Dakar 2017: Os três dias que tudo vão decidir

O Dakar chegou a meio, um dia mais cedo que o previsto devido às intempéries que têm assolado aquela zona da Bolívia e que colocaram imensas dores de cabeça à organização para continuar a fazer decorrer o Dakar dentro da normalidade.

Devido à muita chuva, a ASO teve que anular a etapa de ontem e por isso já se fazem contas para as etapas a partir de segunda-feira, e com Stéphane Peterhansel na frente, mas apenas com uma diferença de 5m35s a separar os pilotos até ao quarto lugar, onde está Nani Roma, isso ‘diz’ que tudo está completamente em aberto para o que falta da corrida.

De início este Dakar 2017 parecia que ia ser um duelo entre o Toyota de Nasser al-Attiyah e os principais Peugeot, um confronto de conceitos, o 4X4 da Toyota e o duas rodas motrizes da Peugeot. A MINI até aqui nunca pareceu estar em condições de vencer, embora os seus pilotos se tenham mantido sempre à espreita. Como estão neste momento, à espreita.

Mas o que aconteceu ate aqui? Nasser al-Attiyah estava a dar fortes dores de cabeça aos homens da Peugeot e mostrava claramente que estava ali para vencer novamente o Dakar, mas com um pormenor que fez toda a diferença. Enquanto os Peugeot não precisam de andar a 100% para rodarem depressa, os Toyota só conseguiam acompanhar o ritmo dos Peugeot se andarem nos limites e dessa forma Nasser al Attiyah expôs-se demasiado ao risco, e teve azar. Al Attiyah, que teve um princípio de incêndio no seu Toyota logo na etapa de abertura, deu um toque muito forte numa pedra no terceiro dia de prova, vendo-se na obrigação de abandonar. Conseguiu chegar ao fim da etapa, com 2h17m de atraso, mas os danos na sua Hilux foram tão extensos que não dava para reparar apenas numa noite. A primeira grande baixa do Dakar tornou-se uma realidade e isso deixou os Peugeot sozinhos na luta, uns com os outros.

MINI cautelosos

Até aí os MINI não tinham mostrado andamento para muito mais, mas afinal o que estavam, e muito bem a fazer, era resguardarem-se. Sven Quandt sabe que o carro que já venceu inúmeras vezes etapas e quatro Dakar à geral já não é tão competitivo face à concorrência que se renova a cada ano. Apesar de todas as alterações feitas no carro, no arranque deste Dakar até as Toyota pareciam ser bem mais competitivas.

Sabendo disso, e sabendo também que esta prova seria a mais dura de sempre das oito que já se realizaram na América do Sul, Quandt terá dito aos seus pilotos para terem paciência, fugirem das armadilhas e esperar pelas etapas difíceis. Com isso, não iriam andar na frente nem brilhar, mas também não ficariam longe, porque se esconderiam muito mais das armadilhas. Era o que estava acontecer com o melhor piloto da X-Raid, Mikko Hirvonen, até ter problemas na 5ª etapa. E não foi Hirvonen a falhar, a corda partiu precisamente donde menos se esperava, de Michel Périn. Perderam-se duas vezes durante a quinta etapa e só na segunda perderam cerca de 40 minutos. É precisamente a distância que o finlandês está agora da frente da corrida, em quinto, e se isso não o impedirá de subir na classificação, é bem possível que mais pilotos tenham problemas, já não é tão provável que possa vencer. É que ganhar 43 minutos a um, ainda vá, se esse tiver problemas, mas a todos é bem mais complicado (para outros seria menos, mas não muito). Portanto, as hipóteses da MINI estão neste ponto. No entanto, há um dado curioso. Orlando Terranova revelou que a estratégia da X-Raid é ter pelo menos quatro carros nos dez primeiros no começo da segunda semana. E é precisamente isso que acontece. Provavelmente só não esperavam que o melhor estivesse tão longe…

Três etapas decisivas

Aos Peugeot já lá vamos. Antes está Nani Roma, que experiente como é, está a fazer uma prova cautelosa, sem grandes feitos, mas também sem cometer grandes erros, e isso permitiu-lhe no final da quinta etapa estar apenas a 5m35s do líder. Portanto, num bom lugar para aspirar a repetir o triunfo de 2014. Mas isso nunca acontecerá em velocidade pura. Para isso estão lá os Peugeot. Mas, e porque há sempre um mas, as quatro etapas entre 2ª e 5ª feira vão ser terríveis. Logo na 2ª Feira, na etapa 7 entre La Paz-Uyuni, os pilotos têm pela frente a primeira parte de uma etapa maratona, no dia seguinte, o Dakar deixa o planalto para uma especial fora de pista e na quarta-feira, provavelmente decide-se o Dakar. É a ‘Super Belén’ com quase 1.000 quilómetros para realizar num dia, dos quais menos de metade numa especial cronometrada marcada por ser em 98% fora de pista. É uma etapa bastante exigente para a navegação, que deve ser decisiva na luta pela vitória nesta edição de 2017 do Dakar.

Portanto, por isto, não podemos falar de rapidez dos Peugeot, mas sim de quem se vai sair melhor da navegação. É claro que, tal como já sucedeu, houve casos em que os Peugeot estavam com dificuldades na navegação, eram passados em pista, mas depois vinha uma zona rolante, e lá vão eles. Hirvonen contou, num dia, que era vê-los passar depois dele próprio os ter ultrapassado em alturas de “anda para trás e para a frente” à procura de waypoints.

O que vão fazer os Peugeot?

Antes do seu acidente, Carlos Sainz preparava-se para chegar à liderança da prova, onde já tinham estado Sébastien Loeb, Cyril Després e está agora Stéphane Peterhansel. Basicamente, todos os pilotos oficiais da Peugeot têm hipóteses de vencer, uns mais do que outros, mas o espanhol, mais uma vez, colocou-se fora de corrida por culpa própria. É lógico que quem anda depressa expõe-se a riscos e foi o que aconteceu com o espanhol. De possível primeiro ao abandono, foi um ápice. No final da quinta tirada Stephane Peterhansel, Sebastien Loeb e Cyril Després ocupam o pódio provisório. Algum deles vai ganhar? É provável. Mas uma coisa é certa. A navegação das três etapas seguintes pode mudar tudo neste Dakar e isso tem que ser levado em conta.

À Peugeot dava bastante mais jeito que fosse Sébastien Loeb a vencer. Se for Peterhansel, é mais uma, se for Després, é mais um piloto de motos que também vence nos carros, mas se for Loeb o Marketing francês vai esfregar as mãos de contente. Se acreditamos que vai haver mão interna para orientar esta lista? Talvez, mas com Nani Roma a 5m35s é ainda muito cedo para terem essas conversas. Até pode estar na cabeça do ‘chefe’, mas para os pilotos é hora de estudar bem para que lado é o Norte. Se tivéssemos de apostar, apostávamos em Loeb. De qualquer forma, vai ainda acontecer muita coisa e para hoje só lamentamos não estar aqui a escrever todas as incidências da etapa. Que seria absolutamente espetacular de tão difícil. Mas pronto, as coisas são como são… Amanhã há mais! Desculpem, na 2ª Feira…

Classificação após Etapa 5
1 Stephane Peterhansel/Jean-Paul Cottret Peugeot 14h02m58s
2 Sebastien Loeb/Daniel Elena Peugeot +1m09s
3 Cyril Despres/David Castera Peugeot +4m54s
4 Nani Roma/Alex Haro Toyota +5m35s
5 Mikko Hirvonen/Michel Perin Mini +42m21s
6 Kuba Przygonski/Tom Colsoul Mini +59m55s
7 Orlando Terranova/Andreas Schulz Mini +1h04m49s
8 Giniel de Villiers/Dirk von Zitzewitz Toyota +1h08m11s
9 Boris Garafulic/Filipe Palmeiro Mini +1h57m40s
10 Romain Dumas/Alain Guehennec Peugeot +2h22m17s

José Luis Abreu/Autosport