Biasion: “Loeb é uma espécie de Michael Jordan dos ralis”

Miki Biasion passou recentemente por Portugal, onde disputou RallySpirit, e tendo sido ele um dos poucos pilotos que se pode gabar de ter pilotado em competição o Lancia 037 Rally e o ‘monstro’ Delta S4, desafiámos-lo a compará-los, mas aproveitámos para saber bem mais…

Miki Biasion foi convidado especial do RallySpirit, onde pilotou um Lancia 037 Rally, há uns meses esteve no Eifel Rallye, onde regressou aos comandos do Lancia Delta S4, levando a seu lado uma navegadora muito especial, a sua jovem filha Bettina Biasion. Aos 58 anos, Massimo ‘Miki’ Biasion, mantém a simpatia ‘latina’ que sempre o caracterizou mas também alguma timidez. Não é fácil ‘roubar-lhe’ palavras, mas quando engrena, ninguém o agarra…

O Campeão do Mundo de Ralis de 1988 e 1989, continua a aparecer nestes eventos, e pelo que vimos da forma como pilotou os Lancia 037 e Delta S4, mantém muitos dos predicados que o levaram a ser um dos pilotos mais destacados da história do Mundial de Ralis. Foi ao volante dos Lancia Delta de Grupo A que foi Campeão do Mundo, mas ficaram bem na retina as suas prestações com o Lancia 037 Rally, carro que pilotou em Portugal e o Lancia Delta S4, com que correu em 1986, um carro que Biasion que já não se recordava muito bem da potência: “Já me tinha esquecido quão potentes eram estes carros de 1986, os grupos A não tinham motores com tanta ‘faísca’, as coisas mudaram mas estes carros de Grupo B continuam a ser muito, muito bons! Pilotei muitos carros na minha carreira, mas no que respeita à adrenalina, estes são claramente os melhores…”, disse o italiano, para início de conversa.

Miki Biasion foi muito feliz em Portugal, e por isso quisemos saber como são as suas memórias da prova portuguesa: “Curiosamente recordo-me bem do rali de 1985, que não ganhei mas que me deu imenso prazer, pois com um carro inferior, sem tração integral, o Lancia 037, fui segundo e consegui mesmo bater o Audi Sport Quattro do Walter Rohrl” revelou.

O italiano teve uma carreira em que não pilotou muitos carros diferentes ao mais alto nível, tendo começado pelo Opel Ascona 400, passou para o Lancia 037 Rally, Delta S4, entrou no mundo dos Grupos A com o Delta HF 4WD, depois as várias evoluções do Lancia Delta Integrale e terminou a sua carreira ‘oficial’ no WRC com o Ford Escort RS Cosworth. Depois disso, pilotou outros carros, mas foi com estes que construiu a sua carreira nos ralis. Por isso, que carro terá mais gostado na sua carreira: “O Lancia 037 Rally, sem dúvida, devido ao seu baixo peso e grande agilidade. Pilotava-se quase como um kart. Poderia não ter a tração de outros carros da sua era, mas era (e é) um carro incrível de pilotar” confessou o italiano, que é dos poucos que pode compará-lo ao Lancia Delta S4.

Curiosamente “destaco o 037 pela sua simplicidade de conceção em combinação com a sua eficácia e leveza. Esses eram (são) os seus grandes trunfos. O Delta S4 era um ‘bicho’ difícil de domar, mas fabuloso ao nível das performances. E é claro que com ele a adrenalina subia a níveis quase irracionais…” disse o piloto cuja carreira está polvilhada de boas memórias: “São várias mas há uma relacionada com o Rali de Portugal que lembro com alguma nostalgia. Uma história que até se passou na preparação da prova. Fomos treinar para a serra do Buçaco e o nosso carro ficou enterrado na lama, e já era noite escura. Chamámos a nossa carrinha de assistência mas também ela ficou enterrada na lama. Fomos procurar ajuda e encontrámos a casa de um agricultor. Perguntámos-lhe se tinha um trator para nos rebocar. Disse-nos que sim mas que só no dia seguinte o poderia fazer, já com luz, mas que poderíamos pernoitar na casa dele, que era muito pequena e humilde” recordou Biasion. Ficou uma vez mais provado que não há povo como o português para receber…

Os tempos da Lancia e Ford

Ter estado numa equipa italiana tanto tempo e depois mudar-se para uma equipa britânica tem que se lhe diga, e para um piloto latino, não deve ter sido fácil a passagem da Lancia para a Ford. Perguntámos-lhe quais as diferenças: “Essencialmente as equipas. Na Lancia havia muita comunicação e isso permitia ultrapassar qualquer dificuldade, mesmo quando os carros não eram competitivos. Havia uma grande energia e todos faziam com que ganhássemos. Na Ford era completamente diferente. O Escort Cosworth era um carro formidável mas a equipa não funcionava bem. Os vários elementos não comunicavam bem, e por isso o desenvolvimento não acontecia. E isso deixou-me bastante frustrado”, revelou.

Outro dos pontos interessantes da carreira de Biasion é a transição do Grupo B para o Grupo A, por isso era inevitável saber como, depois de pilotar o Lancia Delta S4, o que sentira Biasion na primeira vez que pilotou o Lancia Delta HF 4WD: “Foi um pouco um choque para mim. Na verdade estava habituado a um padrão de potência e houve como um corte. Um enorme corte! Os ralis para mim nunca mais foram a mesma coisa. Mas tem de se entender, depois do que sucedeu com o Henri Toivonen a FIA tinha que fazer alguma coisa. Mas eu gostava muito da adrenalina do Grupo B”.

Para um piloto que viveu os tempos áureos do Grupos B e que, naturalmente, continua a acompanhar os ralis do lado de fora, é inevitável perguntar-lhe o que acha dos ralis hoje em dia, e Biasion toca num ponto que muitos adeptos se queixam: “Acho que são bastante interessantes e evoluíram muito. São um bom espetáculo, e a Volkswagen deixou de dominar como acontecia no início, embora considere que os atuais pilotos são como super estrelas, estão muito mais distantes dos fãs, não como no meu tempo, onde tínhamos muito mais contacto com o público e não havia estas motorhome enormes de hoje em dia”.

Sendo natural que em trinta anos as coisas tenham evoluído, fazem sentido as palavras de Biasion porque sendo verdade que as ‘vedetas’ chegam aos adeptos através das redes sociais, que não existiam há trinta anos, a verdade é que foi também o contato direto com os pilotos que levou, também, a que os ralis crescessem. Mas será que era inevitável que os ralis tenham mudado tanto? “Talvez, porque é a tendência natural em todo o desporto automóvel e não apenas nos ralis. As marcas apostam no WRC para obterem notoriedade mas também mostrarem que a sua tecnologia é melhor que a da concorrência. Por isso acho que sim, é inevitável que isto evolua.”

1991-pt-biasion-01-slide-photo4

Qual o melhor…

Miki Biasion correu num tempo em que existiam imensos pilotos capazes de vencer ralis e títulos, algo que não acontece hoje em dia, em que é bem mais natural serem demasiadas vezes os mesmos a vencer, ano após ano. Mas para Biasion, isso tem acontecido porque Sébastien Loeb e Ogier têm dimensão semelhante a muitos grandes pilotos do passado: “Não será fácil ao Sébastien Ogier repetir os feitos de Loeb, pois ele conseguiu números incríveis. É uma espécie de Michael Jordan dos ralis. E isso é difícil de igualar, mas isso não significa que o Ogier não esteja já muito próximo do nível que Loeb atingiu quando estava no WRC. Diria que está bem encaminhado”.

Depois, a pergunta sacramental, que nenhum grande piloto do passado gosta de responder. Qual o melhor piloto de ralis de sempre e porquê? “É difícil de nomear algum. Há que ter em conta que os ralis agora são muito diferentes. Mas um grande piloto não se vê apenas pelos títulos que tem, mas também por outros aspetos. Acho que ninguém tem dúvidas quanto ao valor de pilotos como Markku Alen, Hannu Mikkola ou Timo Salonen, mas é claro que Sébastien Loeb e Sébastien Ogier têm carreiras dessa dimensão…”

Uma das coisas que os pilotos do passado que tiveram oportunidade de pilotar carros recentes referem é a facilidade de condução, mas Biasion não pode ainda fazer essa comparação: “Infelizmente ainda não tive ainda a oportunidade de pilotar um, mas tenho muita curiosidade, porque me parecem incrivelmente ágeis e com as novas regras deverão ser certamente ainda mais entusiasmantes de tripular”, disse Biasion, com um sorriso, já que recorda bem o prazer que teve quando lhe colocaram há trinta anos um novo ‘brinquedo’ como o Lancia Delta S4 nas mãos.

E quanto a provas preferidas? Miki Biasion venceu por três vezes durante a sua carreira os ralis de Portugal, Argentina, Sanremo e Acrópole, mas as preferências resumem-se a dois: “Para dizer a verdade, há dois ralis que pela sua dificuldade sempre me fascinaram. Falo do Rali Safari, no Quénia, um verdadeiro quebra carros e onde consegui o ‘milagre’ de terminar com o ‘aparentemente frágil’ Lancia 037, e é claro, o ‘vosso’ Rali de Portugal. Gosto muito dos troços tradicionais da prova, como Arganil ou Viseu, por exemplo” disse o piloto que hoje em dia já não acompanha tanto os ralis, quer seja ao vivo ou na TV: “Progressivamente, em Itália houve um desinteresse crescente pelo Campeonato do Mundo. Talvez porque tenham deixado de estar envolvidas marcas italianas, as cadeias de televisão também não se interessam, e isso refletiu-se muito por todo o lado em Itália”, confessou Miki Biasion, que, já sabe, pode rever no RallySpirit aos comandos do Lancia 037 Ralis a 18 e 19 de novembro, em Vila Nova de Gaia e zona da Vila do Coronado.

1985-miki-biasion-pe-peninha-rali-de-portugal-foto-pedro-couto-jpg