Nissan Micra 1.5 dCi 90: Um belo utilitário

Esquecido entre os projetos menos conseguidos da Nissan, o Micra desapareceu do mercado e deixou um vazio que não foi mais evidente porque Qashqai e Juke são piores que Ronaldo e Benzema, golearam os rivais e marcaram pontos nas vendas do segmento dos crossover. Mas, como diz o povo, não há mal que não acabe e bem que sempre dure, o Micra começou a fazer falta á gama da Nissan.

Na hora de desenhar a quinta geração do Micra, os homens da marca japonesa não olharam para trás (mesmo que na história do utilitário existam alguns carros divertidos e interessantes) e sim para o vizinho do lado. Qual? O Clio, pois claro! Infelizmente, a Nissan não tinha tempo para esperar pela nova plataforma da Aliança Renault Nissan e, assim, pegou na anterior plataforma V (a mesma da quarta geração do Clio e do Micra) e atualizou-a, remodelou-a, enfim, deu-lhe uma valente volta. De tal maneira que ficaram, iguais, apenas os apoios do motor, a posição dos pedais, o depósito de combustível e alguns componentes da suspensão. Conseguiram os engenheiros da Nissan baixar o centro de gravidade e alargar as vias.

Resolvida a questão da plataforma, bastou ir ao caixote de peças da Aliança e encontrar motores, caixas e demais acessórios para compor um carro que tem um estilo muito próprio com muita personalidade. E um toque oriental com a linha de cintura ondulante que percorre o carro desde a grelha dianteira até aos farolins traseiros, e que faz uma espécie de seta com o entalhe colocado nas portas, muito á imagem do Clio. Bonito ou feio será o caro leitor a decidir, mas na minha opinião é um carro bem giro.

O novo Micra não vai ser produzido lá nos confins do mundo, mas sim em França, lado a lado com o Clio, num esforço claro de proporcionar ao novo modelo tudo aquilo que um europeu quer num carro vendido no Velho Continente. Também por isso, o Nissan Micra surge muito bem equipado, nomeadamente, no que toca ás ajudas à condução. Estreias absolutas no segmento promovidas pelo Micra são o alerta de transposição involuntário de faixa com controlo por câmara e não sensores, as câmaras de visão 360 graus e o completo sistema de som Premium da Bose. Cuja maior diferença é que se pode sentir dentro de um topo de gama alemã pois há altifalantes escondidos no encosto de cabeça.

O interior do Micra é tão ambicioso em termos de estilo como o exterior. Se o exterior está cheio de detalhes que adicionam classe e sedução ao utilitário da Nissan, o interior oferece consistência na qualidade oferecida pelos plásticos que inundam o habitáculo. Pena que se tenha de pagar mais para ter acesso, nas versões mais ricas, às opções de personalização e a alguns materiais de melhor qualidade. Mesmo assim, com alguns cromados oferecidos de série e a qualidade do revestimento do topo do tablier, a nota final é positiva. Quando olhei para a minha frente veio aquela sensação de “onde é que eu já vi isto?!” e rapidamente me lembrei que o painel de instrumentos vem do Qashqai, tal como o ecrã de 5 polegadas onde estão agrupados os avisadores de vários sistemas, o conta quilómetros e o computador de bordo. Já o volante é uma novidade e rima bem com o interior do Micra.

Os técnicos da Nissan preocuparam-se com detalhes que só mesmo eles se lembraram. Para que o barulho do turbodiesel não chegue ao habitáculo de forma intensa, o para brisas tem um escudo acústico. O que acaba por dar jeito pois o motor 1.5 dCi de 90 Cv não é um primor em termos de refinamento e silêncio. Só eles é que pensaram…, mas pensaram bem! A versão turbodiesel tem diferenças face ao modelo a gasolina, nomeadamente, na suspensão. Foi necessário endurecer as molas para suportar o maior peso do bloco diesel, o que tem como maior consequência deixar a frente do Micra um nadinha mais seca que no Micra a gasolina.

O motor 1.5 dCi de 90 CV é um velho conhecido, capaz o suficiente para mexer com alguma desenvoltura o Micra, mesmo que nas recuperações a caixa de cinco velocidades tenha alguma dificuldade em ajudar o motor devido ao escalonamento mais alongado para preservar os consumos em valores baixos. Temos de recorrer amiúdes vezes à caixa e em algumas situações, parece que o Micra não avança ou que a velocidade é baixa. Um piscar de olhos ao velocímetro desmente esta sensação, mas não pense que tem no Micra a gasóleo um foguete. Não tem! No outro lado da moeda está o baixo consumo deste bloco que, mesmo assim, não me faz mudar de opinião: o melhor Micra é mesmo a gasolina.

O caderno de encargos do Micra tinha algumas piadas giras. Uma delas era dar ao Micra o nervo e a agilidade do Fiesta e a compostura e conforto do Polo. O melhor de dois mundos dirão alguns, a quadratura do circulo, digo eu. O resultado final é óbvio: não consegue igualar nenhum deles! Mas, mesmo assim, consegue um comportamento aceitável com compostura que não deixa ficar mal os homens que testaram e afinaram chassis e suspensão.

O Micra curva de forma fácil e ligeira, com a direção a corresponder e sensação de fluidez e segurança absoluta. É um nadinha barulhento e com mais reação das molas da suspensão que os rivais, mas consegue melhor isolamento e absorção das vibrações que muitos dos seus rivais. A aderência em curva é suficiente, o chassis responde de forma correta e controla de forma aceitável os movimentos da carroçaria. Enfim, um comportamento eficiente, mas que não tem envolvência nem deixa marcas na memória de ninguém. Mesmo assim, o Micra consegue fazer jogo igual com alguns dos mais cotados rivais e no confronto com o Polo e o Fiesta, acaba por suportar a comparação sem ir sair envergonhado

Veredicto

Como já referi, nunca será um líder de segmento, até olhando para o que aí vem de novidades nos próximos meses, mas o Micra é um excelente esforço e não custa nada reconhecer que depois do Qashqai e do XTrail, este será o melhor Nissan dos últimos tempos. Não sendo absolutamente novo, é diferente de tudo o que a marca fez no segmento e isso é enorme vantagem. Esta feito para agradar aos europeus, tem um estilo sedutor e conteúdo suficiente para convencer os mais céticos. Prefiro o Micra a gasolina, mas reconheço que este diesel é um campeão no que toca aos consumos com uma média verificada de 4,5 l/100 km.

José Manuel Costa

 

FICHA TÉCNICA

Motor

Tipo – 4 cilindros em linha, injeção direta, turbo diesel

Cilindrada (cm3) – 1461

Diâmetro x curso (mm) – 76 x 80,5

Taxa de compressão – 15,5

Potência máxima (cv/rpm) – 90/4000

Binário máximo (Nm/rpm) – 220/2000

Transmissão e direcção – Tração dianteira, caixa manual de 5 vel.; direção de pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

Suspensão (fr/tr) – Independente tipo McPherson/eixo de torção

Prestações e consumos

Aceleração 0-100 km/h (s) – 11,9

Velocidade máxima (km/h) – 179

Consumos Extra-urb./urbano/misto (l/100 km) – 3,1/3,8/3,2

Emissões de CO2 (g/km) – 92

Dimensões e pesos

Comp./largura/altura (mm) – 3999/1743/1455

Distância entre eixos (mm) – 2525

Largura de vias (fr/tr) (mm) – 1510/1520

Travões (fr/tr) – Discos ventilados/tambores

Peso (kg) – 1590

Capacidade da bagageira (l) – 300/1004

Depósito de combustível (l) – 41

Pneus – 195/55 R16

Preço versão ensaiada (€) – 13.700 (N-Connecta com 3 mil euros de oferta, preço original 16.700 euros)

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