Dakar 2017: Tudo o que ficámos a saber

Caiu o pano sobre mais uma edição do Dakar, com Stéphane Peterhansel a assegurar a sua 13ª vitória. Depois de seis triunfos nas motos, o Sr. Dakar, desde 2004 já vai na sétima vitória nos carros, o que faz dele até 2007 a Raposa do Deserto, e depois disso o Rei do Dakar.

Tal como o ‘rei’ disse já hoje “no arranque desta prova não estava seguro da vitória, sabia que seria uma grande luta, mas depois os candidatos foram caindo e tudo ficou reduzido a mim e ao Seb (Loeb). Lutámos muito os dois mas tudo se deveu a um pequeno detalhe, pois ele furou ontem, e isso foi decisivo. Provavelmente posso dizer que foi novamente a vitória da experiência, pois por vezes sabia que não estava a ser rápido o suficiente para acompanhar o Seb”. Chegou a dar a impressão que Peterhansel andava um pouco apagado, ele próprio o admitiu, mas quando a prova entrou na sua fase decisiva, embora nunca tenha tido a certeza que iria ganhar, teve a mesma paciência de sempre, e ganhou nos detalhes.

Destaque também para o facto da Peugeot nunca ter imposto ordens de equipa, ao contrário do que fez, por exemplo a X-Raid há uns anos e que redundou num triunfo para Nani Roma e derrota para Peterhansel .

Loeb sempre a subir

Sébastien Loeb mostrou neste Dakar que está preparado para vencer, e como já se percebeu só não o conseguiu porque teve o azar de furar. Claro que isso faz parte das corridas, mas foi apenas essa a diferença entre vencer e perder o Dakar, pois estava a andar na velocidade que precisava para ganhar. Recorde-se que o francês perdeu 26 minutos na 4ª etapa devido a um problema mecânico no Peugeot, mas recuperou e esteve muito perto de vencer. fica uma certeza, já não vai demorar muito tempo…

Era Peugeot

O Dakar sempre teve períodos de domínio desde que as grandes estruturas ‘descobriram’ a prova e muito provavelmente – a não ser que surja uma grande reação por parte doutro Construtor (por exemplo a MINI) – tudo indica que voltámos a entrar numa era Peugeot. Regressou ao Dakar há dois anos e na sua terceira participação já leva duas vitórias. No passado, a primeira grande dominadora foi a Mitsubishi, com triunfos em 1985, 1992, 1993, 1997, 1998, 2001 a 2007. Pelo meio disso, houve dois interregnos, o primeiro da Peugeot, de 1987 a 1990. Depois foi a vez da Citroën, em 1991, e de 1994 a 1996. Depois da Mitsubishi surgiu a Volkswagen, que depois duma vitória com o Iltis em 1980, regressou oficialmente, vencendo em 2009, 2010 e 2011. Por fim, a MINI, através da X-Raid, que triunfou quatro anos seguidos, de 2012 a 2015.

Como se percebe, nesta competição sempre houve períodos de domínio e agora tudo aponta para a Peugeot. Alguém se intromete nesse domínio? Pelo que se viu este ano, não porque Nasser al-Attiyah, era capaz de se bater com os Peugeot, mas somente se andasse sempre a fundo e isso é algo que todos os pilotos sabem que não é possível. Mais cedo ou mais tarde há sempre uma pedra que destrói uma roda…

Sorte e azar entre os portugueses

A sorte foi madrasta para Boris Garafulic e Filipe Palmeiro, que ‘caíram’ a dois passos do sonho, desistiram na 11ª etapa, quando eram sétimos classificados. um resultado acima das expectativas da dupla, mas que uma avaria mecânica tratou de fazer terminar. O navegador português estava a ser determinante na boa prova, mas quando o azar bate à porta, nada há a fazer. Já Stephan Schott e Paulo Fiúza terminaram no 15º lugar, a melhor classificação de sempre no Dakar para o piloto alemão. Não chegou para o top 10 – e para os dois irem de férias uma semana – mas, foi batido um recorde e Schott tem muito que agradecer ao seu navegador.

Dakar duro

Este foi claramente o Dakar mais duro de todos os que se realizaram na América do Sul, mas a ASO tem que encontrar soluções para o percurso, pois o atual está a ficar gasto. Etienne Lavigne já admitiu que o Dakar continua na América do Sul para a edição 2018 e que não vai demorar muito a anunciar os países que receberão a prova. Esperemos que regresse o Chile e o Atacama, pois aí haveria muita areia. E faz muita falta areia no Dakar, se bem que a mistura é também muito interessante. De resto, foi pena tantas etapas anuladas, mas a meteorologia foi má demais, e tirou muita emoção à prova. Só em duas etapas houve verdadeira emoção, na quarta e na 11ª, mas isso não chega numa prova com duas semanas.

Després sempre a melhorar

É verdade que tinha um Peugeot, mas Cyril Després está a aprender devagar, mas com consistência os carros depois de imensos sucessos nas motos. Na primeira edição nos autos fez ‘borrada’ até dizer chega, o ano passado já foi sétimo e este ano terceiro. Não parece talhado para um dia vencer nos carros, mas quem sabe…

Nani Roma fez uma prova muito inteligente, pois sabendo que já não tem andamento para muito mais, andou sempre à espreita. E com isso terminou no quarto lugar, sendo o melhor não-Peugeot. claro que contou com o azar de Mikko Hirvonen, o único piloto que já provou ter mãos e jeito para um dia poder ganhar o Dakar, mas não com um MINI, carro que já está longe dos sucessos entre 2012 e 2015.

Giniel de Villiers e a Toyota não têm conjunto para bater a Peugeot. Isso irá depender sempre muito do tipo de percurso escolhido pela ASO, pois até podemos admitir que não faz percursos para beneficiar a Peugeot, mas também nunca fará para beneficiar a Toyota, e os homens da Gazoo só com isso poderão dar outra luta à Peugeot. Portanto, em condições normais, dificilmente ganham, a não ser que al-Attiyah consiga ter a sorte de fazer um Dakar como só ele sabe, sempre ao ataque, e ‘falhar’ as pedras todas…

Desilusão MINI

Tal seja forte demais falar em desilusão MINI, pois o que estamos é mal habituados. Repare-se que a X-Raid e a MINI venceram todos os Dakar entre 2012 e 2015 e isso deixa em todos uma sensação de que tudo o que fizerem abaixo disso é mau. Mas a verdade é que não é a MINI que está pior, mas sim os adversários é que cresceram. A Peugeot é o que se sabe, vence o Dakar há dois anos seguidos e a Toyota nunca conseguiu lá chegar. A marca nipónica foi terceira em 2012, segunda em 2013, quarta em 2014, segunda em 2015 e terceira em 2016 com o seu melhor representante. E o mais perto que ficou do líder foi com Giniel de Villiers em 2015, a 35m34s. Não é propriamente perto…

José Luís Abreu/AutoSport