cultura amadurecida. Há quem lhe chame “memória”. Nos dias de hoje, 150 anos depois do primeiro carro, esta mesma “memória” parece chegar a cada vez mais pessoas.

Os fabricantes de automóveis estão a tornar-se “vendedores de passados”? De todo. Ao contrário da sátira de José Eduardo Agualusa, aqui não é necessário nenhum Felix Ventura a vender árvores genealógicas fictícias, bem pelo contrário. O passado da indústria automóvel é cada mais inspirador para o presente. E valorizado também.

Dúvidas? Pouco tempo depois daquela tarde em Maranello começava um dos fenómenos mais interessantes da indústria nos tempos modernos: o lançamento de modelos revivalistas. A Volkswagen deu o tiro de partida com o lançamento do New Beetle, em 1998, uma reinterpretação do “Carocha” que vendeu mais de 1 milhão de exemplares (nada mau para um carro de “nicho”…). E o que dizer do Mini dos tempos modernos? Lançado em 2001, já vai na sua terceira geração e é um caso de sucesso para a BMW, marca que detém a sua propriedade. Mais recentemente, em 2007, era outro modelo “retro” que iria salvar uma marca meio perdida no mercado: o 500, da Fiat. Entretanto, aguarda-se com a maior expectativa (eu pelo menos…) o renascimento da Gordini pela Renault.

A tendência está longe de esgotar por aqui. Bem pelo contrário. Está cada vez mais refinada.

Já é conhecido que os automóveis clássicos rendem milhões, num universo em que o investimento consciente há muito substituiu a simples carolice. Agora, porém, entramos numa fase nova: as marcas estão a ir a jogo com departamentos próprios para restauros de fábrica que produzem pérolas tão exclusivas quanto caras.

A Land Rover, através da sua divisão Land Rover Classic, é um bom exemplo da investida dos construtores nesta nova área de negócio. Depois do programa “Series I Reborn”, o ano passado, a marca britânica volta à carga com o “Range Rover Reborn”, cuja estreia aconteceu esta semana no salão de clássicos Retromobile, em Paris, onde foi apresentado um Range Rover de 1978 “novinho em folha”. Um exemplar na cor original “Bahama Gold”, de três portas com um V8 de 3,5 litros e carburador Zenith-Stromberg 175CD… ou seja, o “pedigree” completo e com a vantagem ter acabado de sair da fábrica. O preço? Uns módicos 150 mil euros, mais coisa menos coisa.

A Land Rover Classic ocupa-se de cada vez mais pedidos destes “novos originais” e pode prestar vários tipos de serviços: desde aconselhar na compra de um chassis para posterior restauro, até à entrega do produto chave na mão.

A casa inglesa do grupo Tata Motors não está sozinha neste novo mundo de oportunidades. Muito recentemente, surgiu nos media um magnífico Lamborghini 350GT restaurado pela marca, que o devolveu à condição do primeiro dia.  Este foi o quarto trabalho completo da Lamborghini Polo Storico, depois da intervenção num Miura, um LM002 e um Countach. Este departamento especializado da marca de Sant’Agata Bolognese parece também não ter mãos a medir… Oferece serviços de restauro, mas também de gestão arquivística, certificação e fornecimento de peças originais através da rede concessionários, no que constitui uma forma de preservar o valor dos veículos. É interessante constatar uma das mensagens que a Lamborghini faz questão de passar para o grande público: estão disponíveis mais de 70% das peças do parque de carros históricos da marca, podendo ser fabricadas outras sempre que necessário.

Todas estas tendências falam por si e pela magia do automóvel. Elas só são possíveis num sector com a tal “memória”. De preferência com aquela aura “hype” indispensável ao sucesso. Mais, o resultado estrondoso de cada um dos modelos retro já lançados – e de outros que aí virão – só acontece porque esse património histórico atinge em cheio o desejo das pessoas.

Não conheço outra indústria que se possa orgulhar disto assim.

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Que rico passado – O salão Retromobile, que abriu portas esta semana em Paris, é a prova cristalina do sucesso que o passado automóvel está a alimentar a vários níveis. Por um lado, assistimos a um espaço recorde dos fabricantes originais, que não se coíbem de, num certame de clássicos, mostrarem protótipos de futuros modelos retro que serão lançados no mercado. Mas há mais recordes: como o da Sotheby’s, que registou o volume de negócios mais elevado de sempre em leilões realizados no evento parisiense. Ao todo, foram mais de 25 milhões de euros. O carro mais caro? Um Alfa Romeo Tipo B P3, de 1934, por cerca de 4 milhões de euros. 

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Luís Pimenta acompanha o setor automóvel há mais de 25 anos. Editou e dirigiu vários órgãos de comunicação social especializados e generalistas e dedica-se hoje à consultoria e produção de conteúdos e de plataformas de comunicação online.