Xeque-mate ao peão

Jorge Flores
Jorge Flores
Jornalista

Não sei bem quando comecei a associar o xadrez ao tabuleiro rodoviário. Acredito que tenha sido na infância, graças a um velho amigo meu, absolutamente genial nas lides deste jogo.

Se bem me recordo, chegou a ser campeão nacional, nas camadas juvenis, e gabava-se de ganhar a três jogadores, ao mesmo tempo, com os olhos tapados. Sim, com os olhos tapados. Sem ver. Tudo o que tínhamos de fazer era dar-lhe as coordenadas correspondentes às nossas jogadas e movimentar as peças dele, consoante as suas indicações. Ele memorizava tudo e triunfava em todas as mesas. Em simultâneo. Sempre. Certo dia, porém, foi atropelado, enquanto atravessava uma estrada, porventura, de olhos fechados, ensaiando jogadas triunfantes na sua cabeça. Não se preocupem. Ele sobreviveu ao acidente e ainda hoje passa os seus dias a jogar, online, com adversários de todo o mundo. Mas penso que, desde então, passei a relacionar estas duas realidades. A forma como ele sacrificava peões no tabuleiro com vista a um bem maior davam-me que pensar. Eu? Defendia-os como irmãos, como podia, até à derrota final. Os peões éramos, somos, todos nós, simples mortais, frágeis e facilmente sacrificáveis no xadrez rodoviário. Mas e as restantes peças? Os reis não são difíceis de encontrar. Conduzem sentados no seu trono e esperam vassalagem à sua passagem, sacrificando todos quantos sejam precisos para o seu bem-estar. Rainhas também não faltam. Autoritárias, “comem” em todas as direções, sem dar satisfações a quem quer que seja. E ai de quem se lhe atravesse no caminho. Depois, temos as torres. Ou seja, condutores que andam sempre a direito, sem olhar a curvas ou a mais ninguém, numa espécie de autismo muito particular; e os bispos de paróquia, que apenas saem para os seus passeios domingueiros. Por fim, os cavalos. Sim, os cavalos. Aqueles que mudam de faixa de rodagem como quem dá coices em forma de “L”. Sem piscas nem rédeas. Há de tudo. O jogo é o mesmo. Com uma diferença. Jogam todos contra todos e, no fim, ninguém ganha. Ou então sou eu que ando a passar demasiado tempo na estrada. Nunca fui grande jogador de xadrez e não sou um condutor virtuoso. Mas tornei-me melhor peão no momento em que comecei a conduzir.