As melhores ‘estórias’ da primeira metade do WRC 2017

O Mundial de Ralis entra com o Rali da Polónia na segunda parte do campeonato, mas para trás ficou um conjunto de histórias, de que destacamos as mais importantes, até aqui…

Acidente ensombra Rali de Monte Carlo

Não começou bem o Rali de Monte Carlo, já que logo na primeira especial Hayden Paddon teve uma violenta saída de estrada depois de ter apanhado ‘gelo negro’ e colheu um espetador muito mal colocado. O troço foi de imediato interrompido para ser prestado socorro ao ferido, que foi transportado para o hospital de Nice, onde mais tarde foi confirmado o óbito. Tudo sucedeu numa esquerda, sendo visível que a traseira do Hyundai i20 WRC se ‘passa’ repentinamente, projetando o infortunado espetador que, segundo pudemos apurar, estava ao pé da sua GoPro (câmara de vídeo) que colocara junto ao chão.

Foi projetado violentamente, imobilizando-se junto ao carro. Por uma questão de respeito, a Hyundai decidiu retirar o carro de Hayden Paddon do rali, assim que foi confirmada a morte do espetador. “Estou incrivelmente triste pelo acidente e os meus pensamentos vão para a família e amigos da pessoa envolvida. Estou em choque com o sucedido. Lamento pela família, pelos adeptos, pelo desporto”, escreveu na sua conta de Twitter.

Já não é novidade o mau comportamento do público no Rali de Monte Carlo, tem havido nos últimos anos graves problemas com a segurança da prova, mas a FIA apertou a ‘malha’ ao ACM e Michéle Mouton fez saber, através da World Rally Radio, que se os espetadores mal colocados não se deslocassem para sítios seguros, seriam anulados troços, o que acabou mesmo por suceder com a PE16, no último dia de prova: “Está muita gente em locais não apropriados, há que respeitar os marshals e não ficar em zonas proibidas. O helicóptero vai verificar a posição das pessoas e os troços podem não se realizar caso os espetadores não estejam nos sítios certos”, disse ainda antes do Delegado de Segurança entender por bem anular a PE16.

No dia seguinte, Hayden Paddon divulgou um comunicado em reação ao acidente e a todos os desenvolvimentos que se seguiram na internet, pedindo aos adeptos que tenham o máximo de cuidado com os locais onde se colocam, solicitando também que se pare de falar das circunstâncias do acidente, como sinal de respeito para a família do falecido. Eis as passagens mais importantes dessa declaração. “Olá a todos. Depois de muito refletir, quis divulgar uma pequena declaração. (…) Em primeiro lugar, os nossos pensamentos estão com a família e amigos do espetador envolvido. (…) Aproveito a oportunidade para pedir às pessoas para não especularem. Independentemente da forma de como e porquê o acidente aconteceu, apontar o dedo não irá mudar nada. O mais importante é que se aprenda com isto. (…) Quero aproveitar esta oportunidade para pedir aos espetadores dos ralis para, por favor, considerarem bem onde se colocam e para respeitarem as instruções dos marshals. Todos queremos desfrutar de um bom espetáculo e regressar a casa para as famílias. Peço também a todo e qualquer adepto nos ralis que se virem alguém numa posição perigosa, lhe peçam para sair, para o interesse de todos. Como comunidade, podemos coletivamente trabalhar juntos para prevenir que algo semelhante possa voltar a suceder. Por último, peço também respeito por parte da imprensa nestes momentos, especialmente para a família e amigos do espetador falecido. Não divulgarei mais nenhuma declaração ou darei entrevistas neste momento. Tomámos a decisão de não continuar durante o fim-de-semana por respeito, mas voltaremos na Suécia, onde realizaremos um tributo. Obrigado novamente a todos pelo apoio e pelo apoio à equipa – significa mesmo muito. Até ao Rali da Suécia, Hayden”.

O AutoSport aproveita as palavras de Paddon para pedir a todos os muitos adeptos dos ralis em Portugal que olhem para o sucedido e se protejam ao máximo para prevenir quaisquer azares que por vezes possam surgir quando se deslocarem para as provas.

Jari-Matti Latvala faz história ao vencer com a Toyota

Jari-Matti Latvala fez história ao vencer o Rali de Suécia oferecendo assim à Toyota o primeiro triunfo desde o regresso ao WRC: “É fantástico, nova equipa, novo carro, e ganhámos logo no segundo rali, e também a Power Stage. Esta vitória sabe-me tão bem quanto a minha primeira em 2008. Foi uma surpresa na altura, é novamente uma surpresa agora”, começou por dizer Latvala. Quando lhe perguntaram de onde veio esta performance, riu-se: “Pois é, eu penso demais nas coisas! Se paro de pensar, consigo boas performances”, revelou. Latvala brinca, mas é bem verdade que o aspeto psicológico sempre o atemorizou muitas vezes e o que se passou o ano passado é um bom exemplo: “Na segunda metade da época passada não estava a andar bem. Perdi confiança e quando tive a hipótese de ir para a Toyota, senti uma grande motivação. Há um espírito muito bom na equipa, que me tem ‘elevado’ para níveis a que só estive há alguns anos atrás. Não tenho palavras para descrever o que sinto com este triunfo, é muito emocional. Estamos já a um bom nível, mas tenho a certeza que vai tornar-se tudo mais difícil. O México vem aí e estou muito motivado para este campeonato”, disse.

Hyundai muito azarada

É verdade que os resultados da Hyundai ao cabo de dois ralis não são os esperados, já que se saldam apenas por dois quartos lugares de Dani Sordo, e nem um só pódio, mas a verdade é que o decorrer dos ralis ‘dizem’ muito mais do que isso. Tanto em Monte Carlo como na Suécia, o Hyundai i20 WRC pilotado por Thierry Neuville mostrou-se, no mínimo, perfeitamente suficiente para que o piloto belga chegasse à liderança e não tivesse grandes problemas para a manter. Nunca foi irregular e foi quem mais troços ganhou nos dois ralis. Mas a Hyundai teve nestas duas provas uma peça que se ‘avariou’ ao cabo de alguns quilómetros, Thierry Neuville. Até se pode desculpar o toque de Monte Carlo, igual a tantos outros em que os pilotos se ‘safam’, mas indesculpá-vel a desconcentração da super-especial. Naquela altura do rali, com mais de quarenta segundos de avanço um piloto não pode arriscar, tinha que passar com o carro 20 cm mais ao lado pois é assim que se defende das armadilhas. Por isso, a Hyundai e o belga perdem dois ralis que iriam vencer, quase de certeza, o segundo deles devido a um erro infantil: “Temos as peças todas do puzzle, só as temos que colocar de forma correta. Estes dois ralis serviram para reforçar o nosso cárater. Não há resultados garantidos nos ralis. O nosso carro é bom, já mostrou o potencial, e temos o espírito de lutadores que precisamos, agora é só dar a volta à má sorte”, disse Nandan. E tem razão, em condições normais a Hyundai tinha ganhado os ralis de Monte Carlo e Suécia.

Bernardo Fernandes é o ‘anjo da guarda’ de Ogier

Bernardo Fernandes é um jovem engenheiro português, tem 26 anos, e começou a sua carreira há dez como aprendiz de mecânico em motos de estrada. Uma década depois está no WRC e o seu piloto é… Sébastien Ogier. A vida dá sempre uma voltas engraçadas, e este jovem engenheiro do Estoril tem agora um enorme desafio pela frente. Está na M-Sport desde 2014, isto depois de ter passado pela ASM Team em 2009, onde deu os primeiros passos no desporto motorizado. Na altura analisava trajetórias e depressa passou a ajudar os mecânicos na manutenção do Ferrari 430 GT2 da equipa. No ano seguinte foi para os ralis, mais concretamente para a ARC Sport, onde esteve até 2013. Aí começou verdadeiramente o trabalho que a sua licenciatura de ‘Motorsport Engineering’ lhe permitia, e lidou com as afinações de um dos carros da equipa, um Citroën DS3 R3T, estreando-se esse ano no Rali de Portugal.

Mas não só, pois a ARC passou a preparar cada vez mais carros e Bernardo Fernandes ampliou o espectro do seu trabalho na equipa. Em 2014 rumou à M-Sport e em 2016 foi o engenheiro do carro de Ott Tanak. Esta temporada trouxe-lhe uma bela surpresa, um Campeão do Mundo, Sébastien Ogier: “Quando recebi o telefonema em que me informaram que iria trabalhar com o Sébastien Ogier este ano percebi que iriam esperar muito mais de mim do que no passado, mas por outro lado fiquei também muito satisfeito porque a M-Sport estava a depositar esse nível de confiança em mim”, começou por dizer o jovem engenheiro luso, que agora teve que trocar o ‘mind set’: “Sim, teve que haver uma inversão de pensamento, pois se antes o objetivo era ganhar contra o Ogier, agora passou a ser ganhar com ele! Como seria de esperar é um piloto muito profissional e rapidamente começámos a trabalhar de forma eficiente. Alguns dos meus métodos de trabalho tiveram de ser alterados para se adequarem às suas preferências, e até se começar a trabalhar com ele não se tem a noção completa da pessoa que ele é. Estava à espera de encontrar um piloto exigente mas surpreendeu-me muito – talvez mais a simplicidade com que ele aborda algumas decisões, de forma a poder fazer boas escolhas e a minimizar riscos desnecessários”, explicou o jovem engenheiro luso. E como se sabe, a ‘relação’ começou de forma perfeita, com o triunfo no Rali de Monte Carlo: “Ganhar o Rali de Monte Carlo foi algo que eu e a M-Sport há muito sonhávamos e foi uma demonstração clara de todo o esforço que foi posto neste projeto, tanto no desenvolvimento do carro, como na escolha de pilotos e reestruturação técnica da equipa. Todo o rali foi muito intenso e o último dia ainda mais complicado foi com a alteração das condições climatéricas. Tudo isto ajudou a que, no final, ganhar o rali fosse como se um peso saísse de cima da equipa e com isso trousse motivação extra para continuar a trabalhar para saborear estes momentos”, disse Bernardo Fernandes, que tem em mãos um trabalho tão difícil quanto motivador. Não é todos os dias que se tem um campeão em ‘mãos’.

Lucky Irish no México

Kris Meeke chegou à quarta vitória da sua carreira no WRC da forma mais dramática que se possa imaginar. O norte-irlandês da Citroën dominou os acontecimentos até a duas curvas do fim, evitando males maiores após uma bizarra saída de estrada. A ronda mexicana não foi particularmente emotiva na luta pelos primeiros lugares… isto até Kris Meeke ter saído de estrada a duas curvas do final, quase hipotecando uma vitória que tinha cimentado de forma meritória ao longo de quatro dias. Depois de Monte Carlo e Suécia, a terceira prova do Mundial teve alguns momentos dramáticos antes da famigerada excursão do Citroën de Meeke e Paul Nagle por um parque de estacionamento: Escassos minutos após evitar um momento potencialmente desastroso para a sua carreira – depois de começar o ano com dois erros comprometedores em Monte Carlo e na Suécia -, o piloto da Citroën quase nem conseguia falar aos microfones dos incrédulos repórteres que o aguardavam no final da Power Stage. “Sou um rapaz de sorte, muita sorte”, referiu o norte-irlandês, explicando depois: “Fui surpreendido por aquela compressão após o salto. É uma forma de terminar o rali… mas não precisávamos daquilo”. Paul Nagle, o navegador de Meeke, também quase não conseguia articular qualquer palavra, mesmo quando lhe perguntaram como é que ambos conseguiram encontrar o caminho de volta à especial depois daquela gincana por entre carros, carrinhas e tendas de espectadores! Mais tarde, no comunicado oficial da Citroën, Meeke admitiu: “Provavelmente irei contar esta história centenas de vezes no futuro. Fiquei chateado comigo próprio por aquele erro. Tentei voltar à estrada o mais rápido possível porque sabia que ainda podia ganhar. Acima de tudo, mostrámos o potencial do C3 WRC e garantimos a primeira vitória do carro. Esta vitória é para a equipa”.

Quatro em quatro no Rali da Córsega

Ao rubro! A nova era do WRC já teve quatro marcas e quatro vencedores diferentes em quatro provas. Na Córsega, Thierry Neuville deu a primeira vitória do ano à Hyundai mas a ronda francesa fica marcada pelos problemas que afastaram Kris Meeke e Sébastien Ogier da discussão pelo triunfo. Aos 28 anos, Neuville tenta de uma vez por todas afastar o rótulo de inconstante. O mesmo piloto que Malcolm Wilson apontou como o único capaz de bater Sébastien Ogier em condições iguais (quando o belga passou pela M-Sport), atravessou depois uma misteriosa crise de confiança em 2015… antes de se tornar vice-campeão do Mundo em 2016. Este ano Neuville liderou as duas primeiras rondas do campeonato mas ficou fora da discussão em ambas devido a toques comprometedores que deixaram os responsáveis da Hyundai à beira de um ataque de nervos.

Na Córsega, ficou novamente visível todo o potencial de Neuville, que ultrapassou um primeiro dia complicado para depois recuperar a sua rapidez natural no sábado e no domingo. “É uma sensação incrível”, afirmou depois de garantir a sua terceira vitória no WRC. “O meu sincero obrigado à equipa por ter continuado a acreditar em mim e a dar-me motivação depois do que aconteceu em Monte Carlo e na Suécia. No final do primeiro dia eu não tinha a certeza se conseguiríamos ganhar este rali mas demos a volta à situação e isso deixou-me muito contente”, referiu. Depois de Ogier, Latvala e Meeke, Neuville é o quarto vencedor diferente em quatro provas com os novos WRC

Sete décimos…

A espectacular Power Stage de El Condorfoi mesmo o palco de todas as decisões na Argentina. Depois de uma recuperação épica, Neuville entrou para os derradeiros 16,32 kms com os pneus nas ‘lonas’ mas a apenas 0,6s da liderança. O belga mostrou mais uma vez que é um forte candidato ao título (e rival de Ogier) mas a performance de Evans também merece rasgados elogios, já que levou até ao último troço a luta, e vendeu bem cara a derrota. Neuville e Evans até são da mesma idade (28 anos) mas a experiência do belga no WRC é substancialmente superior à do galês. É por isso que Evans merece ser destacado como a figura deste rali, até porque os pneus DMack não estão ao nível dos Michelin, embora o piloto do Fiesta tenha gozado de uma posição na estrada mais favorável. Para Evans, este foi um rali para abrir o apetite das vitórias…

A diferença entre Neuville e Evans no final do Rali da Argentina foi a terceira margem mais curta de vitória na história de quatro décadas do WRC. Após 357,59 kms cronometrados, apenas 0,7s separavam os dois primeiros classificados, um registo só superado pelos 0,3s com que Marcus Grönholm (Ford Focus) bateu Sébastien Loeb (Citroën C4) na Nova Zelândia em 2007, e pelos históricos 0,2s que separavam Loeb (Citroën DS3) e Jari-Matti Latvala (Ford Fiesta) no final do Rali da Jordânia de 2011. Estes foram os três eventos decididos por menos de um segundo já que no quarto lugar da lista surge o famigerado Rali de Portugal de 1998, onde Colin McRae levou o Subaru Impreza à vitória com 2,1s de vantagem sobre o Toyota Corolla de Carlos Sainz.

O pesadelo da Citroën

A Citroën teve na Argentina o seu pior rali da temporada até ao momento, com Meeke e Breen a não irem além de um 15º lugar (Breen) como resultado de conjunto. Meeke voltou a evidenciar a sua rapidez e estava no 2º lugar a 8,7s de Evans quando sofreu um capotanço a alta velocidade na PEC4, depois de ter sido surpreendido por uma pedra que catapultou o C3 WRC. O carro de Meeke ficou tão deformado que foi logo comparado a uma mini-pick up, em mais um incidente a fazer lembrar os despistes de Monte Carlo e do México (salvo in extremis!). Como se não bastasse, Meeke viria a sofrer outro capotanço violento no dia seguinte, dando oito cambalhotas e desistindo em definitivo na PEC14… depois de ter ganhado duas especiais nessa manhã.

Em suma, o piloto da Irlanda do Norte continua a ser um dos mais rápidos do plantel mas também um dos mais propensos a erros comprometedores, embora tenha desistido na Córsega com problemas mecânicos quando liderava. Breen, por outro lado, tem menos pressão nos ombros e partia com o objetivo de aprender num rali que nunca tinha disputado. A sua prova ficou condicionada por um problema sofrido exatamente no mesmo local onde Meeke capotou na sexta-feira: a compressão provocada por essa pedra fez com que a caixa do C3 WRC de Breen ficasse bloqueada em quinta velocidade. Mais tarde, a Citroën teve uma opção curiosa ao decidir retirar Breen da prova antes do derradeiro controlo do último troço, evitando assim que alguns componentes que estavam no carro do irlandês tivessem obrigatoriamente que ser usados no próximo evento, o Rali de Portugal.

Quinta de Ogier em Portugal

Com mais uma exibição irrepreensível, Sébastien Ogier igualou o recorde de vitórias de Markku Alén em Portugal num rali que esteve ao rubro. O tetracampeão contrariou o ascendente de Thierry Neuville e da Hyundai, embora a marca sul-coreana também tenha conseguido colocar Dani Sordo no pódio.

Sébastien Ogier chegou à sua 40ª vitória no Mundial na mesma prova em que igualou o histórico recorde de cinco triunfos de Markku Alén em Portugal. Além disso, o piloto de Gap também conseguiu vencer pela primeira vez desde o Rali de Monte Carlo, ultrapassando uma fase em que não se sentia totalmente confortável com a pilotagem do Fiesta WRC. “Sabe muito bem voltar ao topo do pódio depois daquilo por que passámos. Estou muito contente com o carro. O meu obrigado a toda a equipa, eles trabalharam imenso para que eu me sentisse bem. Tivemos um carro novo em Monte Carlo e ganhámos, agora tivemos um chassis novo aqui e ganhámos. Não sei se o Malcolm terá dinheiro para me dar um carro novo em todos os ralis!”, brincou o tetracampeão do Mundo. Vencedor em Portugal em 2010 (Citroën C4 WRC), 2011 (Citroën DS3 WRC), 2013 (Volkswagen Polo R WRC), 2014 (Volkswagen Polo R WRC) e 2017 (Ford Fiesta WRC), o francês também não esqueceu o facto de o seu chefe de mecânicos (Miguel Cunha) e o seu engenheiro (Bernardo Fernandes) serem ambos portugueses. “Eles devem estar muito contentes. Obrigado por todo o trabalho. Este é um desporto de equipa”, afirmou logo no final da espetacular Power Stage de Fafe.

O Rali mais difícil da carreira de Latvala

A Toyota teve um rali particularmente frustrante pois Jari-Matti Latvala tinha revelado um andamento promissor até capotar na PEC7, tendo depois de lidar com uma saúde debilitada que incluiu febre e problemas gástricos. “Fisicamente, este foi o rali mais difícil da minha carreira. No sábado senti-me horrivelmente e depois passei a noite no hospital para me poder hidratar. Felizmente estive melhor no domingo e consegui terminar nos pontos. Agora quero dormir durante dois dias seguidos!”, disse o finlandês, que cedeu o 2º lugar no Mundial a Thierry Neuville. Juho Hänninen teve outro rali discreto e começa a ver a sua posição no seio da Toyota em perigo, até porque o estreante Esapekka Lappi mostrou ser mais rápido em condições normais, apesar de também ele ter cometido um erro (um toque que partiu a suspensão traseira) e de ter tido um problema no intercooler no sábado.

“O Esapekka fez um excelente trabalho e fiquei impressionado com o facto de ter conseguido três pontos na estreia. O Juho também mostrou o quão importante é para o nosso programa, enquanto o Jari-Matti ultrapassou uma condição física debilitada e que nos tinha deixado preocupados. Acho que toda a equipa retirou grandes ensinamentos deste rali tão difícil”, resumiu o patrão Tommi Mäkinen.

Como Ogier faz a diferença na M-Sport

Apesar de ser uma das equipas históricas do Mundial de Ralis, a M-Sport está longe de ser uma formação de fábrica e não dispõe dos recursos e orçamento das rivais Hyundai, Citroën e Toyota. Quando a Volkswagen iniciou o seu programa no WRC falava-se que o orçamento da marca alemã para os ralis rondava os 100 milhões de euros/ano, mas a realidade é que um grande construtor pode ir além do orçamento estipulado inicialmente (caso necessário), dispondo ainda de recursos técnicos e sinergias que simplesmente não estão ao alcance de uma equipa privada, mesmo com a ligação que a M-Sport ainda tem com a Ford. É neste contexto que a tarefa de Sébastien Ogier assume um enorme significado, já que o francês vai tentar bater os ‘gigantes’ e entrar para o restrito lote de campeões do Mundo com duas marcas diferentes (Röhrl e Kankkunen). Além da pressão que tem feito sobre Malcolm Wilson para que a M-Sport continue a evoluir o Fiesta WRC (cujo desenvolvimento foi feito por Tänak e Evans), há outros aspetos mais práticos onde se nota a sensibilidade praticamente única do tetracampeão do Mundo. No teste da M-Sport em Cerveira, antes do Rali de Portugal, Ogier partiu a proteção inferior numa das primeiras passagens por um salto que existia no percurso. Numa das paragens, o francês foi explicar ao engenheiro responsável e aos mecânicos que pretendia que fossem feitos buracos em forma de quadrado na parte da frente do fundo protetor, provavelmente para que aquela peça não partisse por completo em impactos semelhantes. E pouco depois os mecânicos começaram a cortar os referidos quadrados no metal… Um episódio que revela bem o quanto Ogier – que começou como mecânico na equipa Rally Jeunes – gosta de controlar todos os aspetos da ‘missão’ que tem em mãos. E nenhuma será tão satisfatória como levar a M-Sport ao seu primeiro título de pilotos.
19 troços, 9 vencedores e seis líderes

O Rali de Portugal quase desafia as regras da matemática. O número de vencedores de troços e de líderes diferentes é impressionante. Nas primeiras nove classificativas havia nove vencedores distintos (devido ao sucedido em Ponte de Lima 1 que explicaremos em seguida). Começou logo em Lousada, com Thierry Neuville e Mads Ostberg a empatarem no primeiro lugar. Continuou com Hayden Paddon, que venceu em Viana do Castelo 1. Jari-Matti Latvala foi o melhor em Caminha 1 e em Ponte de Lima 1 aconteceu algo inédito. Três pilotos obtiveram o melhor tempo. A saber: Kris Meeke, Ott Tanak e Craig Breen. No regresso a Viana do Castelo e a Caminha, Paddon e Neuville voltaram a vencer. Em Ponte de Lima 2, foi a vez de Dani Sordo se estrear a ganhar. Braga também foi uma estreia, desta vez para Sébastien Ogier. O dia terminou com Ostberg a fazer o que já tinha feito em Lousada, ser o mais rápido. Mas desta vez, não teve companhia como tinha acontecido na especial de abertura. Relativamente a líderes, a prova começou com Neuville e Ostberg na frente. Cederam o testemunho a Paddon que o passou, posteriormente, a Latvala. O finlandês manteve-se na frente por dois troços. Ao quinto, nova troca de lugares. Meeke ascendeu a primeiro para dali sair logo de seguida, com Ott Tanak a assumir o comando da ronda portuguesa do campeonato do mundo. O estónio aguentou-se até à PE11, onde ‘pegou’ Ogier, que a levou até final…

A vez de Tanak

Aos 29 anos, Ott Tänak conseguiu a sua primeira vitória no WRC ao triunfar num duríssimo Rali da Sardenha. O estónio da M-Sport herdou o comando devido aos problemas da Hyundai e depois defendeu-se de forma perfeita de Latvala e Neuville. Descoberto em 2010 no célebre programa Pirelli Star Driver (que também lançou nomes como Hayden Paddon ou Craig Breen), Ott Tänak teve uma carreira de altos e baixos até merecer a confiança de Malcolm Wilson para acompanhar Sébastien Ogier naquela que é, indiscutivelmente, a época mais importante da história recente da M-Sport. Wilson, aliás, já tinha ‘despromovido’ Tänak ao WRC2 em 2014, depois de alguns momentos frustrantes com o estónio e ainda no último Rali de Portugal o piloto báltico liderava a prova quando se atrasou devido a um toque na PEC12… Na memória dos adeptos também está o famoso episódio em que o carro de Tänak e Raigo Molder caiu a um lago no México em 2015 – dando início a uma fabulosa operação dos mecânicos da M-port – mas também o Rali da Polónia do ano passado, quando Tänak colocou um Fiesta calçado com pneus DMack na liderança do rali até à penúltima especial, quando um furo entregou a vitória ao Volkswagen de Andreas Mikkelsen. Correram mundo as imagens de Sébastien Ogier a carregar nos ombros um inconsolável Tänak no final, mas esta época o ex-pupilo de Markko Märtin demonstra uma maturidade que o coloca como sério candidato ao pódio em qualquer rali. “O que posso dizer? Sabe muito bem!!”, afirmou Tänak no final na Sardenha. “Foi um fim-de-semana difícil mas a primeira parte de época tem sido excelente para nós. O novo carro e o novo companheiro de equipa fizeram-nos trabalhar ainda mais este ano. Espero que seja a primeira de muitas vitórias. Parece que temos um grande carro e uma grande equipa”, afirmou, antes de confirmar que a luta pelo título está no seu horizonte. “Por que não? Agora o Seb está mais perto…”

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