Os italianos chamam-lhe a “Divina Costa” e para descobrir os seus tesouros nada como percorrer uma das mais famosas estrada do mundo – a “Costiera Amalfitana”.
São 60 quilómetros de vertiginosa condução pelas sinuosas encostas para ir desaguar ao azul do Mediterrâneo e às pitorescas e luxuosas estâncias de Amalfi ou Positano, as mais cintilantes jóias da Costa Amalfitana

 

Automóveis, belas estradas, vilas e cidades pitorescas, história, romance e um belo spaghetti alle vongole com vista sobre o mar são cartões de visita de Itália. Mais do que cartões de visita, são paixões.
Para encontrar tudo isto podemos percorrer o país de Norte a Sul, mas dificilmente se encontra todo o charme daquele país concentrado numa faixa de 60 quilómetros. É precisamente esse o apelo da Costa Amalfitana e da mais bela estrada de Itália – a Costiera Amalfitana.
É uma estrada que parece desenhada por Dante, rapidamente passamos do paraíso da paisagem ao inferno da condução, talvez por isso os italianos chamem a esta estrada “La Divina”.

O vertiginoso traçado numa extensão de 60 quilómetros acompanha a linha da costa Amalfitana, estendendo-se entre as cidades de Salerno e Sorrento, a sul da baía de Nápoles que é, por excelência, o melhor ponto de “aterragem” para explorar a beleza desta costa numa viagem de sete dias. Não são, obviamente, precisos sete dias para fazer estes 60 quilómetros, mas se o fizermos à velocidade da dolce vita – saboreando as praias azul turquesa, as aldeias-postais, os monumentos, os restaurantes e os limoncellos, provavelmente sete dias sabem a pouco, como numa música de Sérgio Godinho.

A escolha da música para o acompanhar nesta road trip é quase tão importante como a escolha do carro. A minha sugestão vai para os grandes êxitos de Dean Martin ou para o “Via con me” de Paolo Conte, ouvido repetidas vezes.
Quanto ao carro, o Fiat 500, claro, o epítome de uma road trip pelo Sul de Itália e, sobretudo, um carro pequeno, capaz de nos fazer meter a agulha no palheiro pelas centenas de curvas cegas, estreitas, vertiginosas e mirabolantes, num constante sobe e desce dos altos penhascos da serra, até às cidades e vilas costeiras.

Guiar pela Costiera Amalfitana é aquilo que os americanos chamam “the ultimate driving experience” e não se aconselha a quem não tenha nervos de aço, reflexos de malabarista, concentração de maestro, noções de geometria e paciência de chinês (para combater a exasperante impaciência dos italianos ao volante). Pode parecer exagero, mas o traçado da Amalfitana e, sobretudo, o ecossistema rodoviário, são mesmo um desafio às nossas capacidades motoras e à destreza.
A maior parte das curvas são estreitas e nelas só cabe um carro e meio, o que significa que temos sempre de estar a gerir os “timings” quando nos cruzamos com outros carros, isto já para não falar das dezenas de autocarros turísticos que têm precedência e que nos obrigam muitas vezes a fazer marcha-atrás, para poderem passar. Depois há os “locais”, com pouca ou nenhuma paciência para o ritmo de passeio domingueiro dos turistas, e que fazem toda a pressão do mundo para nos atirarmos de um penhasco de 500 metros até ao azul do mar. O ideal é guiar nem muito depressa nem muito devagar, e colar no velhote italiano do Fiat Tipo que conhece bem a estrada, mas já não tem todo aquele sangue na guelra do seu sobrinho “Giuseppe”.

Fazendo esta apresentação, passemos então à estrada e a tudo o que ao longo dela merece paragem e história. Venha daí numa road trip pela Costiera Amalfitana, a mais bela estrada de Itália (até ao momento).

De Salerno a Amalfi, como num filme de Humphrey Bogart
A Costa Amalfitana está classificada como património da humanidade pela UNESCO desde 1997. A classificação deve-se à conjugação da sua antiquissima história com a dramática beleza natural do imenso promontório que se estende de Salerno a Sorrento e que faz daquela região uma autêntica e inacessível fortaleza natural, de costas para Nápoles e o Vesúvio e com terraço sobre o mar.
Partimos de Salerno, cidade industrial e industriosa, famoso porto de desembarque das tropas aliadas na II Guerra Mundial. Da autoestrada A3 – que liga a Nápoles – tomamos a saída pela SS 163 até Vietri Sul Mare, uma pequena vila célebre pelas suas originais peças de cerâmica e local a partir do qual se começa a vislumbrar a cenografia que vai estar montada no percurso – uma pequena faixa de terra e de praias protegida pelo imenso paredão do promontório, que por vezes (raras) se abre em canyons que permitem à estrada subir e descer pelas encostas menos inclinadas.
Maiori e Minori são duas pequenas e belas terras costeiras, quase coladas uma há outra – separa-as um dos muitos túneis que atravessam as gargantas do promontório Amalfitano. Em Maiori, estância balnear com praias concessionadas, uma pequena soneca de chaise longue e um mergulho rápido nas águas tépidas do Mediterrâneo e em Minori uma visita às ruínas romanas, antes de voltar ao sobe e desce da estrada.
Numa dessas subidas, já escondida na serra, fica Ravello, primeiro ponto de paragem obrigatório. É uma das mais belas e românticas vilas do Sul de Itália. É aqui que se realiza todos os anos o festival de música clássica de Ravello, num anfiteatro natural que aproveita a majestosa paisagem para cenário.

 

Ravello, de ruas estreitas e ziguezagueantes que se espraiam na praça do Duomo, foi um destino popular para os artistas românticos do séx. XIX, desde que Wagner aqui passou uma temporada durante o seu Grand Tour pelo Sul de Itália, que o levou a trautear toda a Costa Amalfitana.
A Villa Rufolo (construída em 1270) é um exemplar magnífico da arquitectura renascentista da região. A grande mansão era propriedade de Nicola Rufolo, um dos patriarcas de Ravello que inspirou a personagem homónima criada por Bocaccio em Decameron.
É na quarta novela da segunda jornada, desta monumental obra do picaresco que Bocaccio conta a história romanceada de Landolfo Ruffolo, intítulada “O naufrágio e a caixa” contado por Lauretta, em que Bocaccio descreve os encantos da Costa Amalfitana: “O litoral compreendido entre Reggio e Gaeta é considerado a mais deliciosa região de Itália. Aí, perto de Salerno, existe uma coisat que domina o mar e a que os seus habitantes chamam costa de Amalfi. É semeada de cidadezinhas pequenas, jardins e fortes e os seus habitantes têm grandes fortunas, devido ao comércio a que se dedicam. Ravello é um dos portos da costa, conta opulentos cidadãos.”
Foi também durante a sua estadia em Ravello e na Villa Rufolo que Wagner compôs a sua famosa ópera Parsifal.

 

Se estas referências não forem suficientes para o convencer a fazer o pequeno e inclinado desvio de 6 quilómetros desde a estrada costeira até aos píncaros da serra, então aqui fica um pequeno resumo do “star power” de Ravello: Foi aqui que D. H. Lawrence escreveu “O amante de Lady Chaterly” e onde André Gide escreveu o seu primeiro romance. Foi também aqui que Gore Vidal, o polémico autor americano, viveu trinta anos e onde Greta Garbo se refugiava com o seu amante, o compositor Leopold Stokowski.
Quando se sentar num dos cafés da praça principal, pode imaginar as noites de póquer em que Humphrey Bogart e o realizador John Houston limpavam a carteira de Truman Capote, o argumentista do filme “Beat the Devil”, um desastre de bilheteira que quase levou Bogie à ruína e que foi rodado aqui em Ravello e na Costa Amalfitana. Se depois disto não ficar convencido a fazer o tal desvio, talvez saber que uma das mais famosas e prestigidadas fábricas de limoncello de Itália é em Ravello seja o coup de grace.

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Ainda com o sabor fresco do limoncello na língua descemos de novo até à estrada costeira que nos vai levar até à cidade que dá nome à costa – Amalfi.
A inexpugnável localização fez de Amalfi uma das mais poderosas e perenes repúblicas marítimas italianas, juntamente com Veneza e Genóva. Todo o comércio marítimo do mediterrâneo do séc. XII era ordenado pela “Tavole Amalfitane” (tábuas Amalfitanas), um dos mais antigos códigos marítimos conhecidos.
Os sinais do seu antigo esplendor são ainda hoje visíveis nalguns palácios e na monumental Piazza del Duomo, onde pontifica a deslumbrante Catedral, o “Duomo Amalfitano” – construída no séc. IX e um dos mais bem conservados edifícios de estilo bizantino em Itália, com as suas imponentes portas forjadas de bronze com mil anos de vida.
As ruas desta popular estância de veraneio estão atulhadas de turistas que vão desaguar à marginal, onde pode escolher um dos muitos, bons e caros restaurantes para almoçar num terraço com vista sobre o mar.
A Costa Amalfitana é uma região de luxo, refúgio de Verão para celebridades, milionários e turistas ricos, e por isso não faltam restaurantes estrelados Michelin e hotéis ou villas de luxo, quem viage com um budget mais do tamanho da bagageira de um Fiat 500 terá de procurar refúgio nas montanhas onde há pequenas estalagens e hotéis com preços mais acessíveis, sobretudo fora da época alta.
Para nós uns mexilhões junto ao mar chegam e sobram para dar combustível para a segunda metade desta viagem, que nos vai levar às duas mais belas pérolas da costa – Praiano e Positano.

Jóias da costa
À saída de Amalfi, a estrada costeira começa a subir numa vertiginosa sessão de curvas e ganchos, sempre ladeada por muros de pedra, para a claustrofobia ser ainda maior. Claustrofobia só dissipada pela vista de Deus que se estende por toda a costa à medida que se sobe até ao cruzamento para Argeola.
A partir daqui inicia-se a descida até Praiano, uma pequena estância balnear, com uma bela praia e duas magníficas igrejas – a de San Luca Evangelista e a de San Giovanni Battista. A primeira foi construída em 1123 e alberga no seu interior o famoso quadro com Madonna e o menino de um dos vultos da Renascença italiana – Giovanni Bernardo Lama.
Autêntica obra de arte do génio humano, esculpida na natureza, é a cidade-postal de Positano, a mais bela e charmosa de toda a costa. A cidade parece organizar-se como uma cascata de ruas íngremes com belas casas, villas e palácios, que se vão empilhando como um presépio iluminado numa noite de verão até ao mar e às praias.
O ambiente é descontraído e cosmopolita, e tanto se pode comer uma pizza margherita na praia, como entrar num dos restaurantes de charme ou nas inúmeras boutiques de moda italiana – cara e barroca. Aqui respira-se o perfume inebriante da “dolce vita”.
Foi a “Moda Positana” a primeira em Itália a importar biquinis franceses e dela, John Steinbeck escreveu na sua reportagem para a “Harper´s Bazar” em 1953: “Positano apaixona profundamente. É um local de sonho que não parece bem real quando estamos lá e que se torna incrivelmente real quando partimos.”
De Positano não apetece positivamente partir e como a noite se vai insinuando no horizonte, deixamos o resto da Costiera Amalfitana (que liga a Sorrento) para outro dia.
Tecnicamente a estrada acaba em Sorrento, cidade grande e sem grande apelo, mas na verdade, este último troço é também o menos interessante de toda a rota. Por isso, o melhor é ficar aqui a desfrutar de uma noite estrelada e da brisa quente que sopra do Mediterrâneo, saboreando um aromático vinho branco e um risotto Positano, enquanto a lua vai fazendo o seu strip tease sobre o mar. Na rádio do restaurante de praia, passa uma música velhinha do Dean Martin, nem a propósito. “That`s Amore”.

Texto e fotos: Rui Pelejão

Quando ir: Entre setembro e outubro, quando o calor ainda dá para uns banhos e a horda de turistas já zarpou

Onde ficar: Muitos e extrordinários hotéis ao longo da costa, com preços tão altos como a vista de mar. Para orçamentos mais limitados, o melhor é ficar numa das estalagens das terras de montanha (Argeola por exemplo) ou na cidade de Salerno, mais encantadora do que Sorrento

Onde comer: Ao longo da costa a especialidade são os restaurantes de praia, ou os terraços alcandorados no promontório. A gastronomia tradicional italiana conjugada com os sabores do mar e o limoncello, especialidade da região, para rematar uma boa refeição. Uma sugestão é a Torre Normanda em Maiori. É um monumental restaurante instalado numa antiga torre Normanda. A vista sobre Maiori e Ravello só é superada pelo sabor da scialatielle ai frutti di mare. Os preços são puxados, mas pode sempre ter a mesma experiência por umas dezenas de euros menos se optar pela pizzaria em vez do restaurante.

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