BMW 216D Gran Tourer vs VW Touran 1.6 TDI: Cabe sempre mais um

Provocado pela concorrência do BMW Série 2 Gran Tourer, o VW Touran renovou-se e sofisticou-se. O preço continua generalista e o espaço, esse, é verdadeiramente Premium.

Como não há milagres, o melhor veículo para transportar com conforto mais de cinco adultos é o autocarro. Sejam grandes ou médios, os monovolumes só devem ser utilizados até à segunda fila. A terceira deve ser mantida fechada para maximizar o espaço da bagageira. Montar a última fila de bancos só em caso de extrema necessidade ou, de preferência, para maravilhar os amigos com a simplicidade do processo. No entanto, a funcionalidade e o conforto psicológico dos sete lugares colocam estes veículos entre os mais procurados pelas grandes famílias.

Há 13 anos no ativo, o VW Touran é um dos monovolumes médios mais populares. Já teve versões de cinco e de sete lugares, sendo esta a única configuração disponível para terceira e atual geração. A inesperada concorrência do BMW Série 2 Gran Tourer, com igual lotação, fomentou um salto qualitativo no monovolume médio da VW. Sem necessidade de mexer no espaço, na funcionalidade ou na qualidade de construção a VW reforçou a oferta tecnológica. Seguindo a prática comum dos segmentos superiores, os elementos mais apetecíveis são opcionais. Uma lista longa, mas em nada comparável à do BMW Série 2 Gran Tourer. Basta olhar para as imagens. O VW Touran 1.6 TDI de 110 CV com caixa DSG e o nível de equipamento mais elevado, Highline, custa 37 000€. Tem apenas 445€ de pintura metalizada. Já o BMW 216d Gran Tourer de 116 CV custa 32 190€ sem opcionais. Entre packs de equipamento e opções individuais, os 24 extras a pagar elevam o preço deste Gran Tourer até aos 48 480€.

Carroçaria: à prova de miúdos

Os carros familiares querem-se resistentes. Ao entra e sai constante de crianças e animais juntam-se sacos, mochilas e brinquedos das mais variadas formas e tamanhos. Um sem fim de potenciais agressões a exigir robustez e limpeza fácil. Sólidos e bem acabados, os dois monovolumes estão aptos para acompanhar o crescimento de muitas crianças.

Acabamentos mais cuidados, complementados por materiais de melhor qualidade, dão ao BMW uma vantagem, que o VW anula com a bagageira. São 633 litros contra 560 litros. Com as três filas de bancos montadas, nenhuma das bagageiras transporta mais de duas ou três mochilas de escola. Rebatendo os cinco bancos posteriores cria-se, em qualquer dos casos, um piso plano, bem alinhado com o plano de carga e com um local específico para arrumar a chapeleira.

Reorganizar o interior de um monovolume é fácil. Entre patilhas de plástico e pegas de tecido bem identificadas não são necessários mais de dois ou três movimentos simples para passar de sete a dois lugares. O problema está no acesso à terceira fila. Tão estreito e desconfortável no Gran Tourer que faz o do Touran parecer amplo. Embora receba melhor os ocupantes da primeira fila, o BMW nada pode fazer perante a acessibilidade superior do VW aos assentos traseiros, que assim assume a liderança do comparativo.

Interior: dança das cadeiras

Basta observar as imagens dos habitáculos para perceber as diferenças de posicionamento dos dois monovolumes. Onde o Touran é todo funcionalidade, com uma segunda fila composta por três lugares independentes, da inclinação das costas ao ajuste longitudinal na calha de 20 cm, o Gran Tourer é mais conforto. Há dois lugares bem definidos com um mais estreito ao meio e as costas, tal como o ajuste longitudinal, inclinam na proporção 60:40. Mesmo descontando o volume das mesas montadas nas costas dos bancos dianteiros, o BMW oferece menos espaço para as pernas. É ligeiramente mais alto e largo na segunda fila, mas são sempre as pernas que vão bater na consola central e nas costas dos bancos dianteiros. Nos dois casos, a última fila é desaconselhável a adultos.

Transportar tanta gente em segurança não é fácil mas, no que depender da BMW e da VW, não há razões para ter medo. Os dois modelos receberam cinco estrelas nos testes de colisão EuroNCAP, às quais juntam pacotes completos de sistemas eletrónicos de segurança e apoio à condução. Consolidando a liderança no comparativo, o Touran destaca-se por acrescentar a almofada para os joelhos do condutor à lista de airbags disponíveis.

De resto, não há diferenças de relevo. A visibilidade traseira é limitada em ambos os casos, os motores são bem isolados e a aerodinâmica, que não é brilhante por causa dos volumes avantajados, não provoca ruídos indesejáveis. O indispensável ar condicionado manual de série, com três zonas de temperatura só como opção, ajuda a manter o ambiente confortável. Porque, apesar das diferenças na funcionalidade da fila do meio, os dois monovolumes primam pelo conforto.

Mecânica: caixa faz a diferença

Bastam três cilindros para o bloco 1.5 do BMW oferecer mais 6 CV e 20 Nm de binário que o motor 1.6 do VW. O problema é que, para além da estabilidade dos quatro cilindros, o 1.6 TDI disponibiliza os 110 CV e os 250 Nm mais cedo. E conta ainda com a ajuda preciosa da caixa DSG de sete velocidades para manter uma entrega constante e suave de potência. Enquanto o Touran despacha tranquilamente as voltas de cidade, o Gran Tourer não dá descanso à primeira e segunda velocidades da caixa manual de seis. A falta de força nos baixos regimes cala rapidamente o motor em terceira. Já fora da cidade, as limitações do 1.6 TDI face aos 1611 kg de Touran tornam-se evidentes. As subidas custam e não é fácil manter velocidade de autoestrada só com o condutor, quanto mais com carga e lotação completa.

O BMW é um pouco melhor. O bloco de três cilindros respira bem nos regimes elevados, o que acaba por ser cansativo, visto tratar-se de um veículo com vocação familiar. Idênticas nas soluções tipo McPherson e paralelogramo deformável, as suspensões seguram devidamente os movimentos das carroçarias. Sendo monovolumes há sempre alguma oscilação e tendência para a roda interior da curva patinar. Nada de grave. Ligeiramente mais composto, o BMW não consegue levar a melhor sobre o VW por trabalhar melhor perto dos limites, provocando mais intervenções do controlo de tração. O Touran reforça novamente a liderança.

Ao volante: Familiar não é desportivo

Por mais voltas que se dê, um monovolume nunca será um veículo desportivo. Por isso, nem vale a pena pensar em posições de condução baixas e bem encaixadas. Aqui domina-se a estrada, e o ambiente a bordo, a partir de lugares desafogados. Os comandos secundários que não possam ser manuseados a partir do volante estão à mão e bem organizados em ambos os casos. Já a assistência da direção, elétrica para os dois, é mais comunicativa no BMW. Filtra as irregularidades do piso sem perder precisão, enquanto o VW se mostra mais filtrado.

Cumprindo o que deles se espera sem impressionar, os travões mostram-se adequados às utilizações quotidianas. Aquecem rapidamente quando se abusa das travagens na entrada para curvas apertadas, uma atividade claramente contrária à natureza dos monovolumes. A direito também não são muito mais impressionantes. Beneficiando da caixa automática para esmagar as recuperações do Gran Tourer e retirar meio segundo ao tempo deste no arranque até aos 100 km/h, o Touran cede um empate neste parcial.

Economia: manutenção programada

Se, por um lado, o nome BMW vai valorizar o Gran Tourer na hora de o vender. Por outro, vai inflacionar o preço. Desde o nível de equipamento de acesso, o VW Touran é sempre mais barato. E gasta menos, também. A caixa automática ajuda a manter os consumos nos 6,3 l/100 km, enquanto a necessidade de rotação do motor BMW empurra a média ponderada para os 7 l/100 km. Como os valores homologados andam pelos 4 l/100 km pagam os mesmos 141,47€ de IUC, mas o BMW consegue bater o VW em emissões, com 108 g/km contra 116 g/km do VW.

Sem novidades no plano das garantias, o Gran Tourer destaca-se pelo BMW Service Inclusive: durante cinco anos ou 100 000 km, as mudanças de óleo, verificação e substituição de filtros, velas de ignição e líquido de travões são por conta da BMW. Dá um contributo para a redução das despesas, mas não chega para roubar a vitória no comparativo ao VW Touran.

Conclusão

#1 VW TOURAN

Há mais de uma década no ativo e sem nada a provar, o VW centra-se no essencial: funcionalidade, espaço e resistência. Agora há mais eletrónica à disposição do condutor e dos passageiros, mas o espírito familiar mantém-se inalterado.

#2 BMW GRAN TOURER

O aproveitamento da plataforma do Mini levou a BMW a incluir no seu léxico termos como “tração dianteira” e “monovolume”. Sendo satisfatório, o resultado não consegue competir com um especialista em funcionalidade e modularidade como o Touran.

Texto Ricardo Machado

Fotografia José Bispo

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