No Cabeção come-se a melhor sopa de cação

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

No Cabeção come-se a melhor sopa de cação. Se rima é verdade. A pouco mais de uma hora de Lisboa um belo passeio domingueiro para ir almoçar a um dos segredos bem guardados da gastronomia alentejana – o restaurante “Palmeira” no Cabeção

Não sei se o mundo tem salvação, mas se não tiver, no dia em que acabar, já escolhi onde gostava de estar. Era no Cabeção, para almoçar.

É ali, naquela histórica vila alentejana do concelho de Mora que ficam duas notáveis ermidas – a do capela do Salvador do Mundo e o restaurante Palmeira. O primeiro, com o seu portal gótico e austeridade robusta recorda o tempo em que a Quinta do Salvador do Mundo, courela grande da Ordem de S. Bento e Avis, deu origem à vila do Cabeção. O segundo edifício, mais simples e sem grande apelo, é um dos maiores santuários da gastronomia alentejana.

É um restaurante que merece a viagem, até porque a viagem é bonita. Pode sair cedinho num dia de sol e apontar o GPS á lezíria do Tejo, depois a Coruche, passando pelo Couço.
Esta terra de passagem merece sempre paragem. Para uma empadinha de frango no restaurante das bombas de gasolina ou então para se aviar numa banca de estrada com um bom molho de espargos selvagens e um saquinho de túberas, as trufas portuguesas, parentes pobres mas nem por isso menso saborosas da requintada iguaria farejada por porcos nos bosques franceses. Depois desta escala técnica pode seguir em direção a Mora e finalmente ao desvio até ao Cabeção.
Se for com tempo, uma visita ao Fluviário de Mora recomenda-se vivamente para abrir o apetite, e convém mesmo que o leve bem aberto. O restaurante a Palmeira é daqueles segredos mal guardados, mas que pode facilmente dissuadir os distraídos, já que não tem grande “planta”. Parece uma casa de pasto, honesta e simples, mas um bocado mal atamancada. Não é local para os queques, betuchos e rebanhos da Time Out. É sítio para quem gosta de se entregar aos prazeres opíparos e não se agasta com a ciência das aparências nem com o desenho dos cortinados..

A decoração passa a obsoleto tema de conversa assim que chegam as entradinhas e a língua começa a estalar de contentamento. Os espargos selvagens em paté com gambas fazem a honra de abertura, macia e subtil, a preparar o palato para aventuras mais exigentes, que começam logo com o sortido de enchidos ou os fabulosos torresmos de rissol.
Em seguida, a dificuldade está na escolha. O reportório não é vasto, mas a musicalidade das propostas pede toda encore. Só nas sopas venha o diabo e escolha: Açorda alentejana, só com ovo ou com bacalhau, gaspacho alentejano e a suprema sopa de cação, a melhor que já comi na minha vida, com um creme espesso a envolver a amaciar o peixe.
Normalmente já estaria almoçado, mas se o fim do mundo vier, quero estar preparado para enfrentar o Criador com todos os meus pecados frescos, especialmente o da Gula. Prossigo para a estrela da ementa – as migas de espargos selvagens, acompanhadas de uns nacos de porco frito, saboroso e contido, consciente assim do seu papel secundário neste prato.
Para estas andanças é sempre levar boa companhia – em conversa e em número – assim ainda dá para garfar outras especialidades como as migas gatas alentejanas, os pezinhos de coentrada, o cabrito no forno, a carne de porco do alguidar com migas de batata, a lebre com feijão ou a lendária Sopa da Panela do pombo bravo. Para acompanhar com bravura todo este esforço apocalíptico o vinho da casa é estóico e aguenta-se. O Cabeção é conhecido pelo seu vinho e pelo método de fabrico artesanal que recorre ainda às tradicionais talhas de barro.
Para dar a estocada final no comensal, uma torta de amêndoa, gila e ovos moles que é a especialidade da casa e que acompanhada por uma aguardente de medronho nos prepara convenientemente para enfrentar o fim do mundo de barriga e coração cheio.
Brava Palmeira, santuário da comida alentejana.

Restaurante “A Palmeira”
Rua 25 Abril, 46, 7490-107 – Cabeção
Telefone: (+351) 266 447 182
Dia de Encerramento: Terça-Feira
Horário de Almoço: 12:00h – 15:00h
Horário de Jantar: 19:00h – 22:00h
Preço: 20 a 30 euros

Nota: Aos fins de semana e feriados convém marcar, que em Portugal já não há segredos bem guardados