Conhece a história do número ‘0’ na Fórmula 1?

Há números que se tornaram autênticas imagens de marca na história do desporto motorizado. A associação de pilotos e equipas a um número de corrida vai para além da superstição ou mera casualidade. Conheça algumas das ‘estórias’ de alguns dos números mais famosos da competição

Números. Porque é que a raça humana atribui tanta importância a estes símbolos matemáticos? O significado que lhes damos transcende tantas vezes o campo da lógica e cai para o lado do esoterismo, da superstição… da emoção. No desporto motorizado, os números são muitas vezes parte integrante da ‘identidade’ de um piloto, tal como o são a alcunha ou a decoração do capacete. O ‘show bizz’ americano compreendeu este fenómeno há décadas e desportos como a NBA ou a NASCAR exploram o mediatismo das suas vedetas também através do número que lhes está associado. É o caso do 23 de Michael Jordan ou do 3 de Dale Earnhardt, autênticas instituições dentro dos respetivos desportos. Os adeptos gostam destas idiossincrasias.

Pilotos-empresa como Valentino Rossi souberam capitalizar o potencial de marketing que um simples número acarreta para as suas carreiras… e carteiras! Já na Fórmula 1 ou no WRC é mais difícil associarmos um piloto a um número específico. Desde a época de 1996, os números na Fórmula 1 dependem diretamente da posição no Mundial anterior. Contudo, há diversos casos que permanecem na memória coletiva dos adeptos. Estes são alguns deles.

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0 – Damon Hill

Em 1993 e 1994, Hill tornou-se apenas o segundo piloto da História a usar o número 0 num Grande Prémio de Fórmula 1 – só Jody Scheckter o tinha usado em 1973 – e o único a usá-lo em duas épocas. O número acabou por tornar-se uma imagem de marca do discreto e fleumático Hill, que usou o 0 nessas duas épocas devido à ausência do campeão em título. Nigel Mansell foi campeão do Mundo em 1992 mas decidiu abandonar a Williams e a Fórmula 1 no final do ano e rumar aos Estados Unidos para o campeonato CART. Alain Prost sucedeu-lhe como líder da escuderia de Grove mas rejeitou usar o 0, que assim foi atribuído ao jovem recruta britânico. Na época seguinte, Prost também se retirou após ser campeão com a Williams e Hill reteve o número 0, com Ayrton Senna a usar o 2 até ao fatídico GP de Imola de 1994.

O número 0 também ficou associado à equipa americana Interscope Racing no campeonato IMSA. A Interscope pertencia ao magnata da indústria de entretenimento, Ted Field, que alegadamente queria surgir nas listas de inscritos antes do número 1. Os belos Porsche 935 K3 de cor preta (do qual uma unidade é propriedade do piloto português Carlos Barbot) ficaram famosos pelas vitórias no IMSA – inclusive nas 24 Horas de Daytona de 1979 – e quando a Interscope inscrevia um segundo carro era o número 00. Mais recentemente, a organização das 24 Horas de Le Mans decidiu atribuir o número 0 aos carros da chamada ‘Garagem 56’, projetos inovadores e vocacionados para a eficiência energética em competição mas que não contam para a classificação final. O radical Nissan DeltaWing foi o primeiro a ostentar esse número em 2012, com o GreenGT H2 (protótipo elétrico alimentado por células de combustível de hidrogénio) a ser o próximo na edição deste ano.

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1 – Michael Schumacher e Sébastien Loeb

O número mítico do desporto motorizado. Tal como qualquer tenista profissional aspira ao topo do ranking ATP, todos os pilotos com ambição sonham um dia poder usar o número 1 das respetivas disciplinas. Na Fórmula 1 os números eram atribuídos de forma aleatória, prova a prova, até meados da década de 70. A partir daí, o campeão passou a ostentar o número 1 e este, obviamente, passou a ser o símbolo mais desejado. Em toda a história sexagenária da disciplina máxima do desporto automóvel nenhum piloto usou o número 1 tantas vezes como Michael Schumacher. Apesar da política visual da Fórmula 1 preferir dar destaque aos patrocinadores em detrimento do número de concorrente, que é relegado para um pequeno espaço livre entre os logótipos e marcas dos sponsors, o número 1 ficou associado ao heptacampeão Schumacher, sobretudo devido ao período de domínio com a Ferrari entre 2000 e 2004. O Mundial de Ralis tem o equivalente em Sébastien Loeb, que simbolizou o seu domínio estatístico e desportivo com nove títulos consecutivos, sempre com a Citroën, apesar de também os modelos WRC não darem grande destaque ao número de porta. No motociclismo, apesar de não ser obrigatório adotar o número 1 em caso de título mundial, a maioria dos campeões não prescindem desse número na carenagem, com Valentino Rossi e Antonio Cairoli a serem duas das (poucas) exceções.

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2 – Cyril Despres

Cyril Despres já é um dos nomes incontornáveis da história do Dakar mas o motard francês fez questão de não ostentar o número 1 em três edições onde partia como vencedor do ano anterior. Em vez disso, Despres pediu sempre à organização que lhe fosse atribuído o número 2, com o qual tinha obtido todas as suas vitórias no Dakar. Isto fez, por exemplo, com que o rival Marc Coma ostentasse o número 1 em 2011 apesar de ter sido apenas 15º em 2010! Só na edição deste ano Despres ‘aceitou’ levar o número 1 na KTM… e a superstição foi quebrada com nova vitória, a quinta da sua carreira. Pilotos de Fórmula 1 como David Coulthard e Rubens Barrichello também ficariam associados ao número (e à filosofia do) 2 – o escocês foi ‘subalterno’ de Hill na Williams (herdou o 2 com a morte de Senna) e mais tarde de Häkkinen na McLaren; Barrichello corporizou o papel do ‘segundo piloto’ ideal durante a era Schumacher/Ferrari, dando azo inclusive à famigerada ultrapassagem sobre a linha de meta no GP da Áustria de 2002. Na NASCAR, onde os números são parte da ‘identidade’ de um piloto, o carro número 2 ficou célebre com Rusty Wallace.

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3 – Dale Earnhardt

Já se sabe: os norte-americanos têm um sentido apurado de espetáculo. O desporto automóvel não é exceção – tudo é feito e pensado para o público e a associação dos números aos pilotos é só mais um instrumento de marketing inteligente. Um dos números mais famosos da NASCAR foi o 3 do temido Dale Earnhardt, o “Intimidator”. O número foi usado por Richard Childress enquanto piloto e quando este se retirou em 1981, colocou Dale Earnhardt (na altura com o patrocínio da Wrangler) no Chevrolet número 3. Earnhardt regressou à Childress em 1984 e foi aí que começou a ganhar corridas e campeonatos, numa fase em que as corridas da NASCAR começaram a passar na televisão e a ganhar popularidade nacional. Quando Earnhardt morreu em 2001, Richard Childress mudou o número para 29.

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5 – Nigel Mansell

Quando Nigel Mansell assinou pela Williams em 1985 foi-lhe assignado o carro número 5. Só que os dois FW10 tinham os números em branco e o 5 de Mansell confundia-se com o 6 do companheiro Keke Rosberg. Após quatro Grandes Prémios, a Williams colou o número 5 a vermelho e o famoso comentador Murray Walker começou a referir-se ao carro de Mansell como “Red Five”. O piloto britânico passou depois para a Ferrari mas quando regressou à Williams em 1991, a equipa tinha retido o número 5 e reeditou o “Red Five”. Mansell foi finalmente campeão do Mundo em 1992 e quando rumou ao campeonato CART manteve o ‘seu’ número, sendo campeão à primeira. Após retirar-se, “O Leão” – como era chamado pelos tiffosi da Ferrari – comprou um luxuoso iate Sunseeker que batizou com o nome Red 5.

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7 – Barry Sheene

É o número da sorte em diversas culturas mas ninguém no desporto motorizado mundial celebrizou o 7 como o lendário Barry Sheene. O talentoso inglês com look de playboy foi um dos ídolos do motociclismo nas décadas de 70 e 80, tendo sido campeão do Mundo por duas vezes (1976 e 1977) sempre com o número 7 nas suas Suzuki. Ficou especialmente famosa a RG500 azul e branca com o 7 pintado sobre um círculo amarelo. Três décadas mais tarde, o australiano Chris Vermeulen pilotou uma Suzuki de MotoGP com a decoração do seu ídolo de infância e o número 71 na carenagem.

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13 – António Félix da Costa

É curioso que com toda a ciência e tecnologia envolvida no desporto motorizado ao mais alto nível, o 13 ainda seja um número proscrito devido a uma superstição da cultura popular. Na Fórmula 1, só por uma vez o número foi usado em corrida, no BRM do mexicano Moises Solana no seu GP natal em 1963. Depois disso, a britânica Divina Galica tentou qualificar-se sem sucesso para o GP da Grã-Bretanha de 1976 com o número 13 no seu Surtees. A ‘reputação’ do 13 nas corridas de automóveis remonta à década de 1920, quando a equipa oficial da Delage perdeu dois dos seus pilotos num espaço de meses devido a acidentes com o carro número 13. Mais recentemente, António Félix da Costa revelou que esta superstição não o afeta e inclusive corre com esse número.

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18 – Tiago Monteiro

A explicação para o número usado atualmente por Tiago Monteiro é simples: nas duas épocas em que esteve na Fórmula 1, Monteiro foi sempre o número 18 e na primeira até estabeleceu um recorde de 18 Grandes Prémios terminados numa só temporada. Quando se mudou para o WTCC, o português transportou o 18 nos SEAT Leon com exceção das temporadas de 2009 e 2010. Monteiro recuperou o seu número favorito em 2011 e fez questão de o manter quando passou para a equipa oficial da Honda.

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23 – Nissan

A associação da Nissan ao número 23 é mesmo tempo simples e interessante: nos carateres Kanji que compõem a língua japonesa, o símbolo correspondente ao número 2 lê-se “Ni” e o símbolo do número 3 lê-se “San”. Simplicidade nipónica.

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27 – Gilles Villeneuve

A imagem de Villeneuve em ‘powerslide’ no Ferrari 126CK com o número 27 é um dos tesouros fotográficos da Fórmula 1. Aquela imagem condensava a alma e o talento do genial piloto canadiano, assim como a sua identificação com o espírito preconizado por Enzo Ferrari. Foi em momentos como aquele que o 27 se tornou um símbolo de Villeneuve, com a Ferrari a manter inclusive esse número até 1995, com exceção da época de 1990 quando Alain Prost levou o número 1 para a Scuderia. Curiosamente, 27 foi a idade com que Villeneuve se estreou na Fórmula 1, em 1977, mas a história desse número é bem mais prosaica: Alan Jones (o anterior dono do 27) foi campeão em 1980 e o número ficou para a Ferrari e para Villeneuve, que antes tinha usado o 12. Anos mais tarde, pilotos da Ferrari como Michele Alboreto e Jean Alesi também exibiram orgulhosamente o 27, além de Jacques Villeneuve ter vencido as 500 Milhas de Indianápolis em 1995 com o antigo número do pai.

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34 – Kevin Schwantz

A popularidade de Kevin Schwantz e do número 34 foi o equivalente do final do século XX ao atual sucesso de marketing e idolatria em torno de Valentino Rossi e do 46. Schwantz era admirado pela pilotagem no limite, pelas ultrapassagens ‘impossíveis’ e pelos duelos com o eterno rival Wayne Rainey. A Suzuki com as cores da Lucky Strike e número 34 é uma das motos mais recordadas pelos adeptos dessa era e milhares deles usaram réplicas do capacete de Schwantz na estrada. Não foi por acaso que a FIM retirou o número 34 da classe-rainha, imitando a honra concedida às lendas da NBA ou do futebol americano.

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46 – Valentino Rossi

Ao contrário de Schwantz, Rossi não abdicou do seu número de sempre quando se tornou campeão do Mundo. O 46 é talvez o número mais emblemático da atualidade e Rossi capitalizou esse símbolo com uma bem-sucedida marca de merchandising, a VR46. Aliás, basta ir a um qualquer Grande Prémio da atualidade e observar como a tenda de Valentino Rossi é sempre a mais solicitada pelos fãs, até quando os resultados com a Ducati não eram os melhores. O 46 usado por Rossi desde a adolescência tem origem num dos números que o pai Graziano usou quando ele próprio era piloto em Itália e no Mundial (venceu três provas no Mundial de 250cc de 1979). Nas suas incursões pelos ralis, Valentino Rossi usou sempre o 46 na porta dos Ford Focus e Fiesta WRC.

José Luís Abreu/Autosport