Derby: Um Ferrari vermelho ou um Lamborghini verde?

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

Desde que o treinador do Sporting, Jorge Jesus, disse o ano passado que o Benfica era um Ferrari e que era preciso mãozinhas para o guiar — uma alusão à alegada incapacidade do novo treinador encarnado, Rui Vitória, para o fazer — as metáforas automobilísticas passaram a fazer parte do léxico dos comentadores e adeptos de futebol. 

Um Ferrari vermelho ou um Lamborghini verde? Este derby não é clubistico, mas há uma antiga rivalidade entre a Ferrari e a Lamborghini, dois dos maiores especialistas em produção de carros superdesportivos. E cada marca com a sua cor. A marca fundada por Enzo Ferrari desde cedo adotou o “rosso corsa” — vermelho de corrida. A utilização desta cor devia-se à imposição da Federação Internacional do Automóvel (FIA) que obrigava os construtores italianos a apresentar os seus carros em cor vermelha, enquanto o azul ficava reservado aos carros franceses, o prateado aos alemães e o verde aos ingleses (o famoso British Racing Green de marcas como a Bentley e a Aston Martin).

Esta imposição cromática acabaria por vir a marca a identidade de cada marca e o vermelho passou a ser a cor distintiva de um Ferrari, da mesma forma que um Mercedes ou um Porsche são associados ao prateado.

A Lamborghini é uma marca bem mais tardia e quando foi criada não sofria deste estigma cromático. Mas, a marca underdog que pretendia humilhar a Ferrari, sabia que vermelho nunca seria a cor dominante dos seus carros. Vale a pena recordar a história da marca que ousou desafiar a hegemonia da Ferrari.

Tratorista, fica-te pelo trator

Em 1966, um bem sucedido fabricante de tratores e ares condicionados dirigiu-se à fábrica da Ferrari em Maranello e cometeu a ousadia de ir queixar-se a Enzo Ferrari de um problema mecânico no seu Ferrari. Como resposta obteve um provocador repto que iria mudar a história do alta costura automóvel: “O senhor não percebe nada de carros, fique-se pelos tratores.”
Ferruccio Elio Arturo Lamborghini regressou a casa, resolveu ele próprio o problema do seu Ferrari e criou uma moderna fábrica de automóveis em Sant’Agata Bolognese, bastante perto do “berço” da Ferrari.
Ferrucio Lamborghini era um entusiasta de automóveis e um dos primeiros adeptos do tuning de alta costura. Em 1948 adaptara um Fiat Topolino com que participou nas “Mille Miglia” e em 1963 havia investido na preparação de um chassis desenhado por Dallara equipado com um motor V12 concebido por Bizarrini, que ficou conhecido como o Lamborghini 350 GT.
Mas, só em 1966, o tratorista deu chapada de luva branca a Enzo Ferrari, ao fabricar em Sant’Agata Bolognese o Lamborghini Miura, em homenagem à famosa ganadaria Miura em Espanha. A marca do touro tinha assim lançado a primeira bandarilha na vaidade da Ferrari, já que aquele modelo de Grande Turismo, desenhado por Luigi Bertone e dotado de um poderoso V12, foi venerado como um dos grandes automóveis do seu tempo.

Ferruccio_lamborghini

Até ao final da década de 60, Ferrucio Lamborghini ainda colocou o seu ferro em alguns novos modelos, como o Islero ou o Espada, mas em 1971 acabou por vender a fábrica de automóveis e a marca que havia criado. O último modelo da era Ferrucio, foi o Countach, um dos raros a não recorrer a um nome de raça de touros. A palavra Countach, no jargão piemontês, é usada para mostrar surpresa por ver algo bonito, normalmente uma mulher.
É por isso uma espécie de piropo, que hoje, segundo os rigores do politicamente correcto, seria impensável ter no nome de um carro.
O Countach é aliás tudo menos politicamente correcto e foi um dos pioneiros de uma era de superdesportivos em forma de cunha e linhas angulosas que marcaram a década de 70. O Countach foi projetado por Marcello Gandini, do estúdio Bertone.
As portas abriam-se para cima e para a frente para auxiliar nas manobras, já que a área do vidro traseiro era praticamente inexistente. Com tração traseira e motor central Lamborghini V12 com 4 litros de capacidade nas primeiras versões, e de 5 l e 5.2l em versões posteriores, capazes de debitar elevadas potências e de oferecer ao Countach uma capacidade de performance em estrada difícil de bater na sua época.
O Countach foi o último legado de Ferrucio à história do automóvel, o industrial italiano decidiu desfazer-se dos seus negócios e retirar-se para a sua propriedade no Piemonte, onde se dedicou a produzir vinhos, até morrer em 1993. A marca que carrega o seu nome e a ousadia de ter desafiado a Ferrari, essa continua a produzir alguns dos mais apaixonantes automóveis desportivos do mundo, agora sob a égide do Grupo Volkswagen.

Lambo verde ou amarelo?

O amarelo foi ao longo da história a cor predominante dos modelos da Lamborghini, mas nos últimos anos e com os seus últimos modelos, como o Murciélago ou o Huracán, um esfuziante verde começou a assumir o topo da preferência das vendas da marca, especialmente no mercado norte-americano. Na cidade de Miami, onde há uma das maiores concentrações de Lamborghinis por metro quadrado do mundo, a cor de referência é o verde e sempre que a marca anuncia um novo produto, o verde está invariavelmente no catálogo de fotos de lançamento.

A importância das cores para os fabricantes de automóveis é extrema, e todos eles têm departamentos inteiros dedicados ao estudo de novas cores e misturas para a pintura dos seus automóveis. Em Portugal, o cinzento e o preto são as cores dominantes no parque automóvel, exceto hoje, dia em que o Ferrari vermelho de Rui Vitória vai defrontar o Lamborghini verde de Jorge Jesus, no “Autódromo da Luz”.