Mais um verão, os velhos ‘problemas algarvios’

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Chegado o verão, a região do Algarve ganha vida redobrada graças à tradicional romaria de milhares de turistas que se dirigem para aquela que é cada vez mais uma zona procurada não só por portugueses, mas também pelo turismo oriundo de outros países da Europa e não só.

O tempo parece fluir mais devagar e as temperaturas elevadas ‘pedem’ a redução drástica da roupa no corpo, numa proporcionalidade invertida que faz esquecer as preocupações doutros meses. Mas é também com a enchente de verão, que permite a esta região colmatar alguma da apatia nos meses de inverno, que se voltam a vislumbrar os mesmos erros na condução de muita gente e os mesmos problemas nas infraestruturas locais, numa combinação que, não raras vezes, produz resultados dramáticos nas estradas.

Tendo sofrido diversas melhorias ao longo dos últimos anos, a estrada nacional 125 continua a evidenciar dificuldades para lidar com o aumento do volume de tráfego nos meses de verão. A segurança da mesma melhorou desde que se realizaram obras em diversos pontos da via, mas não desapareceram na sua totalidade os perigos: a estrada a passar praticamente junto a portas de casas, má sinalização e má conservação do asfalto em muitos dos troços ou, simplesmente, obras por acabar que à noite surgem do nada – uma tentativa de não ‘atrapalhar’ durante a enchente de verão – acabam por colocar à vista as deficiências desta que é uma das estradas mais complicadas de enfrentar em todo o país.

Além disso, os problemas de escoamento de trânsito parecem ter aumentado, sobretudo pelo aumento do número de carros na região, não só de portugueses, mas também de espanhóis, franceses, ingleses, alemães e do Luxemburgo. De emigrantes e não só. O melhor exemplo dá-se quando os parques aquáticos e demais atrações turísticas encerram e as multidões rumam para outras paragens. A debandada entope as estradas e aquilo que se sente nas grandes urbes ao longo de todo o ano, nos dias de trabalho, transfere-se para o Algarve – os engarrafamentos.

Estar novamente a apontar as portagens como causadoras de todos os males é estar a ‘chover no molhado’, mas é uma verdade incontornável e indissociável de alguns dos problemas que a 125 hoje apresenta – é que esta é fraca alternativa à rapidez e relativa comodidade (o piso nesta também está a ficar degradado nalguns locais) da autoestrada. Desde a introdução das portagens na A22, são muitos os automobilistas que preferem a nacional para poupar mais uns trocos, não se importando de perder minutos em filas de trânsito. Foi mais ou menos isso que também fiz ao longo das férias no Algarve, embora o conhecimento de algumas das estradas regionais acabassem por servir de ‘fuga’ às filas de trânsito.

Ao nível da sinalização, questão atrás referida, existem algumas falhas que não são emendadas, faltando sobretudo indicações de velocidade ao longo da via. À falta de melhor, espera-se que seja ‘aquela’. Por outro lado, denotando uma clara falta de atenção de quem os coloca, há sinais de trânsito contraditórios: junto à Guia, por exemplo, um sinal vertical de final de proibição de ultrapassagem é secundado por um… duplo traço contínuo pintado no asfalto. Ultrapassar ou não ultrapassar, eis a questão?

Outros sinais verticais, gastos pelo tempo, carecem de características refletoras durante a noite, não mostrando atempadamente as suas indicações aos condutores, sintoma que também se pode ‘apanhar’ em muitas autoestradas – faça-se a Autoestrada A2 de noite, por exemplo.

Claro está que, depois, tudo isto se pode complementar com uma atitude mais displicente dos condutores neste período. Os chinelos nos pés, o calor que não ajuda e a areia a encher os tapetes são sinónimos de descontração, mas muitas das atitudes ao volante tornam-se ainda mais potenciadoras de desastres: alguns conduzem ao telemóvel, mantendo esse hábito com gritante teimosia (escondendo mais ou menos o aparelho com a mão em concha junto ao ouvido), outros ignoram os traços contínuos e executam ultrapassagens que têm tanto de corajosas como de idiotas, causando riscos desnecessários. Outros há que teimam em ‘alugar’ a via do meio da autoestrada, mesmo com a direita, ali ao lado, sozinha e desimpedida. Toda a gente sabe que no meio é que está a virtude, claro.

Em suma, para se melhorarem os números da sinistralidade rodoviária, não há só que estar sempre a apontar as causas já batidas do excesso de velocidade, condução sob efeito do álcool ou manobras mal calculadas. Há, também, que melhorar as condições das estradas para que as mesmas não apresentem locais que, depois, possam vir a ser apontados como ‘pontos negros’.

Só essa junção de fatores, além do óbvio civismo (coisa que, por vezes, parece faltar a muita gente), fará com que o ‘vaivém’ das férias se cumpra em segurança.