A loucura dos preços em Milão

Esta análise é feita a propósito do leilão levado a cabo pela RM Sotheby’s, a gigante leiloeira que domina o sector das vendas de veículos históricos e clássicos, chamado Duemila Route. Entre bicicletas, motos, automóveis, barcos e também peças e automobilia (sobretudo placares publicitários) foram à hasta mais de 900 lotes, perfazendo as tais “2000 rodas” anunciadas no nome da venda, que decorreu em Milão, entre os dias 25 a 27 de Novembro, coincidindo com o excelente evento AutoClassica.

A génese da venda é conturbada, porque todos os lotes são provenientes de uma colecção particular, do italiano Luigi Campiano, acusado de fraude e evasão fiscal. Os automóveis, motos, bicicletas e barcos que compunham a colecção foram confiscados em 2013. A RM Sotheby’s chegou a acordo com o Estado Italiano para assegurar um valor mínimo para a venda global – fala-se de 15 milhões de euros, o valor da soma das estimativas mais baixas de todos os lotes. Todos os lotes foram a leilão sem reserva.

A poderosa máquina de marketing da leiloeira soube apelar aos sentimentos de muitos milhares de coleccionadores. As estimativas para muitos dos lotes eram baixíssimas e a possibilidade de uma pechincha inundou a cabeça, mas sobretudo, o coração, de muitos entusiastas.

Os resultados do leilão, que superou todas as expectativas, gerando um valor global superior a 50 milhões de euros, têm que ser lidos tendo em conta a situação excepcional criada em torno desta venda.

A RM Sotheby’s informou que, num leilão normal, tem, em média, cerca de 1000 licitadores inscritos, sendo que, neste caso, foram mais de 4000! Só licitadores registados para licitar pela internet e pelo telefone, eram mais de 1000!

Mas o mais curioso é que 80% dos licitadores inscritos eram novos para a RM Sotheby’s e 50% destes novos clientes eram italianos. Outra informação relevante é que, com vários clássicos modernos incluídos na venda, metade dos licitadores tinham menos de 50 anos.

Com mais de 400 automóveis, 150 motos, 140 bicicletas e mais de 50 barcos, vários de competição, este foi confortavelmente o maior leilão de clássicos realizado na Europa. A maior parte dos exemplares apresentados estava em fraco estado de conservação. Existiam diversos automóveis incompletos e quase todos precisavam de cuidados e reparação. Muitos não trabalhavam há vários anos.

O leilão durou mais de 30 horas, ao longo de três dias, e a área necessária para albergar todos os lotes era superior a quatro campos de futebol.

Os valores atingidos por alguns modelos foi formidável e, com tantas pessoas à procura do bom negócio, o resultado previsível foi o de que o bom negócio ficou todo do lado do estado Italiano e da leiloeira. A juntar ao valor de martelo havia o pagamento da comissão de 12% e o IVA respectivo, o que perfazia um total de 14,4%. Noutros casos, de particulares residentes na UE, era ainda necessário pagar 22% de IVA sobre o valor da compra, o que tornou alguns lotes ainda mais dispendiosos. Houve aliás lotes que foram arrematados, mas que voltaram algum tempo depois à praça, porque os “vencedores” perceberem que o valor a pagar era bastante superior ao que aparecia nos ecrãs gigantes!

Muita inexperiência e excitação permitiram que diversos automóveis, alguns até relativamente disponíveis no mercado, acabassem por atingir valores difíceis de explicar. Todavia, daqui extrapolar que todos foram loucuras de momento, não me parece razoável.

Os melhores lotes, restaurados ou em excelente estado original de conservação estabeleceram resultados que fazem sentido, atendendo à sua raridade. E os licitadores souberam também diferenciar exemplares mais mundanos e outros mais fora do vulgar.

Uma tendência que se confirmou foi que certas marcas continuam a ter uma procura excepcional. É o caso da Ferrari, da Porsche e da Maserati e de boa parte dos Alfa Romeo, assim como de muitos Lancia.

Houve alguns casos curiosos a registar. Dois Ferrari 250 GTE foram vendidos sem motor, alcançando valores bastante diferentes: 162 000 e 78 000 €. Noutros lotes estava uma transmissão (quase 20 000 €), um motor (134 500 €) e alguns revestimentos interiores (7000 €)! Os 250 GTE, pela sua baixa cotação, eram utilizados como base de réplicas ou para restauro dos modelos mais cotados (GTO, GT SWB), mas agora têm um valor muito elevado por si próprios. A expectativa de quem comprou estes lotes não pode ser de uma valorização inferior a meio milhão de euros muito em breve.

Vários automóveis de competição, sobretudo Lancia e Alfa Romeo, atingiram valores impressionantes, sem grande surpresa. Raridade e pedigree têm sido cada vez mais acompanhados de grande valorização.

Supercarros, como o Lamborghini Countach ou Bugatti EB110 GT tiveram valores dentro do previsto. Já o excelente exemplar do Maserati MC12, superou em muito as expectativas, com um valor de martelo de três milhões de euros. Embora represente cerca de 30% mais do que os valores anteriormente conhecidos, com apenas 50 unidades produzidas, é bem provável que esta passe a ser a bitola para o modelo nos próximos tempos. O lote mais valorizado foi o de um Ferrari 275 GTB/6C, um exemplar interessante e íntegro, com todos os números certinhos, que alcançou 3 416 000 € de valor de martelo.
Quanto aos Porsche, os modelos de excepção como um 993 Carrera RS e um 964 Carrera RS obtiveram valores acima dos 300 000 €, dando mais um empurrão nos preços dos 911 mais normais. Um 3.2 Carrera Cabriolet por 85 000 €, um 964 Carrera 4 Cabriolet por 67 000 € e um modelo semelhante, mas com a opção Turbo Look, por mais de 145 000 €. Todos os 911 são especiais, mas alguns são-no mais do que outros.

A colecção compreendia muitos Jaguar, mas os valores, comparados com os restantes, foram desanimadores. Mantém-se a tendência de estagnação dos XK e dos modelos mais recentes, como os XJ6 e sucessores, bem como dos XJS. Em alta apenas o E-Type, e com uma particularidade: a intensa valorização dos Coupé da primeira série (3.8 e 4.2). Não é surpreendente, já que o E-Type coupé rivaliza em termos icónicos com o roadster, mas historicamente valeu sempre consideravelmente menos, em certos momentos, cerca de metade. O mais valorizado dos Roadster foi um 3.8 de 1963, que atingiu mais de 173 000 euros, sendo o melhor dos FHC um exemplar de 1966, com 151 000 €. Mais três coupés superaram a fasquia de 130 000 euros, sendo que um deles atingiu mesmo 147 000 €. Valores raros há algum tempo para os Roadster e que representam o dobro do valor de um FHC em muito bom estado ainda em 2015.

Pechinchas no Duemilla? Não nos pareceu que existissem grandes oportunidades, mas identificámos alguns valores razoáveis, fora das marcas e modelos mais desejadas pelos coleccionadores: Um Rolls-Royce Corniche por 44 800 €, um Cadillac Series 61 Club Coupe de 1948, por cerca de 27 000 € e dois Volvo PV 444 e 544, por valores abaixo dos 10 000 €. Um Porsche 912 de 1966 por cerca de 45 000 € também não estava mal. Mas quando a afluência é tem estas caraterísticas, o melhor é deixá-los passar e procurar bons negócios noutro lado.
Ainda assim, temos a informação de que alguns projectos de restauro de marcas prestigiadas vão passar pelo nosso país. E isso sim, é uma excelente notícia…

Todos os valores apresentados são os divulgados pela leiloeira e não incluem os impostos específicos variáveis consoante a residência fiscal do comprador.

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