Bosch revela avanço que pode salvar motores de combustão interna

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Numa era em que os motores elétricos começam a ganhar destaque, a ‘vida’ dos motores de combustão interna parece estar ainda longe do seu fim. Se muitos dos construtores vão apostando em sistemas de propulsão alternativas para lançamento em breve, também continuam a não querer abdicar dos tradicionais motores de combustão interna.

Nesse mesmo sentido, um progresso anunciado recentemente pela Bosch poderá permitir também o prolongamento da sua existência, tanto mais que ainda existe alguma margem de desenvolvimento e de progressão para os motores térmicos. A marca de componentes eletrónicos, elétricos e de segurança anunciou a criação de um processo de produção de combustível sintético que permite aos motores de combustão interna uma total neutralidade em termos de emissões de dióxido de carbono.

De acordo com a Bosch, o resultado líquido deste avanço poderia resultar na redução de 2.8 Gigatoneladas (ou 2,800,000,000,000 kg) de CO2 apenas na Europa no ano de 2050. Esta data tem alguma relevância, uma vez que se trata, crucialmente, de uma mera década após a anunciada entrada em vigor de diversas proibições de venda por parte dos Governos de alguns países, como os de França ou Reino Unido, que pretendem terminar as vendas de carros com motor de combustão interna em 2040.

O segredo deste anúncio está na forma como o CO2 é capturado, ou seja, logo na produção do combustível e não na sua combustão. “Os combustíveis sintéticos são produzidos apenas com recurso a energias renováveis. Num primeiro estágio, é produzido hidrogénio a partir de água. Carbono é adicionado para produzir um combustível líquido. Este carbono pode ser reciclado de processos industriais ou até capturado do ar utilizando filtros. Combinando o CO2 e o H2 o resultado é o combustível sintético, que pode ser gasolina, Diesel, GPL ou até querosene”, lê-se no comunicado da companhia.

Assim, por outras palavras, este processo de produção de combustível tem como premissa a conversão dos gases de efeito de estufa numa matéria-prima que pode ser depois transformada em gasolina, Diesel ou gás natural. Tal como indica a Bosch, mesmo que os elétricos venham a ser implementados em larga escala, o facto de o combustível ainda ser necessários para setores fundamentais como o da aviação e transportes tornam estes avanços essenciais, fazendo com que também possam ser aplicados aos automóveis de passageiros.

Infraestruturas e compatibilidade são vantagens

A Bosch apelida mesmo este avanço como um ‘sopro de vida’ para os postos de combustível tradicionais e para os carros mais antigos. Tecnicamente falando, a Bosch garante que já é possível passar-se a produzir combustíveis sintéticos num ciclo de produção energética que, além disso, poderia ter como resultado a produção de combustível totalmente neutra em termos de emissões de dióxido de carbono.

“Se a eletricidade usada for gerada a partir de fontes renováveis (assim, livres de CO2), esses combustíveis são neutros e muito versáteis. O hidrogénio (H2) que é inicialmente produzido pode ser usado para alimentar pilhas de combustível, enquanto os combustíveis criados a seguir podem ser usados para alimentar os motores de combustão interna ou turbinas dos aviões”, adianta a companhia alemã.

Neste momento, já existem projetos-piloto para a comercialização deste combustível sintético – tanto gasolina, como Diesel e GPL – na Noruega e Alemanha, tendo ainda como vantagem o facto de ser um combustível compatível com as infraestruturas atuais e com os motores da última geração. Ou seja, adianta a Bosch, “levaria bastante menos tempo [a chegar ao mercado] do que a eletrificar toda uma frota de modelos”.

A compatibilidade dos combustíveis sintéticos também se alargaria aos carros clássicos, uma vez que “em termos de estrutura química e propriedades fundamentais, continua a ser gasolina”. Outra vantagem, aponta a empresa que também tem uma divisão de investigação em Braga, é de possibilitar a combustão sem criação de processos de criação de fuligem, o que permitiria a redução dos custos de sistemas de tratamento de gases.

“Até aqui, um motor de combustão interna neutro nas emissões de CO2 era coisa apenas possível de sonhar. Agora, pode-se tornar uma realidade. O segredo está nos combustíveis neutros sintéticos cujo processo de produção pode capturar o CO2”, refere Volkmar Denner, presidente do Conselho de Administração da Robert Bosch GmbH, afiançando que este pode ser um passo importante na luta contra o aquecimento global.

A Bosch adianta, ainda que se um combustível sintético (produzido a partir de fontes renováveis) fosse usado num híbrido, o custo de utilização em 160.000 quilómetros seria mais barato do que o de um carro elétrico, isto mesmo tendo em conta o decréscimo no custo dos elétricos em virtude do aperfeiçoamento da tecnologia.

Quanto custaria um litro?

Apontando que a produção de combustíveis sintéticos é ainda um processo complexo e dispendioso, a Bosch aponta que o aumento do volume de produção e a redução dos custos da eletricidade poderiam significar a redução dos combustíveis sintéticos em termos de preço. Referindo a existência de estudos já sobre este tema, é indicado que um litro – sem impostos – poderia custar entre 1.00 e 1.40 euros a médio-prazo.

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