Prazer de condução: realidade ou mito?

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Trata-se de um dos grandes desafios para as marcas automóveis face à chegada de uma nova geração de consumidores: mostrar que os carros continuam a ser importantes e, acima de tudo, desejáveis na vida quotidiana. Com o desenvolvimento da geração Z (jovens nascidos a partir de 1990), outras prioridades começaram a assumir o lugar que anteriormente era pertença dos automóveis nas suas vidas.

Se, antes, o desejo de emancipação se refletia no ato de tirar a carta de condução e comprar um carro para poder ir a todo o lado, hoje o desejo de emancipação é já algo diferente numa geração de ‘Millennials’ em que tudo está à mão de semear. Um efeito da mudança de paradigma na sociedade moderna.

Basta recuar três décadas para lembrar que o automóvel era visto pelos jovens adultos como uma forma de sair do seu centro de conforto tradicional, podendo então lançar-se à ‘aventura’ por caminhos inéditos. Fosse para ir às compras, para o trabalho ou, muito simplesmente, para as saídas com os amigos, o carro era o companheiro ideal. Além disso, era um local sempre a jeito para… o romance (ah! O romance com cheiro da árvore mágica pendurada no espelho!). Hoje, o cenário tende a ser diferente. Os transportes públicos desenvolveram-se de forma mais eficiente, o estacionamento urbano é uma ‘guerra’ e a consciência ecológica está muito mais enraizada na sociedade. Como se não bastasse, o fenómeno tecnológico tantas vezes sonhado no passado pelos escritores de ficção científica, a Internet, chegou em força, facilitando contactos e compras. É um fenómeno mundial, capaz de ligar toda a gente de forma instantânea e de trazer as compras diretamente ao consumidor sem que este tenha de efetuar qualquer esforço – que não o de teclar e de encontrar o cartão de crédito. Assim, o carro vai perdendo relevância.

Mais ainda quando se olha para o que aí vem e se percebe que os sistemas de mobilidade em preparação pretendem fazer da noção tradicional de propriedade automóvel uma coisa obsoleta. Irá acontecer, mais tarde ou mais cedo: o carro vai passar a ser um serviço ocasional e não um bem que passa uma grande parte da sua ‘vida’ parado à espera que nos acerquemos de novo para uma qualquer viagem.

Então… onde fica o prazer de condução e o que é isso? Será um mito fantasioso nostálgico de quem quer ficar preso no passado a reviver os anos de juventude ‘ad aeternum’ ou existe de facto uma sensação de prazer inerente ao ato de conduzir? Resposta definitiva não tenho nem me proponho a tal. Mas, por experiência própria, sou adepto da segunda teoria. O gosto em conduzir não é algo que se possa dizer que todos os condutores tenham de partilhar, até porque, para muitos, o carro serve para ir do ponto A ao B e para fazer as compras da semana. E, quanto a isso, tudo bem. Mas, para outros, um carro pode ser um instrumento de diversão em que a engenharia é colocada a nosso favor.

Entre os muito potentes e aqueles que primam pela simplicidade, há muitas formas de os carros nos colocarem com um sorriso idiota na cara pela sua condução. Um dos mais simples e que nem sequer era do parque de imprensa de qualquer marca foi um quase banal Toyota Corolla AE86 que pude conduzir com o seu dono ao lado. Não estava de origem, como quase nenhum está nos dias que correm, pelo que tinha algumas diferenças sensíveis ao nível do comportamento, mas era tão interessante e responsivo que isso nem me interessou. Pelo contrário, provou ser viciante: era simples atirá-lo para uma curva e esperar que dali saísse uma qualquer manobra espetacular – certamente, qualquer uma delas parecia mais interessante do lado de dentro do que a partir do exterior.

Sobre este Toyota: não fosse a fama conquistada na série Initial D e talvez fosse um modelo ignorado… Para quem não sabe, Initial D é uma animação japonesa (manga e anime) que, em vez de robôs e de alienígenas (é um tema recorrente…) a tentarem conquistar a Terra, coloca jovens a competirem entre si nas montanhas de Gunma pelo título de ‘Rei do Drift’ num enredo que nem sequer é muito lógico: há rivalidades e há sempre alguém que é suposto ser o ‘mestre supremo’ da coisa até aparecer outro ainda melhor e assim sucessivamente. Ainda assim, descontando a parte mirabolante da história animada, esta é uma recriação muito fidedigna do nascimento do drift nas estradas serpenteantes do Japão há algumas décadas. Foi também aí que nasceu a história de legado do AE86, o ‘hachiroku’, designação japonesa para 86, um pequeno coupé de baixa potência, mas com equilíbrio perfeito que, nas mãos certas, era exímio para o drift. E a história de Takumi Fujiwara, o protagonista que conduzia o tal Corolla Sprinter Trueno AE86 na animação, ganhou até algum paralelismo com o ‘Drift King’ japonês, Keiichi Tsuchiya. Que tem na sua garagem um AE86 bastante alterado e um Honda NSX Type R. No vídeo em baixo, fica uma amostra da perícia de Tsuchiya.

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Resulta curioso que o seu sucessor espiritual, o GT86, lançado em 2012, acaba por ser tão fiel ao espírito original do agora clássico – e extremamente inflacionado – clássico japonês. Talvez um pouco ‘submotorizado’, com os 200 CV do motor 2.0 boxer daquele que ficou conhecido como ‘Toyobaru’, cognome que lhe foi atribuído pelo desenvolvimento conjunto com a Subaru. Enfim, tal como o AE86, que não era rápido, mas tinha uma facilidade de condução alinhada pela conjugação de potência e de peso. E lá vem o sorriso idiota, uma vez mais. O mesmo sucedeu, por exemplo, recentemente, ao volante de um Honda Civic Type R de nova geração em circuito, modelo que tem um carácter tão fogoso que permite ao condutor imaginar-se a bordo de um carro de competição. Ou, também, com um Mazda MX-5 (qualquer um, não sejamos esquisitos), outro daqueles que ninguém deve deixar de fora de uma lista de carros a conduzir na sua vida (ou o seu gémeo recente, o Abarth 124 Spider).

Porque, afinal de contas, sendo uma noção de prazer, há uma ideia de adição que nos faz procurar e tentar repetir as mesmas sensações ciclicamente. Explicar esta noção a alguém não é fácil, sobretudo a quem não quer saber de carros e os considera apenas um sorvedouro de dinheiro. Que o são, claro. Mas vão muito além desta visão unidimensional. Há todo um conjunto de elementos acessórios da experiência de condução que nos levam – a nós, entusiastas – a tirar partido da emoção e da adrenalina que a condução oferece. Por exemplo, a sonoridade do escape, que varia entre a melodia para os apreciadores e o ruído insuportável para quem não está para aí virado.

Depois, claro, há ainda os carros exóticos. Aqueles que arrepiam só de se agarrar no volante, como um Mercedes-AMG C 63 S Cabrio (um ‘sonho de uma noite de verão’), um Ferrari 360 Modena ou um Porsche Boxster GTS PDK. E se o seu Renault Clio ou Hyundai i20 também o fazem sorrir quando está ao volante, não se preocupe. É só mais um daqueles que sente prazer ao volante, mesmo que não saiba.