Toyota C-HR 1.8 HSD Exclusive: Super-Guerreiro nível 3

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Se vieram parar a este ensaio pelo título do mesmo, é porque conhecem a referência aos populares desenhos animados japoneses (ou à manga, se preferirem). Se, no entanto, ‘aterraram’ no ensaio ao Toyota C-HR apenas pela curiosidade de saber mais sobre aquele que é um dos melhores SUV da atualidade, sejam igualmente bem-vindos.

O título deste artigo não é inocente: o C-HR (Coupé-High Rider) tem um estilo agressivo em que as arestas e diversas linhas vincadas da carroçaria fazem lembrar os cabelos espigados e expressões exageradas dos personagens japoneses de Dragon Ball. Embora pareça ter como ponto de partida o Auris e o RAV4, o C-HR vai mais além: passa para o nível super-guerreiro 3 com um impacto visual muito significativo que não deixa ninguém indiferente na estrada.

Paralelismos metafóricos à parte, há que dar muito mérito aos responsáveis da Toyota que decidiram manter a versão de produção tão próxima ao concept revelado há cerca de dois anos. É por isso, também, que no meio de tanta proposta neste segmento (do Tiguan ao CX-5, passando por Qashqai, CR-V, Kadjar e 3008, entre tantos outros), o crossover da Toyota sobressai sempre, atraindo olhares aqui e ali.

Esta é também uma aposta da marca liderada por Akio Toyoda para recolocar a companhia na mira de uma nova geração de compradores, mais jovens, mais irreverentes e mais atenta às tendências atuais. Recuperar o espírito emotivo é algo que a Toyota está a levar muito a sério na atualidade, daí lançando modelos como o GT86 ou o futuro Supra. Mas o C-HR faz também parte deste objetivo e até o Yaris terá, em breve, uma versão inspirada no Mundial de Ralis (WRC), o GRMN, com motor de 210 CV. Seja como for, o visual é polarizador de opiniões – fantástico para uns, exagerado para outros.

Eficiente como sempre

Acérrima defensora dos híbridos, a Toyota volta a apostar nesta fórmula para o seu novo SUV, procurando assim aliar duas tendências em crescendo – a dos SUV e a dos modelos híbridos. O resultado é muito positivo. Ponto prévio: este é, muito possivelmente, um dos modelos mais eficientes no mercado atendendo ao conjunto completo. Mas não o faz às custas da dinâmica de condução, até porque a nova plataforma TNGA (Toyota New Global Architecture) a que recorre traz muitas vantagens, sobretudo ao permitir um centro de gravidade mais baixo e maior ligeireza de base.

A solução preconizada para o motor recorre, uma vez mais e sem segredos, a um bloco 1.8 de ciclo Atkinson (reconhecidamente mais eficiente) aliado a uma unidade elétrica de íman permanente que, em conjunto, oferece 122 CV. Além disso, o binário é de 142 Nm às 3.600 rpm. Também conhecida é a caixa CVT que a marca utiliza para esta solução de motorização, que é aquela que permite maior eficiência, conforme nos referiu recentemente um dos responsáveis pelo desenvolvimento técnico da Toyota.

Com efeito, em condução, o conjunto híbrido tem o condão de oferecer prestações convincentes com o binário imediato da unidade elétrica a ajudar o motor térmico e a permitir ao C-HR ganhar velocidade com rapidez (11 segundos dos 0 aos 100 km/h) e abraçar ritmos vivos nas recuperações. Embora longe das performances de um desportivo (nem a tal se propõe), permite tanto uma toada mais dinâmica, como uma condução amiga do ambiente, sobretudo em modo Económico, que salienta as suas pretensões ecológicas.

Aí, o C-HR volta a oferecer uma prestação assinalável, com um consumo médio real (60% de cidade e os restantes 40% entre nacional e autoestrada a velocidades legais) de 4,8 l/100 km. Uma mais-valia que salienta a competência deste sistema já com largos anos de desenvolvimento e com baterias a disporem de dez anos de garantia, o que é um tranquilizante suplementar.

É, porém, na cidade que o elemento híbrido mostra todo o seu potencial, circulando em modo EV durante muito tempo quando o condutor não é muito fogoso na sua reação ao pedal do acelerador. É aqui que o sistema híbrido dá cartas, mostrando o melhor de dois mundos: zero emissões e autonomia ampliada. Por outro lado, aquilo que continua a deixar algum sabor ‘amargo’ – mesmo que seja apontada a sua eficiência – é a caixa CVT. O trabalho de insonorização que a marca levou a cabo para tentar colocar o C-HR HSD com um ambiente tranquilo a bordo é, de certa forma, prejudicado pela atuação da CVT – Caixa de Variação Contínua – que extrai do motor um esforço que nem sempre é sinónimo do andamento real de cada momento, fazendo-se ouvir com alguma veemência no interior. Ainda assim, é um atributo que se lhe perdoa atendendo à sua eficácia (86 g/km de CO2) e poupança de combustível. Afinal, qual é o SUV que consegue gastar 4,8 l/100 km e andar de forma ritmada em cidade e fora dela?

Rápido a ‘bailar’

A nova plataforma e o maior cuidado na distribuição do peso, por exemplo, tiveram como efeito a obtenção de uma capacidade de condução entusiasmante, com um chassis muito neutro e seguro que permite compostura elevada em todos os tipos de piso. A isso não é alheio o recurso a elaborado esquema de suspensões (independente multibraços no eixo posterior) para aliar conforto a dinâmica, sendo de referir o rolamento da carroçaria muito controlado, mostrando-se sempre muito atreito a mudar de direção sem queixumes de maior. O ‘feedback’ oferecido pela direção é muito positivo, transmitindo ao condutor as sensações mais importantes do que se passa no asfalto.

Em cidade e em pisos menos lisos também demonstra uma solidez apreciável, valendo-lhe elogios, com capacidade superior para a absorção de irregularidades e desníveis no asfalto.

Salto na qualidade interior

Surpreendente é o salto dado na qualidade interior, com uma elevada profusão de materiais macios ao toque na parte superior do tablier e na consola central, bem como nas portas, merecendo assim uma nota muito positiva neste aspeto. A sublinhar tudo isto, menção honrosa para a qualidade de junção entre painéis para uma ambiência Premium que é muito forte e bem-vinda neste C-HR. Pormenores interessantes como o porta-copos nas portas traseiras ou o padrão em diamante no revestimento interno das portas revelam um nível de atenção muito especial ao nível da conceção do interior.

A posição de condução é elevada, enquanto em termos de ergonomia, os comandos estão bem situados, sendo importante destacar a presença do ecrã tátil de 8,0 polegadas no topo do tablier, com comandos táteis bem grandes para melhor acesso (pena o abandono do comando rotativo do volume, algo que, no entanto, não é ‘mal’ exclusivo da Toyota, mas também doutros fabricantes).

Refiram-se ainda as cotas de habitabilidade interessantes (2.640 mm de distância entre eixos), embora não sejam valores referenciais, situando-se apenas na média do segmento, com bastante espaço para as pernas atrás e altura apenas adequada para transportar adultos de estatura média (cerca de 1,80 m). Ou seja, está longe de desapontar, mas dadas as dimensões exteriores poderia ser melhor. Além disso, o desenho das janelas torna a viagem atrás mais claustrofóbica. Uma concessão nítida ao design que também tem repercussões ao nível da visão do condutor a três quartos para trás, devido à grossura do pilar C. A bagageira tem capacidade muito agradável, com 377 litros, rivalizando com os compactos de segmento C neste aspeto.

Em termos de equipamento, o C-HR em versão Exclusive (31.900€) surge com importantes elementos integrados como o Toyota Safety Sense, num reflexo do compromisso da marca para com a democratização dos sistemas de segurança. Assim, este conjunto de tecnologias integra assistente de pré-colisão (PCS), cruise control adaptativo (ACC), aviso de saída de faixa de rodagem (LDA) e comutador automático de máximos, tendo ainda no caso premente o sistema de reconhecimento de sinais de trânsito (RSA). Juntando-se o Pack Luxury (com um preço final de 33.900€), o C-HR ganha bancos em pele, faróis LED, assistente de detenção de veículos atrás, alerta do ângulo morto e sistema de navegação.

Veredicto

Numa apreciação completa, o C-HR acaba por ser um dos melhores Toyota dos tempos modernos, conjugando de forma subtil o estilo vanguardista com a dinâmica de condução que sobressai pelo lado positivo sem estragar o conforto. Impressionando na grande maioria dos aspetos, o C-HR surge bem construído e com muitos pormenores que remetem para uma sensação mais Premium, ficando num patamar muito forte no segmento, rivalizando sem temores com opções como o Nissan Qashqai, SEAT Ateca, Volkswagen Tiguan e Hyundai Tucson, entre outros. A motorização híbrida tem pequenos traços peculiares que devem ser observados à luz do capítulo superlativo da eficiência. E neste campo, mais no que do das prestações, o C-HR com tecnologia híbrida está num nível sem paralelo.

‘Devo comprar?’ Faz muitos quilómetros em cidade? Então, sem dúvida que este C-HR com ‘alma’ ecológica é a escolha mais acertada ao permitir rodar sem consumos de forma suave e silenciosa por muito tempo em ambiente urbano. Médias abaixo dos cinco litros são frequentes e possíveis (mesmo com condução despreocupada), pelo que os ganhos são muitos. Mas, poderá querer também dar uma volta na versão com motor 1.2 Turbo a gasolina para comparar feitios. E se está a perguntar-se pelo Diesel, fique a saber que não há nem está previsto…

Nota: Tendo por inspiração a ‘Trilogia dos Três Sabores de Gelado’, pensada pelos britânicos Simon Pegg e Edgar Wright em adequação a cada um dos seus filmes (de ‘Shaun of The Dead‘ a ‘The World’s End‘, passando por ‘Hot Fuzz’) este é o primeiro dos ensaios com inspiração em séries de animação japonesa. Apropriadamente designada ‘Trilogia do Anime’.

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