Naquela estrada sinuosa na serra de Sintra, onde em tempos os motores das máquinas infernais do Rali de Portugal fizeram o júbilo de milhares de entusiastas da competição, o Opel Corsa OPC aborda cada curva com uma cadência feroz, impressionando pelos níveis de motricidade na sua passagem e pela capacidade de aceleração à saída.

Apesar do autoblocante, concebido pela Drexler, a direção debate-se levemente com a transmissão da potência ao eixo dianteiro, mas isso apenas eleva a sensação de adrenalina ao volante. Estamos na presença de um pequeno desportivo a que os britânicos gostam de chamar ‘Pocket Rocket‘: ‘foguete de bolso’.

O caso não é para menos: são 207 cv de potência extraídos a partir de um bloco de alta eficiência com apenas 1.6 litros de cilindrada. O seu desenvolvimento ficou a cargo do Opel Performance Center (OPC), que ‘forjou’ o seu comportamento no icónico e desafiante traçado de Nürburgring Nordschleife, aliando-se a algumas marcas de renome como a Koni, Drexler ou a Remus para conceber o ‘pacote’ perfeito.

Comportamento

O primeiro ponto a abordar no caso de um desportivo tem de ser o elemento dinâmico. No Corsa OPC percebe-se a eficiência de todo o conjunto, graças a ligações ao solo muito competentes desenvolvidas pela Koni (com amortecimento de frequência seletiva FSD), que permitem ao utilitário ‘agarrar-se’ ao asfalto sem que existam desvios da trajetória idealizada. É, contudo, a sua força à saída das curvas que mais impressiona, percebendo-se então a competência do autoblocante na forma como transmite a potência ao solo, algo a que os pneus Michelin Pilot Super Sport de 18 polegadas também não são alheios.

Em virtude disso, a velocidade de passagem em curva consegue ser elevada, mantendo, ao mesmo tempo, a confiança do condutor num nível de topo, tanto mais que os limites da estabilidade dificilmente serão atingidos em condução quotidiana. O ‘torque steer‘ tem, ainda assim, algum efeito na direção, passando ao condutor – mesmo que levemente – um pouco da batalha existente pela colocação dos 207 cv e 245 Nm (280 em caso de overboost) de binário no asfalto.

Ainda que o seu comportamento dinâmico seja muito eficiente (até aproximado ao de um kart), o Corsa OPC disponibiliza um interessante nível de conforto para os ocupantes. As irregularidades do asfalto, como lombas, são bem resolvidas pela suspensão da Koni, notando-se aqui, claramente, uma maior secura do eixo traseiro. Mas a convivência com o OPC acaba por ser sã, evidenciando o bom trabalho dos engenheiros da marca no desenvolvimento deste pequeno desportivo.

A versão ensaiada contava com o ‘essencial’ Pack Performance OPC constituído por sistema de travagem Brembo, diferencial autoblocante mecânico viscoso multidiscos e jantes de 18 polegadas, que acentuam a sua vertente ‘temperamental’.

Registe-se que tanto o Controlo de Estabilidade Eletrónico (ESP), como o Controlo de Tração (TC) podem ser completamente desligados pelo condutor, havendo ainda um modo do ESP desportivo que deixa as ajudas eletrónicas num estado de ‘adormecimento’ até serem verdadeiramente necessárias. Talvez o lado menos positivo desta versão desportiva seja a direção, que tem uma sensação algo artificial na ‘comunicação’ com o condutor.

Prestações

Um dos pontos de relevo desta variante mais espevitada é o seu motor Ecotec de 1.6 litros de cilindrada munido de turbocompressor. Longe vão os tempos do denominado ‘turbo lag’, ou seja, o atraso na entrada em ação do turbo face à pressão do acelerador. O seu fôlego permite respostas impetuosas desde uma faixa de rotações muito baixas, o que se acentua o lado desportivo em aceleração, também permite boas respostas em toadas mais descontraídas. Afinal de contas, nem sempre há a vontade de conduzir depressa.

Os seus 207 cv de potência atribuem-lhe um carácter muito especial, com vivacidade assinalável acompanhada de sonoridade dos escapes que, não sendo espetacular, serve o propósito de mostrar que estamos na presença de um desportivo que exige ser tratado como tal. Com rigor e até alguma reverência. A aceleração é vigorosa, com primeiras relações curtas que tratam de elevar a velocidade de forma lesta, sendo as recuperações também um fator de realce, com os seus 280 Nm de binário em overboost a fazerem-se sentir (245 Nm de binário em modo ‘normal’ entre as 1.900 e as 5.800 rpm). Se se tiver de atribuir um elemento distintivo a este Corsa é, mesmo, a sua impetuosidade com um toque de mecanização que, hoje, vai sendo perdido nos desportivos ‘maiores’.

O motor surge associado a uma caixa manual de seis velocidades, com escalonamento curto nas quatro primeiras relações, mas com manuseamento que poderia ser algo mais suave. Ainda assim, louve-se a manutenção da caixa manual numa era em que as automáticas vão ganhando terreno…

A marca anuncia aceleração de 0 a 100 km/h em meros 6,8 segundos – quase meio segundo mais rápido do que o OPC da geração anterior – aproximando-o de sensações que, há alguns anos, apenas estavam associadas a modelos de segmentos superiores e substancialmente mais dispendiosos.

Quanto aos consumos, o Corsa OPC é um digno representante do lema: gasta o que o pé direito manda. Com consumo médio anunciado de 7,5 l/100 km, esse valor soa a miragem em clima desértico. Mas é exequível rodar na casa dos oito litros, com a média do ensaio a ser de 8,7 l/100 km. Afinal de contas, quem é que pensa em consumos quando tem um desportivo com 207 cv cunhado pela OPC?

Versatilidade e interior

A variante OPC tem por base a carroçaria de três portas, oferecendo menos versatilidade do que a de cinco portas. Ainda assim, o espaço a bordo é bastante aceitável para um modelo de segmento B, tanto à frente, como atrás, com dois adultos a não terem qualquer problema na sua acomodação, tanto para as pernas, como em altura até ao tejadilho. A largura, contudo, é parca

O acesso e saída dos bancos traseiros exige alguma destreza, sobretudo porque as bacquets dianteiras – da Recaro – dobram de forma limitada. Acaba por ser este o seu principal ponto negativo em termos de versatilidade. A sua bagageira, com 285 litros, está na média do que o segmento oferece.

Ao nível da qualidade, o Corsa OPC tem um nível de construção superior, com grande cuidado na integração dos painéis e materiais dignos de referência, em que a tónica desportiva está patente no volante, nos pedais em alumínio ou no punho da alavanca da caixa de velocidades (que até poderia ser mais pequeno). As bacquets da Recaro são essenciais para uma condução dinâmica, até porque a posição de condução é muito boa.

A estética é chamativa nesta versão, beneficiando de elementos como os para-choques específicos, mini-grelha no capot (meramente estética) e dupla saída de escape, ao que acresce um spoiler traseiro ‘Extreme’ que é proposto entre os opcionais por 200 euros. Acaba por ser um modelo agressivo q.b., mas sem ferir suscetibilidades.

Preço/equipamento

O custo de base do Corsa OPC, proposto pela Opel, é de 26.490 euros, sendo que, por esse preço conta com um leque de equipamento muito completo. De série, conta com bacquets Recaro, sensor da pressão dos pneus, cruise control, sensores de luminosidade e de chuva, faróis de xénon com comutação automática médios-máximos, além da mais recente geração do sistema IntelliLink, que permite a integração de aplicações de dispositivos móveis Android e Apple iOS. Ou seja, uma série de itens que aprofundam o apelo daquele que é um dos desportivos de referência no segmento B.

Nota, contudo, para a importância de contar com o opcional ‘Pack Performance OPC’, um custo de 2.400 euros, mas que vale a pena pelo acréscimo de valências dinâmicas (na combinação de jantes de 18″, sistema de travagem mais mordaz da Brembo com discos de 330 mm na frente e, sobretudo, pelo diferencial autoblocante).

Um exemplo muito claro de que a emoção e a adrenalina podem surgir em conjuntos muito compactos. O Corsa OPC representa uma visão equilibrada daquilo que pode ser um desportivo de segmento B, com uma mescla impactante entre visual, dinâmica e motor que é dos mais eficazes em condução afoita.

Pedro Junceiro

Características 
Motor4 cil. em linha turbo
Cilindrada1.598 cc
Potência207 CV/5.800 rpm
Binário245 Nm (280 c/ overboost)/1.900-5.800 rpm
TransmissãoCaixa manual de 6 velocidades, tração dianteira
Vel. máxima230 km/h (limitada)
0-100 KM/H6,8 seg
Consumo7,5 l/100 km
Emissões CO2174 g/km
Comp/larg/alt.4.021/1.944/1.479
Peso1.293 kg
Mala285-1090 litros
Depósito45 litros
Suspensão dianteira/traseiraIndependente McPherson/independente multibraços
Pneus série/ensaiado215/45 R17/215/40 R18
Travões dianteiros/traseirosDiscos ventilados/discos
Preço (ensaiado)26.490€ (31.290€)

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.

AVALIAÇÃO
Prestações
8
Consumos
6
Dinâmica
8
Conforto
6
Versatilidade
6
Preço/equipamento
7
Qualidade geral
8