Sós, não perdemos o norte

Jorge Flores
Jorge Flores
Jornalista

Não é raro as pessoas perderem o norte quando estão sozinhas. Mas, numa viagem de automóvel, a lógica não é essa. Funciona até ao contrário.

Se é daquelas pessoas que se perde sempre que vai ao volante e com companhia ao lado, saiba que não está só. Somos muitos. Talvez todos. Quem nunca deu mil e duas voltas para encontrar o seu restaurante favorito, aquele onde vai todas as semanas, justamente na noite em que queria impressionar alguém? Quem nunca sentiu que talvez tenha tido uma prestação “impressionante”, ainda que não da forma idealizada?

Existe, porém, uma explicação nos manuais da psicologia para tão tristes figuras. Trata-se de um fenómeno social chamado “diluição de responsabilidades”. Consagrado, pela primeira vez, em 1968, por Darley e Latané, o conceito é simples de reter e poderá, inclusivamente, servir de desculpa em momentos mais embaraçosos: todos temos tendência a diluir a nossa responsabilidade individual numa dada situação, quando estamos na presença de mais pessoas. E, quando essa responsabilidade não é explicitamente atribuída.

O restaurante era uma escolha sua e a sua companhia ignorava onde ficava, mas, ainda assim, esperava que lhe indicasse a direção? Sim! Será de concluir que, se levar mais do que uma pessoa a jantar, as possibilidades de se perder serão ainda maiores, diluindo-se a responsabilidade, essa besta, pelos ocupantes.

Por todos quantos, a bordo do veículo, presenciem in loco a sua gritante desorientação geográfica. Há casos mais graves do que passar por idiota. Imagine que, numa das voltas absurdas que deu até dar com o restaurante, se deparou com um acidente. Pior. Com uma vítima a precisar de assistência médica imediata.

Segundo a teoria de Darley e Latané, comprovada em testes realizados ao longo das décadas de 60 e 70, caso o sinistro tivesse chamado ao local várias pessoas, o pensamento reinante no grupo que seguia no carro seria: “Alguém chamará o 112. Não preciso de ser eu”. Uma resposta mental instantânea e inconsciente, mas que seria bem distinta se não houvesse ninguém no local. Porque, aí, a responsabilidade não seria diluída nas testemunhas.

O fenómeno pode ainda explicar-se de outra forma: grupo de pessoas que, por ação ou omissão, permite a ocorrência de eventos que nunca permitiria se estivessem sozinhas.

Também há quem associe a “diluição de responsabilidades” à reação do povo alemão no pós-holocausto e até à defesa de alguns nazis perante o julgamento a que foram sujeitos. “Porque não fiz nada para ajudar nenhum judeu? Pensei que alguém o faria”. 

As companhias são muito sobrevalorizadas. No meu caso, vítima assumida do fenómeno social, perco-me de qualquer maneira. Mas, sempre que estou só, fujo para perto do mar. Fica muito mais fácil saber onde fica o norte.