O sonho do capitão

João Oliveira
João Oliveira
Jornalista

No Norte, os domingos ainda usam fato de cerimónia, se é para ir almoçar fora e comemorar que seja ao domingo e longe de casa. O Sonho do Capitão, em Ponte de Lima, sempre foi o nosso salão de festas.

– Há quanto tempo não vais lá? – pergunta a minha mãe.

– Há séculos – respondo, aos 35, como se tivesse cinco.

O retrovisor do carro dos pais tira-nos anos de vida.

Desta vez não havia nenhuma data especial que justificasse a viagem, apenas a minha presença, o que para um casal órfão de um filho diário talvez já seja motivo suficiente para celebrar. Fomos pela nacional, como sempre fazíamos.

– Já vimos aqui um rali – digo, depois de meia hora de estrada e uma curva à esquerda.

– Não acredito – comenta a minha mãe – Lembras-te?

Lembro-me como se tivesse sido há 25 ou 30 anos. Agora vou atrás, daquela vez fui à frente na Opel Kadett, PI-crónicas, 33-50. Duas pessoas e meia para três lugares. Se aparecesse a polícia, e apareceu algumas vezes, ofereciam-lhe uma peça de roupa ou um pijama e pediam que fechassem os olhos. A minha mãe vendia roupa, não cadeirinhas.

Ia connosco sempre que as provas calhavam ao domingo à tarde. Ficava na carrinha a atualizar O Livro. Costumo dizer que a Enciclopédia Geográfica do Readers Digest foi a primeira obra que li, mas foi o livro de dívidas da minha mãe. Ao domingo de manhã, depois da missa das sete, quando o pronto-a-vestir se enchia, eu não era apenas o filho da dona, mas alguém que sabia quanto cada cliente lhe devia. Me devia. Só falhava este ritual quando havia corridas. E só não ia às corridas quando havia jogo do Vitória.

Os jogos do Vitória eram sagrados.

– Não deve haver nenhum rali a que não tenhamos ido – diz o meu pai.

E provas de velocidade, rampas, rallycross, Fórmula1. A determinada altura o pessoal do café começou a organizar-se para ir em grupo, mas preferíamos continuar a ir sozinhos. Não era justo passar o ano a apanhar sol, chuva e pó, para depois aparecer na fotografia com quem só conhecia o Sainz e o Colin McRae.

– A ver se para o ano vamos ver o Rali de Portugal – digo.

Há séculos que digo isto. Isso e voltar ao estádio.

No ano em que entrei para Universidade, ele deixou de ser sócio do Vitória e parou de fingir que gostava de futebol. Eu, pouco a pouco, deixei de ver corridas.

Chegado o estágio e acreditando que num jornal de referência seria apenas, imagine-se, um estagiário, enviei um email para o AutoSport a pedir emprego. Como currículo apresentei o facto de ser o jornal que o meu pai lia desde o número um.

E tudo voltou. Durante três anos passei grande parte dos meus sábados e domingos no Autódromo do Estoril, as bancadas desertas, os carros e o álcool da véspera às voltas na cabeça. A realidade é uma enxaqueca crónica. Sempre que era destacado para ir ao Norte passava pela aldeia e levava-o comigo. Mas algo mudara. Se antes era ele quem me dava a mão para pular uma cerca ou subir o muro à procura do melhor lugar, agora era eu quem lhe dava um convite ou passava a minha credencial através das grades. Era eu o piloto e ele o co-piloto.

– E lembras-te de quem ganhou o rali?

– Está a dormir – sussurra a minha mãe.

Ainda hoje não sei se ia às corridas por ele, se ao longo dos últimos dez anos fui ficcionando o meu desinteresse pelo desporto automóvel em favor do lado intelectual, que um verdadeiro intelectual pode gostar de bola, mas não de carros, sei que, no início desta temporada de Fórmula 1, dei por mim a ver algumas provas às escondidas e adormecer com o comando na mão.

Não, não sou nada saudosista – e começo a perder a paciência para a bonita mas mil vezes repetida ideia de que o desporto é o regresso semanal à infância –, mas era capaz de jurar que, enquanto dormitava, senti o cheiro a Assado no forno que a minha mãe fazia todos os domingos de manhã.

– Acorda, João. Já chegamos.