O mercado das carrinhas é cada vez mais relevante neste segmento de mercado, daí que faça sentido comparar a nova A4 Avant com a BMW Touring nas versões com a mesma potência

A ausência de uma versão de 150 CV afastou a Mercedes C Station deste confronto, que assinala a estreia da nova Audi A4 Avant no mercado nacional que, como sabemos e de acordo com os números do anterior modelo, angaria mais compradores que a berlina. O mesmo se passa com a sua rival da BMW, que tem feito um percurso de consolidação num ambiente cada vez mais competitivo. Por uma questão de equidade e uma vez que a versão ensaiada da BMW não tinha caixa manual, consideramos neste artigo essa opção já testada e medida anteriormente pela nossa equipa de ensaios. Assim, foi possível fazer uma comparação justa nos mais variados critérios de avaliação. Para além da mesma potência (150 CV), ambos os motores têm igual binário máximo, ao mesmo regime. Mas, como veremos no desenrolar do ensaio, o comportamento de cada um varia de acordo com o escalonamento escolhido para cada uma das transmissões.

Ainda que só um observador mais atento veja que a nova geração A4 é muito diferente da anterior, a verdade é que essa ilusão criada por um estilo muito semelhante, não corresponde ao conteúdo que sofreu alterações profundas, desde logo pela utilização da nova plataforma MLB que, entre outros benefícios, contribui para uma redução significativa do peso e um aumento da rigidez estrutural, dois fatores que competem diretamente com a sua rival que se vangloriava de ser a mais leve e mais competente do ponto de vista dinâmico. Mas sobre esse despique falaremos mais à frente.

Carroçaria: peso pluma

Em comparação com o modelo anterior, a nova Audi Avant cresceu e ultrapassou a BMW. Mesmo assim consegue ter menos 45 Kg graças à utilização de materiais mais leves como o alumínio. Só não consegue ser tão equilibrada na distribuição do peso, uma vez que a tração é dianteira, enquanto a BMW continua, por enquanto, fiel à tração traseira. Mais nova, mais leve e com uma rigidez estrutural mais elevada, não admira que a Audi consiga mais um ponto na qualidade de construção. Esta é também medida pelo valor de alguns materiais, em especial no interior, onde o design aparece com um aspeto mais simples, agradável e funcional.

O peso tem também uma influência decisiva na aerodinâmica, onde, à semelhança da berlina, esta versão mais familiar bate a sua adversária, apesar da superfície frontal ser a mesma. Neste caso a vantagem está num Cx mais baixo (0,25 contra 0,26) que, multiplicado pela superfície frontal, reduz em duas décimas a resistência ao avanço. Uma diferença que pode gerar consumos mais baixos em auto-estrada onde a influência da aerodinâmica é maior. Como na berlina, este bom resultado deve-se à carenagem da parte inferior, ao formato inovador dos espelhos retrovisores e às lâminas reguláveis entre a grelha singleframe e a secção superior do radiador principal, que fecham a baixa velocidade para reduzir a resistência ao ar e abrem quando necessário para arrefecer o motor. Esta ideia, partilhada com a BMW, contribui para reduzir a influência dos ruídos aerodinâmicos no conforto de cada uma das carrinhas. A prova disso é o equilíbrio existente nesta matéria entre ambas.

A vocação mais familiar da Audi é expressa por uma mala com mais capacidade e por um habitáculo que, tendo melhor acesso, é também maior. O que não é maior é a segurança ativa, pois neste capítulo, a BMW defende as mesmas qualidades, cuja influência estudaremos mais adiante.

Interior: Digital contra analógico

Maior por fora, a Audi tem forçosamente mais espaço interior, ainda que, entre eixos, a diferença seja apenas de 1 centímetro. O maior índice de habitabilidade deve-se, sobretudo, à maior altura à frente e atrás já que a BMW é mais larga e tem mais espaço para as pernas atrás, apesar dos bancos mais finos da Audi fazerem supor o contrário. A diferença de 80 pontos a favor da nova carrinha da Audi é assim uma vantagem que valoriza a sua vocação familiar. Uma vocação reforçada por uma boa acessibilidade e uma mala generosa e funcional.

Para além do espaço, o ambiente a bordo carateriza-se em ambas por um nível de conforto elevado, resultado de uma combinação perfeita entre a qualidade de construção e os materiais usados. No caso da nova geração da Audi Avant estes fazem parte de um desenho simples, funcional e visualmente agradável. Quando olhamos, por exemplo, para os dois tabliers fica mos com a impressão que o da BMW envelheceu. Entretanto, as propostas de equipamento são ricas, embora diferentes e se, quando ensaiámos a berlina da Audi a instrumentação era analógica, neste caso, a versão ensaiada vinha equipada com o painel digital, uma opção que pode assumir várias configurações conforme a programação e o modo de condução escolhido.

Uma das visualizações possíveis é a projeção do mapa do sistema GPS, uma função que pode ser também vista no ecrã central de 8,3 polegadas. Ao contrário da anterior geração, o ecrã central é fixo, como na BMW. Nenhum deles por uma questão de segurança é tátil, por isso a seleção dos vários menus é feita a partir de botões ou de um “joystick”. Neste caso, o sistema da Audi revelou-se mais prático e funcional. À semelhança da tendência seguida pela BMW em novos modelos como o novo Série 7, também a Audi voltou a um controlo mais direto do sistema MMI e da climatização, daí ser mais funcional e prático.

Para além das razões já referidas o maior conforto reivindicado pela Audi deve-se a outros fatores e um deles é a superior competência da suspensão neste domínio, enquanto a insonorização, sendo quase perfeita, não se diferencia assim tanto da BMW. Mesmo assim, tirando as velocidades a que medimos o nível sonoro (ralenti, 90 Km/h e 120 Km/h), o motor de 2 litros da 318d sente-se mais dentro do habitáculo. Isso deve-se a melhoramentos que tornaram o seu funcionamento mais suave.

Mecânica: Empate técnico

Uma das razões de termos juntado estas duas versões neste comparativo foi o facto de os dois motores terem os mesmos 150 CV. No caso da Audi este é, até ao momento, o motor mais fraco, enquanto na BMW essa fasquia começa nos 116 CV da versão 316d.

Grande parte da suavidade do motor da Audi deve-se ao funcionamento dos dois veios de equilíbrio que, girando em sentido contrário ao movimento da cambota, eliminam grande parte das forças de segunda ordem nas paredes dos cilindros. Mesmo sem recorrer ao mesmo tipo de solução, a BMW consegue ter também um funcionamento suave, que resulta de uma revisão completa de um motor que é a génese de toda a família de motores de 4 cilindros. Embora a designação desta versão seja 318d, o motor é o mesmo do 320d mas com uma gestão e sobrealimentação diferentes. Partilha com o seu irmão mais potente algumas tecnologias como a distribuição e a admissão variável, duas soluções que interpretam bem o resultado de algumas prestações como as acelerações.

Outra caraterística do motor da Audi que está na base do seu funcionamento mais suave é a sua menor taxa de compressão, com a vantagem que isso tem na emissão de gases de escape, com especial incidência no NOx. Ao contrário do que acontece com a BMW, a carrinha Audi conta já com a conversão catalítica seletiva, que engloba não só o catalisador de redução como a adição de Adblue, o aditivo que reduz ainda mais os óxidos de nitrogénio.

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A confirmar este esforço estão os consumos mais baixos da A4 em comparação com os da BMW, ainda que, nesta matéria, não andem muito longe uma da outra. A diferença real não chega a meio litro de gasóleo. Um aspeto que contribui muito para isso é o escalonamento mais longo da caixa manual de 6 velocidades que, em sexta, faz 58,7 km/h por cada 1000 rpm. A caixa da BMW é, nesta caso, mais rápida, daí que tivéssemos conseguido avaliar as recuperações nas mudanças mais altas ao invés do Audi, onde novamente não conseguimos medir essas prestações. Para qualquer uma delas a caixa automática é opcional.

Para terminar, uma referência à estrutura da suspensão que, no caso da Audi, é mais elaborada, ao recorrer à solução multilink, enquanto na BMW a receita passa por uma estrutura mais simples, enquadrada numa tração que continua fiel às rodas traseiras, uma solução que a Audi rejeita, ao transferir a força do motor para o eixo dianteiro.

Ao volante: Dinâmica semelhante

Apesar do aumento do conforto não ter beliscado as capacidades dinâmicas da nova A4 Avant, que nesta versão não conta com o contributo da tração “quattro”, a verdade é que a BMW, apesar da idade, consegue bater-se de igual para igual com a sua rival.

Na maior parte das situações a carrinha da Série 3 mostrou-se ligeiramente mais competente no controlo da tração e da aderência. Em compensação, a Audi A4 mostrou-se tão ágil em curva quanto a BMW, devido à diminuição do peso à frente, fruto do emagrecimento da suspensão e da direção elétrica. Embora estas versões não sejam as mais potentes, ambas tinham uma suspensão mais baixa, o que favoreceu muito uma condução mais proactiva quando escolhemos os modos de condução mais desportivos (Dynamic no caso do Audi e Sport no BMW).

A forma como os 320 Nm aproveitam os 150 CV está, neste caso, condicionado pelo escalonamento de cada uma das caixas manuais de 6 velocidades. Daí a razão da BMW ter-se revelado mais rápida na maioria das prestações medidas, desde a aceleração dos zero aos 100 km/h até às diferentes recuperações, apesar da Audi ter uma relação peso/potência ligeiramente mais baixa (10,3 Kg/CV contra 10,6 Kg/CV). A ausência da tração às quatro rodas quer na Audi (sistema Quattro), quer na BMW (sistema xDrive) não condiciona o comportamento global. Isso acontece porque a potência do motor não afeta o equilíbrio e a segurança quando abusamos do acelerador. Em resumo, estamos perante duas propostas bastante semelhantes do ponto de vista do comportamento dinâmico.

Economia: Vantagem BMW

Como é tradicional nas marcas premium, grande parte do equipamento proposto são opções que, todas juntas, inflacionam o preço proposto. Mesmo assim, a nova Audi é quase 4 mil euros mais cara. Se é só nesta fase inicial, onde certamente a BMW se mostra preocupada com uma concorrência mais atual, não sabemos. Uma coisa é certa, a marca de Munique, agarrada que está ao lugar conquistado, tem alargado a oferta de alguns extras. Em contrapartida, a Audi estende a garantia geral até aos 4 anos desde que não se ultrapasse os 80 mil quilómetros. Seja como for, o preço mais baixo da BMW dá-lhe, neste capítulo, a vitória por um ponto.

Do ponto vista financeiro não podemos deixar de equacionar também os valores de retoma, tendo em conta o histórico de cada modelo, uma vez que este é um dado relevante no cada vez mais alargo mercado empresarial.

#1   AUDI A4 2.0 TDI AVANT

Não é por ser mais recente que a nova Audi Avant vence este comparativo. A vitória deve-se, sobretudo, por ser mais competente e equilibrada. Para isso contribui a nova plataforma.

#2    BMW 318 D TOURING

Apesar de mais velha, a BMW continua a manter qualidades, com destaque para o comportamento dinâmico. Neste caso, a caixa garante melhores prestações.

Texto Marco António / Fotografia Vasco Estrelado