Tesla: Vale ou não vale?

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Qualquer que seja a perspetiva pela qual se olhe o fenómeno Tesla, é impressionante verificar aquilo que Elon Musk já conseguiu com a sua empresa, não só em termos da própria estrutura, mas também para o próprio setor tecnológico e, no caso premente, na indústria automóvel.

Os cânones de propulsão estão em mutação acelerada, motivada em grande parte pelos feitos da Tesla com os seus modelos, mas também se pode dizer o mesmo em termos de posicionamento no mercado, surgindo como uma alternativa às tradicionais marcas Premium. Não era tarefa fácil, mas a Tesla conseguiu sê-lo com veículos bem concebidos e eficientes.

Porém, nas últimas semanas, a Tesla foi também notícia pela sua cotação em bolsa e pelo facto de se ter tornado na marca automóvel mais valiosa dos Estados Unidos da América (EUA), suplantando a General Motors e a Ford com 51.54 mil milhões de dólares de avaliação. Mas, apesar de tudo, este facto traz consigo um problema: o medo de uma bolha especulativa. Isto porque, muito simplesmente, a Tesla tem um valor por ação que é superior a 300 dólares, tratando-se de uma companhia que, em termos automóveis, vendeu no primeiro trimestre deste ano 25.418 unidades, um recorde e um crescimento de 69% face a igual período do ano passado, mas os analistas preveem, ainda assim, uma quebra nos lucros. A este ritmo, note-se, a Tesla deverá ter uma produção em redor das 100.000 unidades em 2017, fazendo uma estimativa muito por alto. Atendendo a isto, valerá os tais 300 dólares por ação?

Olhando para o ano passado, a Tesla continuou a ter prejuízos (também se pode dizer que os mesmos se devem aos investimentos feitos na preparação para o futuro), enquanto a companhia de Mary Barra (GM) voltou aos lucros recorde. No entanto, paradoxalmente, não é tão valiosa quanto a Tesla.

Parece confuso, mas talvez exista uma explicação que… não explica tudo. No cerne dessa apreciação bolsista estão, sobretudo, aspirações e ideias do projeto de Musk, que reparte a sua atenção por setores como os dos transportes rodoviários, espaciais (SpaceX) e da energia solar (SolarCity). Não se pode contrariar a ideia de que a Tesla poderá vir a ser uma peça inigualável na nova visão dos transportes – elétricos, sustentáveis, autónomos e conectados – mas, o valor que lhe é incutido neste momento faz recordar os tempos anteriores à grande crise económica de 2008, quando a especulação era aceite de forma mais ou menos aberta.

O problema não está na marca, atente-se, que faz o seu caminho, mas sim na forma como é abordada por analistas e investidores, que apontam a sua crença de que a Tesla será enorme, um ‘game-changer’ industrial, para assim produzir um efeito de crescimento em bolsa. Face a isto, há quem aponte jogos de interesses financeiros para alavancar o potencial da companhia. E aqui reside um dos problemas…

Um dos analistas de assuntos tecnológicos e colunista do The Verge, Walt Mossberg, escreveu no Twitter que a apreciação da marca em bolsa era irrealista: “Admiro a Tesla e @elonmusk, mas este é o enésimo exemplo de que o valor em bolsa não reflete a realidade”. Ou seja, mesmo na indústria parece aceite por muita gente que a Tesla não tem o valor que lhe é dedicado em bolsa, sendo alvo de uma bolha que vai enchendo, reconhecendo-se assim o facto de as cotações serem pouco fidedignas.

Os objetivos da companhia são ambiciosos: Musk quer vender 500.000 unidades já em 2018. Se leu a parte acima, terá visto que em 2017 deverão ser vendidos cerca de 100.000 carros. O que implicará um aumento substancial da sua capacidade de produção em pouco mais de um ano, algo que também levanta muitas questões.

Model 3 essencial

O Tesla Model 3 terá um papel fundamental na estratégia da marca, mas o seu sucesso parece garantido à partida, já que as reservas foram bastante numerosas, mas há aqui um outro ponto curioso em relação às vendas esperadas. O subsídio federal atribuído nos EUA para os elétricos é reduzido assim que um construtor vende 200.000 veículos, decrescendo faseadamente.

Ou seja, até mesmo o objetivo de vendas pode ser afetado pelo próprio crescimento orgânico da companhia, uma vez que o Model 3 é um modelo direcionado sobretudo para clientes de classe média que procuram alternativas aos fabricantes Premium alemães. A independência destas tecnologias face a incentivos estatais é outro dos desafios que não é exclusivo da Tesla, mas sim de todos os construtores que apostam na tecnologia elétrica. Para os modelos Premium de gama mais elevada, apontados a outros clientes, a questão dos incentivos é pouco importante, mas para um de classe média, isso assume uma outra importância. Ou seja, a estratégia de crescimento da marca pode vir até a ser afetada pelo seu próprio sucesso.

Além disso, mesmo quando se aponta a validade do conceito elétrico e de mobilidade da Tesla, importa notar que as companhias rivais não estão paradas na sombra: Daimler, Volkswagen, BMW, Toyota, Honda, General Motors, Hyundai e Ford, entre outras, além das proeminentes companhias chinesas, trabalham em novas soluções de mobilidade e de segurança que rivalizarão com a Tesla. A Volvo, por exemplo, terá com o seu novo XC60, já este ano, um modelo tremendamente seguro em termos de funcionalidades tecnológicas.

Resta saber como é que a Tesla vai lidar no futuro com esta responsabilidade de ser a marca mais valiosa dos Estados Unidos sem que tenha ainda os méritos de vendas para tal. O que parece evidente é que a apreciação da Tesla em bolsa se baseia na expectativa de futuro e não no presente. A própria sustentabilidade da Tesla depende de uma série de fatores e esta avaliação em bolsa pode trazer mais pressão do que boa sorte…