Poderá o espírito do maior piloto de todos os tempos estar presente na nova interpretação do mítico NSX? Foi o que procurámos descobrir, no Circuito do Estoril, e na companhia de Tiago Monteiro!

Se há um momento ‘youtuber’ dos amantes dos automóveis e do automobilismo, esse é sem dúvida o maravilhoso teste que Ayrton Senna realizou em 1991 ao primeiro superdesportivo da Honda. Os fãs do New Sports eXperimental, vulgo NSX, nunca mais foram os mesmos após terem visto o piloto brasileiro domar a máquina nipónica no anfiteatro predileto dos japoneses – o bonito traçado de Suzuka.

A pose de ‘superstar’, com o casaco preto da Boss e os ‘oculinhos’ de sol pomposos, é inesquecível, e exemplifica a aura de ‘sex symbol’ do brasileiro. Mas são sobretudo as meias brancas da época que ainda hoje ecoam nas paredes da memória, até porque contribuíram para um momento ‘Michael Jackson’ absolutamente delicioso, com toda a atenção centrada nos pés do ‘mestre’, e no ponta-tacão que colocava o regime no ponto certo de cada vez que Ayrton optava pela desmultiplicação de uma das cinco marchas da caixa de velocidades do modelo (quem o escolhesse poderia também optar por uma automática de quatro velocidades).

O primeiro NSX surpreendeu o mundo por tornar-se no primeiro carro de produção em série a assentar numa carroçaria totalmente construída em alumínio. A movê-lo estava um V6 atmosférico de 3.0 litros, montado em posição central e com a tecnologia VTEC de controlo variável das válvulas que tantas alegrias deu à Honda.

A potência de 280 cv era um luxo à luz da época, sendo que a versão Type R conduzida por Senna vinha despojada de elementos de conforto, como o ar condicionado, o rádio ou os vidros elétricos, de maneira a garantir que o peso baixava de 1350 para 1230 kg. Nesse célebre vídeo, percebe-se que a lenda de São Paulo procura domar um carro que, apesar de tudo, revela uma traseira muito solta; que a direção é leve e aparentemente pouco precisa. Que o curso das relações de caixa é longo, e que o ‘prego’ ocasional espreita a cada movimento do punho. Tudo o que não se encontra na nova e revigorada segunda geração do NSX.

Evolução da espécie

Velocidades estonteantes em curva aliadas a uma sonoridade incrível tornam a reinterpretação do clássico original num dos superdesportivos mais impressionantes do mundo, até pelo cocktail tecnológico que carrega consigo.

O V6 mantém-se, deixando-se ver na mesma posição. Mas a acompanhá-lo estão agora dois turbocompressores e três motores elétricos, um junto à caixa de velocidades, e os outros no eixo dianteiro para servir as necessidades de cada roda. Talvez isso explique a motricidade estonteante, e o efeito incrível do ‘launch control’ no modo ‘Track’ – capaz de movimentar este ‘gordinho’ NSX, com mais de 1700 kg, com a brutalidade e rapidez do vaivém do Space Shuttle.

É um samurai letal. A evolução da espécie na sua forma mais perfeita, com uma estética de sonho e novas armas ao seu dispor para destronar a concorrência. Conduzi-lo é um assombro de eficácia e um desafio às leis da física, até porque virá-lo do avesso não é fácil, nem mesmo para o nosso ‘piloto-bala’ Tiago Monteiro, que o descreve como um carro “muito completo”.

Pasmado

O controlo de tração é assustadoramente eficaz, mas mesmo no mais radical dos quatro modos o NSX (‘Quiet’, ‘Sport’, ‘Sport+’ e ‘Track) nunca dá sinais de querer fugir da pista, ou da estrada. O que não deixa de ser notável considerando a potência combinada de 581 cv (507 do V6 de 3.5 litros, 48 do motor elétrico que se encontra acoplado à caixa automática desportiva de nove velocidades e 37 do bimotor elétrico que alimenta as rodas da frente, com o primeiro a obter a potência máxima entre as 6500 e as 7500 rpm, o segundo às 3000 rpm e o segundo às 4000 rpm). E também o binário, de 698 Nm, com 550 Nm a provirem do motor de combustão.

É este arsenal de componentes (apesar do motor estar colocado nas costas do condutor, à frente não existe espaço para malas, com todo o perímetro ocupado com circuitos elétricos e de refrigeração) que contribui para o seu peso, pouco comum em automóveis desta estirpe. Mas também para a aceleração brutal e acima de tudo a resposta instantânea, como explica Tiago Monteiro:

“Apesar de ser fantástica, tu adaptas-te facilmente à potência. Mas o que mais impressiona são aqueles motores elétricos, que te ajudam no topo e a manter sempre uma curva de potência linear. Nas passagens de caixa nunca tens aquela quebra que normalmente existe em qualquer motor, até na Fórmula 1. Aqui não acontece. Destaco ainda a travagem, fantástica para um carro com mais de 1700 kg, e o comportamento, o equilíbrio dele. É um carro muito fácil de guiar, que perdoa muita coisa. Podes travar tarde, que consegues dar-lhe ‘corda’ na mesma à conta da recuperação da energia. Depois, tem uma excelente posição de pilotagem, um volante muito bom e um ‘feeling’ muito agradável. Estou pasmado! Já guiei muitos carros deste género e estou mesmo impressionado com o nível que eles conseguiram”, concluiu.

Quanto a Ayrton Senna, encontrámo-lo mesmo. Na agressividade do motor, na caixa de velocidades rapidíssima e no controlo sublime do NSX, criado à imagem da mestria ao volante do piloto brasileiro.

André Bettencourt Rodrigues / Autosport

Características 
Motor (sistema híbrido)3.5 V6 Gasolina, 3.493 cc + Três Motores. Elétricos, Turbo, Intercooler, Injeção mista (direta/indireta)
TransmissãoIntegral, Cx Auto. 9 Vel.
Potência507 CV às 6.000-7.500 rpm + 48 CV às 3.000 rpm + 37 CV às 4.000 rpm
Binário550 Nm às 2.000-6.000 RPM
Suspensão dianteira/traseiraParalelogramo Deformável à Frente e Atrás com Molas Helicoidais
0-100 km/hN.D.
Velocidade máxima308 km/h
Consumo10 l/100 km
Emissões CO2228 g/km
Peso1776 kg
Mala110 litros
Depósito59 litros
Preço200.000€