EcoKart: Brincar às corridas com karts sem poluição e sem ruído

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Visitar um kartódromo pode ser uma experiência pouco atraente para muitas pessoas, sobretudo pelo barulho emanado pelas pequenas máquinas de competição que neles se encontram.

Contudo, acompanhando a tendência de eletrificação que se tem vindo a enraizar na indústria automóvel nos últimos anos, surge agora em Portugal a primeira plataforma de karts 100% elétricos, a Ecokart Portugal, a qual se demarca também pelo facto de ser a primeira do género na Península Ibérica.

Descrevendo-se como uma plataforma que procura colocar nos kartódromos (e pavilhões em eventos indoor) karts totalmente sustentáveis, a Ecokart Portugal nasceu da mente de António Pereira, que se dedicou a tornar a sua visão de corridas ambientalmente responsáveis numa realidade palpável. Dando ainda os seus primeiros passos, a ambição é, no entanto, muito forte, conforme explicou o fundador deste projeto ao Motor24.

“A EcoKart é uma plataforma de gente e de entidades empenhadas em promover a mobilidade sustentável e os desportos motorizados sem emissões. A génese da EcoKart remonta a 2005, quando estive envolvido num projeto de desenvolvimento de karts elétricos. Nessa época eu ainda corria e foi aí que me apercebi que, se calhar, já não existiam muitas desculpas para poluir o planeta enquanto brincamos às corridas”, recorda António Pereira num regresso momentâneo ao passado.

“A partir daí comecei a deixar de organizar eventos de karting e de pilotar – não me consegui convencer a poluir ao fazê-lo – e, finalmente, de há dois anos para cá consegui por o projeto EcoKart a andar. Por enquanto, é apenas uma plataforma. Temos estado a fazer algumas ações e a desenvolver a parte tecnológica, sendo que os primeiros protótipos de karts elétricos foram feitos com o Politécnico de Leiria e com a EuroIndy e os segundos estão agora a ser feitos com o ISEL de Lisboa”, acrescentou, referindo-se à nova versão do kart elétrico que está a ser desenvolvido em conjunto com o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL).

O kart que aí vem é visto como uma grande evolução face ao atual, sobretudo no que diz respeito à autonomia de utilização, tanto mais que está previsto um sistema de troca direta de bateria, pelo que se elimina assim a necessidade de ter o veículo parado em carga. A sua apresentação está agendada para outubro, começando-se a partir daí a “replicá-lo para criar uma frota elétrica”. Esse kart terá um sistema de base de 50 Amperes, com baterias de 3.5 kWh, motor elétrico de 10 kW e autonomias superiores aos veículos atualmente em uso pela Ecokart.

Kartódromo elétrico já em 2018

Com o presente pautado pelos avanços tecnológicos que vão sendo alcançados, a Ecokart Portugal projeta já a criação de um primeiro kartódromo 100% ecológico com karts totalmente elétricos já na primeira metade de 2018, havendo neste momento três possibilidades em cima da mesa, as quais Pereira se escusou a revelar. Mas o que referiu, desde logo, foi também a existência de projetos para a criação de kits de conversão de karts a gasolina para motorizações elétricas e para a comercialização de ecokarts ‘made in’ Portugal. A este respeito, aponta, há uma mais-valia de ser um veículo com sabedoria integralmente lusa, mesmo que os componentes “sejam comprados fora”.

“Prevemos cumprir a primeira frota de karts elétricos e ter o primeiro kartódromo elétrico para o ano. Queremos apresentar-nos como uma alternativa aos karts convencionais, para que os kartódromos percebam que já existem alternativas, que são ainda mais caras, mas muito mais sustentáveis”, complementou. Neste sentido, aponta que a situação tem estado a evoluir “muito rapidamente e que se o kart elétrico vai continuar a ser um pouco mais caro de fazer, pode também ir buscar mais público ao ser divertido sem fazer poluição – sonora ou de emissões”.

Os karts que são atualmente utilizados ainda têm uma autonomia muito flutuante, com António Pereira a referir que essa depende muito da utilização: num percurso indoor, por exemplo, “com a potência adequada igual à dos karts convencionais, este sistema faz 40 ou 45 minutos com duas pessoas a bordo”, explica, apontando ainda que são as retas as grandes inimigas da autonomia dos karts elétricos, uma vez que vão muito tempo na potência máxima. Para o futuro, as metas abarcam também a investigação de soluções de mobilidade solar ou de hidrogénio, mas também um mais elaborado kit de conversão de carros com motores de combustão interna para elétricos.

Em relação a valores, um kart elétrico tem “atualmente um preço de referência de 10.000 euros”, apontando que esse é o custo apresentado por alguns dos construtores de karts que, não os produzindo em exclusividade, têm algum kart do tipo na sua gama. “O único que conheço ao nível daquilo que vamos apresentar em outubro é um pouco mais caro do que isso [10.000 euros]. Estamos a trabalhar com o ISEL para que o nosso kart seja mais barato”, afiança ao mesmo tempo que coloca em cima da mesa uma possibilidade de patrocínio com ligação a marcas automóveis.

“Por exemplo, a carenagem do kart poderia ter a silhueta de uma marca e com aquilo que ela paga conseguirmos baixar os custos do mesmo, que é um objetivo, porque é de facto um entrave”, explica.

‘Ecosolidariedade’

Mas nem só de corridas trata a Ecokart Portugal. Além de pretender promover a mobilidade sustentável e a consciencialização para os desportos motorizados não poluentes, esta plataforma também se destaca pela vertente da solidariedade graças às ‘ecovoltas solidárias’ realizadas a bordo de um kart de dois lugares. Os interessados podem, ao abrigo dessas ‘ecovoltas solidárias’, comprar voltas ao lado de um piloto ou figura pública, com as receitas a serem direcionadas, na íntegra, para instituições de solidariedade social.

Por enquanto, a Ecokart Portugal tem como ‘aliados’ nesta vertente de responsabilidade social figuras como Fernanda Freitas, que é embaixadora do projeto, Ana Rita Ramos ou José Nobre, mas também algumas empresas de peso, sendo a sua mais recente parceira a OK! Teleseguros, que se associa a esta plataforma de karts elétricos como forma também de promover a sua imagem de “modernidade, inovação e sustentabilidade”, como explica Miguel Vilarinho, administrador-delegado da seguradora.

A parceria com a Ecokart Portugal surgiu de uma ideia comum de acentuar o conhecimento da mobilidade sustentada, procurando “superar as dificuldades de dar a conhecer o projeto, dando visibilidade a este projeto de karts elétricos”.

O “desafio” dos elétricos

A este respeito, Miguel Vilarinho explica que, em tempos de mudança, quando surge uma nova tecnologia, as seguradoras tendem a ter algum receio, uma vez que as cotações que oferecem têm por base um histórico existente dos automóveis e das motorizações. Ora, com os carros elétricos, sendo ainda uma tecnologia algo recente, Vilarinho aponta uma reação de “desconfiança” em relação a esses mesmos sistemas. Algo que, na sua ótica, a companhia digital pretende alterar ao posicionar-se como a “seguradora para os automóveis elétricos”.

À esquerda, Miguel Vilarinho, da Ok! Teleseguros, e António Pereira, da EcoKart Portugal

“Normalmente, as seguradoras têm toda a sua atividade baseada no historial e na informação recolhida ao longo de anos e anos para projetar o futuro e as coberturas e o preço mais adequado. Quando aparece algo novo, é normal que as seguradoras não queiram avançar. Sentimos a dificuldade que existia no mercado e decidimos abrir as nossas portas. O que estamos a dizer é que os carros elétricos fazem todo o sentido, em nome da mobilidade sustentável e da responsabilidade social. Todos temos de dar um contributo importante”, afirmou, indicando que algumas das dúvidas são até partilhadas pela própria seguradora, “mas vamos aprender em conjunto com os nossos clientes no sentido de criar uma solução adequada para os carros elétricos”.

Aliás, a companhia não só não quer colocar qualquer entrave aos proprietários de carros elétricos que queiram ser seus clientes, como também pretende tornar o preço das suas coberturas mais competitivo. Nesse sentido, ainda este ano irá surgir uma nova “solução específica com coberturas mais adequadas para os carros elétricos”.

Neste momento, a seguradora tem um total de 200 veículos elétricos segurados, ou seja, cerca de 10% dos cerca de 2.000 automóveis elétricos matriculados em Portugal. Contudo, o objetivo é ampliar esse número nos próximos tempos.

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