“Sistema ‘mãos-livres’ distrai tanto quanto usar o telemóvel ao ouvido”

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

O manuseamento do telemóvel ou smartphone durante a condução continua a ser um dos comportamentos mais usuais dos portugueses, de acordo com um estudo levado a cabo pela Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP). Para o seu presidente, José Miguel Trigoso, a alternativa de utilização de sistemas mãos-livres, embora legal, não se traduz numa vantagem, com aquele responsável a apontar que as distrações estão ao mesmo nível que o manuseamento do aparelho de forma normal.

Essa foi apenas uma das ideias apontadas por um estudo observacional levado a cabo pela PRP nos meses de março e abril de 2017 na região de Lisboa, tendo sido verificadas mais de 5.600 situações em locais estratégicos nos quais membros da PRP contabilizaram os casos de utilização de aparelhos móveis. As observações incidiram sobre condutores em veículos em movimento (3.378) e condutores em veículos parados na sinalização semafórica (2.260).

Assim, a partir da observação dos seus comportamentos, a PRP indicou que 7,7% dos condutores de veículos observados em movimento utilizavam o telemóvel, embora nem todos segurassem o dispositivo. Com efeito, 3,3% desses condutores usavam os sistemas alta-voz ou mãos-livres (também auriculares), enquanto 2,7% consultavam o aparelho e os restantes 1,8% efetuavam chamadas de forma tradicional, ou seja, com o telemóvel encostado ao ouvido.

Na opinião de José Miguel Trigoso, a utilização dos smartphones com sistemas mãos-livres acaba por não ser vantajosa para acabar com as distrações ao volante, mantendo-se como um dos potenciais focos causadores de acidentes.

“A distração durante a condução é uma ameaça séria e crescente para a segurança rodoviária. A distração provocada pela utilização do telemóvel compromete o desempenho do condutor e leva a um aumento do risco de acidente. A utilização de sistemas mãos-livres, apesar de legal, não tem vantagens significativas em relação a falar com o telemóvel na mão, uma vez que a distração cognitiva que provoca (o tipo de distração que mais influencia negativamente a condução) é semelhante à provocada por falar com o telemóvel na mão”, considera.

Mas nem só os condutores a bordo de carros em movimento usavam o telemóvel. Aproveitando as paragens no trânsito, também muitos condutores recorreram ao aparelho. Nos condutores parados na sinalização semafórica – que é também uma situação punível com coima, note-se – destacaram-se os que estavam a consultar o telemóvel, cuja percentagem foi de 7,3% – quase 3 vezes superior à observada nos veículos em movimento. A PRP aponta que “este comportamento constitui uma infração grave e prejudica o fluxo do trânsito”. Além desses, foram ainda observados 5,2% de condutores a falar em alta-voz/auriculares e 1,9% a falar com o telemóvel na mão.

“Considerando as três atividades, conclui-se que 13,7% dos condutores de veículos parados na sinalização semafórica estavam distraídos com o telemóvel”, é indicado neste estudo, no qual são dados alguns indicadores alarmantes quanto à utilização do smartphone ou telemóvel durante a condução.

“Estes dados não significam que 7,7% dos condutores utilizam o telemóvel enquanto conduzem, ou que 13,7% o utilizam quando param num semáforo, mas sim que essas são as percentagens de condutores que, em cada momento, o estão a utilizar. Isto é, na cidade de Lisboa, em cada milhão de condutores estão, em permanência, 77.000 condutores a utilizar o telemóvel enquanto conduzem e 137.000 enquanto estão parados nos semáforos”, lê-se no estudo da PRP.

De acordo com o estudo internacional ESRA, do qual a PRP faz parte, entre os condutores portugueses, 45,9% declaram ter falado com telemóvel na mão, 60% admite recorrer ao sistema mãos-livres, 44,5% leram mensagens ou e-mails e 27,6% enviaram mensagens ou e-mails durante a condução, o que coloca Portugal acima da média dos países europeus em todos estes comportamentos.

Jovens e mulheres são quem mais arrisca

Do estudo observacional, a PRP retirou ainda alguns dados estatísticos relevantes, sendo que um deles diz respeito aos que mais utilizam os smartphones ou telemóveis durante a condução. Segundo esse, então, são os mais jovens que mais recorrem aos ditos dispositivos, encontrando-se sobretudo a consultar o telemóvel (situação mais grave) e a falar com o telemóvel na mão, num comportamento em total contraponto com o dos condutores mais velhos (acima dos 60 anos), que foram os que menos utilizaram o telemóvel em todas as situações.

Também as mulheres têm uma predominância neste aspeto, sendo os condutores do sexo feminino que utilizam o telemóvel com mais frequência enquanto conduzem, quer com o telemóvel na mão quer com recurso ao sistema mãos-livres. Os resultados da cidade de Lisboa estão em linha com os resultados obtidos num estudo observacional desenvolvido durante o mês de março, em França, que incluiu a observação de 16.985 condutores dentro das localidades. Por terras gaulesas, 12,7% dos condutores observados parados no trânsito e 6,9% dos condutores de veículos em movimento estavam a utilizar o telemóvel.

Recorde-se que a utilização de telemóveis durante a condução – sem dispositivos mãos-livres – é uma contraordenação grave com coima entre os 120 e os 600 euros, podendo também ser retirados dois pontos à carta e levar a uma sanção acessória de inibição de conduzir.

Qual é a sua opinião sobre este tema? Acredita que os sistemas mãos-livres são uma alternativa valiosa ou que os mesmos não impedem as distrações?