César Torres, o senhor do Rali de Portugal

Em 2017 cumpre-se 19 anos que César Torres nos deixou. Tinha 64 anos. Ficou um legado inigualável, e por isso vamos recordar um pouco da sua história.

Nascido a 27 de fevereiro de 1933, contava 64 anos, e o seu nome ficará na história do automobilismo português, não apenas como um dos mais corajosos pilotos nos anos 60, mas essencialmente como um dos seus maiores dirigentes. À data do seu falecimento, César Torres exercia as funções de Presidente-Delegado da Federação Internacional do Automóvel (FIA) para o Desporto e, desde 1980, Presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP). A sua ligação ao automobilismo iniciou-se em 1955, ano em que se estreou como piloto, no Rali a Sintra, atividade que depois exerceu, com sucesso, até ao início da década de 70. Pelo meio, ficou o título nacional de Ralis em 1965 e, em Turismo, em 1967, ano em que venceu a Volta ao Minho, bem como o título no Campeonato Luso-Galaico de Ralis, no único ano em que o mesmo se disputou, sempre ao volante do Mini Cooper S. A sua paixão pelas provas de estrada manteve-se cada vez mais viva, mesmo depois do seu abandono enquanto praticante. E, com o espírito de decisão que unanimemente lhe foi sempre reconhecido, foi o mentor e o organizador, desde a primeira hora, do Rali de Portugal, cabendo-lhe a distinta missão de o conseguir integrar no Campeonato do Mundo desde a sua criação, em 1974. Precisamente uma década mais tarde, foi também César Torres o grande responsável pelo regresso do Mundial de Fórmula 1 ao Estoril, com a realização do primeiro Grande Prémio de Portugal da era moderna.

O piloto
César Torres desde muito novo que se interessou pelos ralis, estreando-se num Rali a Sintra, com um VW, tendo como navegador Pereira Gomes. Nessa altura, os patrocínios eram proibidos, com exceção das gasolineiras – e, logo aí, o seu espírito empreendedor e inovador emergiu, ao conseguir que a Shell o ajudasse. Anos mais tarde, assinou um acordo com a Sacor (hoje GALP), acordo esse que sempre o acompanhou ao longo da sua carreira.

Em 1961, correu pela primeira vez no estrangeiro, alinhando com um Hansa no Rali de Monte Carlo e tendo a seu lado Baptista dos Santos. Foi 41º.

Depois de correr com VW, Renault e MG, decidiu comprar um Austin Cooper S, então um carro que começava a sobressair nas provas internacionais. Na JJ Gonçalves, encontrou em Carlos Gonçalves, um dos sócios da firma, um inesperado apoiante, que não hesitou em o contratar com piloto “oficial”, pondo-o a correr com Manuel Gião (pai) no Team JJ Gonçalves. Com esta equipa, César Torres venceu o Campeonato Nacional em 1965 – e, pouco depois, as suas atenções viraram-se em definitivo para outro prazer: o de organizador. Antes disso, duas curiosidades: César Torres foi navegador do seu primeiro… navegador, Pereira Gomes e, mais tarde, da sua esposa, Teresa Torres.

O organizador
César Torres é uma figura indissociável da história do Rally de Portugal. Numa altura em que as provas de estrada eram assaz diferentes do que são hoje, resultando em corridas de regularidade, com rampas, slalom a definirem os vencedores, as primeiras edições daquele que, a partir de 1967, se chamou Rallye TAP, foram apenas concentrações amigáveis de trabalhadores da transportadora aérea nacional. Tudo começou, na verdade, quando um antigo navegador de César Torres se lembrou de fazer a primeira edição dessa prova; pouco depois, a administração da TAP decidiu encarregar de todos os passos organizativos na pessoa de César Torres – perdeu-se aqui um (excelente) piloto; nasceu um (ainda mais) excelente organizador e gestor de homens e emoções.

A primeira edição “a sério” do Rally TAP realizou-se em 1967 e foi ganha por José Eduardo Carpinteiro Albino, com um Renault R8 Gordini. Ao longo de 41 edições, a principal prova de estrada portuguesa foi considerada por cinco vezes como “O Melhor Rali do Mundo” pela FIA.

E por falar em FIA, César Torres depressa assumiu cargos de relevo no organismo máximo do desporto automóvel, defendendo sempre o bom nome de Portugal – e não apenas o “seu” querido Rally. Foi graça a ele, por exemplo, que o campeonato do Mundo de F1 regressou ao nosso país, com a reedição do Grande Prémio de Portugal em 1984. Estranhamente (ou talvez não…), depois da sua morte, a F1 saiu em definitivo de Portugal e, pouco depois, foi a vez do próprio Rally de Portugal deixar o calendário principal. Ao qual regressou anos mais tarde, em moldes diferentes, sem o carisma inicial, mas com uma qualidade igual à ‘marca’ deixada por César Torres.

Perfil de Alfredo César Torres
A carreira de dirigente de César Torres teve início quando, em 1972, foi convidado para a Comissão Desportiva Nacional, pelo então Presidente do ACP, Mário Madeira. Dois anos mais tarde, assumiu a liderança da CDN, cargo que manteve até ser eleito para Presidente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK), em 1995, que desempenhou até maio deste ano, quando cedeu o cargo ao professor Vasconcelos Tavares. Mas a faceta de dirigente de César Torres mais conhecida é, sem dúvida, o longo período em que esteve na frente do ‘seu’ Rali de Portugal, funções que entregou depois a Luis Salles Grade e posteriormente a Eduardo Portugal Ribeiro. Durante esses anos, o Rali tornou-se um verdadeiro ‘ex-libris’ internacional das provas de estrada, sendo mesmo considerada a melhor organização do Mundial por várias vezes. Internacionalmente, a sua carreira de dirigente iniciou-se também em 1972, mas antes de integrar a CCM, quando foi convidado para fazer parte da Comission Sportive International (CSI), organismo precursor da FISA; nesse mesmo ano, foi nomeado para a Comissão Internacional de Ralis. Com a criação da FISA, no Congresso de Melbourne, César Torres esteve sempre na alta hierarquia dos destinos do automobilismo mundial.

Membro do Comité FIA desde 1986, foi eleito vice Presidente da FIA pela primeira vez em 1988, conhecendo a reeleição em 1990. Na altura da sua morte era Presidente Delegado da FIA para o Desporto, desempenhava o mais alto cargo na hierarquia desportiva mundial, com o mesmo fervor e devoção que sempre lhe foram reconhecidos. Mas não será apenas como dirigente desportivo que César Torres ficará na história em Portugal. Embora mais raramente, até porque o tempo disponível para tal era cada vez mais escasso, também esteve envolvido na política, desempenhando o cargo de Presidente da Junta de Turismo da Costa do Estoril, entre 1982 e 1990, ano em que foi convidado a desempenhar as funções de Secretário de Estado do Turismo, onde se manteve durante dois anos. Durante o seu mandato, César Torres foi um dos obreiros da promoção de Portugal além fronteira e, ainda, foi o grande mentor do chamado ‘Turismo Cá Dentro’, através da expansão do uso das pousadas para fins turísticos e, ainda, do turismo de habitação. Profissionalmente, César Torres esteve igualmente ligado à imprensa escrita, desempenhando os cargos de Presidente do Conselho de Gerência da Empresa Noticias Capital, proprietária dos jornais Diário de Noticias, Capital, Jornal de Notícias e Jogos, que então representavam cerca de 60% da imprensa diária portuguesa.

Fundador da agência noticiosa Lusa, foi mais tarde designado Presidente do respetivo Conselho Fiscal, cargo que abandonou quando assumiu funções governamentais. As suas qualidades de organizador e de batalhador incansável, foram amplamente reconhecidas, por diversas vezes. Em 1976, foi galardoado, pelo Presidente da República com a Ordem do Infante D. Henrique, recebendo posteriormente o Colar do Mérito Desportivo, a mais alta condecoração portuguesa no sector desportivo, e a Medalha da Prata de Mérito Turístico. Internacionalmente, foi distinguido com a Medalha de Vermeil do Principado do Mónaco, que lhe foi conferida por Sua Alteza o Príncipe Ranier.

José Luis Abreu/Autosport