Por favor não nos roubem o brinquedo

Luis Pimenta
Luis Pimenta
Tendências

ten·dên·ci·a
Acção ou força pela qual um corpo tende a mover-se para alguma parte.

(in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Estamos de acordo. Uma citação de dicionário está longe de ser a forma mais empolgante para começar uma crónica. Reconheço. Mas este é o primeiro artigo de uma coluna regular e sinto sempre aquela necessidade de explicar ao que venho. Tenho um perfeito horror às coisas e às conversas demasiado vagas e por isso o primeiro passo foi desde logo balizar o tema destes artigos. Em “tendências” cabe quase tudo, é certo – até uma definição de dicionário que poderia significar a mobilidade e o carro – mas cabe, principalmente, o momento incrivelmente apaixonante que vivemos na definição do futuro do automóvel.

Esta indústria vai mudar mais em duas décadas do que nos 120 anos que passaram desde o lançamento do primeiro carro produzido em série. A perda de protagonismo do motor de combustão, o surgimento das motorizações “verdes”, os veículos autónomos e a conectividade são apenas alguns desses fatores disruptivos. Como em nenhuma outra era da sua história, o sector está a passar por uma profunda transformação – um novo paradigma que assenta em tecnologias alternativas e em soluções de mobilidade.

Gosto de olhar para estas previsões com alguma cautela, até porque o mundo está cheio de bolas de cristal partidas. No entanto, quando penso que há menos de 10 anos ainda fazia chamadas com o meu Nokia 6230, já acredito em tudo. Até num carro elétrico sem condutor. Claro que há mais: os cinco maiores grupos mundiais (a saber, Toyota, Volkswagen, Renault-Nissan, Hyundai-Kia e General Motors), já anunciaram planos para dezenas de lançamentos de carros elétricos até 2020, a que se somam as iniciativas da Mercedes e da BMW.

Há poucos dias, o Morgan Stanley reviu em alta as suas estimativas de vendas de carros elétricos até 2025, prevendo uma subida de 10 a 15%, ou seja, mais de três vezes os outlooks médios atuais. Isto porque o banco de investimento norte-americano acredita que apesar de persistirem muitas questões em torno dos veículos elétricos, nomeadamente a autonomia e as baterias, com as consequentes reticências dos consumidores, “a subida abrupta dos custos da adequação dos motores de combustão ao quadro regulatório” está a pressionar os fabricantes.

A presente conjuntura política, nomeadamente com a alteração de prioridades ambientais e energéticas decorrentes da vitória de Donald Trump, nos EUA, e a incerteza quando a desfechos eleitorais semelhantes na Europa, podem sempre complicar as contas dos construtores, em especial numa indústria onde o longo prazo é primordial. No entanto, o nível de comprometimento público que estes já evidenciaram, com prazos e volumes claros (o último Salão de Paris foi estrondoso neste aspeto) bem como os investimentos sem precedentes, demonstram que este é um caminho que atingiu o ponto sem retorno.

Mas agora que a mudança está em marcha, façamos um pequeno exercício de futurologia. Imaginemos um mundo repleto de carros elétricos, muitos deles (alguns, vá…) sem condutor. E vamos ser claros: um motor elétrico é, digamos, um motor elétrico… compará-lo com o motor de combustão é como colocar lado a lado um mantra tibetano e a alegria e exuberância das Bodas de Fígaro. Sim, o motor elétrico é inteligente, mas não há Q.I. que nos valha sem uma boa dose de Q.E.

Há uns anos, fui a França entrevistar Patrick Le Quément, um dos mais famosos e polémicos designers do sector automóvel, então na Renault. Retenho uma das suas frases: “O que distingue o automóvel é a paixão e a emoção que suscita. É diferente de tudo. Repare: temos muitas revistas de automóveis, mas nunca vi nenhuma sobre frigoríficos”.

Além de “famoso” e “polémico”, Le Quément também é exímio em soundbytes, mas a sua ideia faz todo o sentido. A cultura automóvel é um facto indesmentível e a paixão terá de estar sempre presente em qualquer estratégia de qualquer fabricante. Uma frivolidade aquilo que aqui escrevo? Não creio. Há algum tempo deparei-me com o trabalho “Consumers Influences Study – Automobiles”, da Hill & Knowlton, no qual se refere que, com 76% de respostas positivas, os compradores de carros foram aqueles que se mostraram mais suscetíveis em recomendar a sua escolha a outros. E é aqui que os fatores emocionais se evidenciam para além de qualquer dúvida: é também no mercado automóvel que se encontra a maior percentagem de “mavens” – 29%. Os “mavens” são assim como o “Cálice Sagrado” dos marketeers, ou seja, pessoas a quem reconhecemos conhecimento na matéria e que exercem um efeito decisivo no processo de compra. Os influenciadores por excelência.

Volto a Le Quément. Não para lhe dar razão nos carros que desenhou, mas sim para sublinhar as suas palavras. Não compramos um carro como quem compra um frigorífico. Por isso, numa era de mudança radical do automóvel, o grande desafio não está só nas baterias, mas também na busca da energia diferenciadora que faça com que cada carro continue a ser distinto do outro. Os carros não são todos iguais e é aí que reside a sua magia.

Antes de escrever esta crónica, sucumbi a um vídeo viral nas redes sociais que mostra um Golf GTI MkI em votação no site de ideias da Lego, onde também vi um Caterham Seven amarelo e lindíssimo escolhido pela mesma via. Lembrei-me – claro! – como o automóvel tem esse poder de se apoderar da nossa imaginação. As tardes a brincar com os legos já lá vão há muito tempo, mas, passados todos estes anos, não consegui deixar de pensar na mesma coisa quando olhava para o futuro dos automóveis “a sério”: por favor, não nos tirem o brinquedo…


the-grand-tour

MUNDO CARRO É oficial: o Grand Tour já é o programa mais visto na Amazon. Jeremy Clarkson, Richard Hammond e James May demonstram assim ter mais valor que a própria marca, o hoje irrelevante Top Gear. A fonte que escolhi para ilustrar esta notícia vem da BBC.

NOVOS PLAYERS O CEO da Intel, Brian Krzanich, esteve no Salão Automóvel de Los Angeles, onde anunciou um investimento de 250 milhões de dólares na tecnologia de carros autónomos. Porque é que isto é importante? Aquilo que tem faltado aos carros sem condutor é precisamente uma computação mais avançada, ainda em desenvolvimento. E quando a Intel entra em campo…

ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO?  “Se produzires uma boa experiência, os clientes vão dizer aos outros. O word of mouth é muito poderoso” – Jeff Bezzos, CEO da Amazon.


* Luís Pimenta está ligado ao setor automóvel há mais de 25 anos. Editou e dirigiu vários órgãos de comunicação social especializados e generalistas e dedica-se hoje à consultoria e produção de conteúdos e de plataformas de comunicação online.