McLaren mais perto do ‘divórcio’ com a Honda

Os responsáveis da McLaren parece terem chegado ao limite da sua paciência e apesar das recentes notícias da ajuda da Ilmor, de Mario Illen, isso não terá sido suficiente e o divórcio parece mesmo ser o único caminho a seguir. O futuro, deve passar pela Renault.

Já não é de agora, mas os últimos meses trataram-se apenas e só de um dos lados à espera que o outro mudasse, como se de repente tudo o que ficou para trás pudesse ser alterado de um dia para o outro. Pelos vistos, a McLaren perdeu mesmo a paciência com a Honda e, agora só mesmo um milagre poderá impedir o divórcio depois de Zak Brown demonstrar ter perdido a fé nos japoneses.

A aliança que há mais de vinte e cinco anos foi dominante na cena do Grandes Prémios de então tem sido um mar de desilusão por entre abandonos, traseiras fumegantes e unidades de potência embaraçosamente pouco competitivas. Ver no GP da Bélgica Alonso novamente a ‘fumegar’, com constantes declarações a ‘arrassar’ a Honda percebe-se que as coisas chegaram a um ponto em que a ‘relação’ já não é boa para ninguém.

Este ano de 2017 era o do início do caminho rumo à competitividade, uma vez que a Honda tinha a possibilidade de refazer completamente o seu V6 turbohíbrido, depois de ter errado no seu conceito inicial.

No entanto, desde os primeiros dias de testes de pré-temporada que ficou claro que a nova unidade de potência da Honda continuava longe das suas rivais, mesmo da Renault, e a sua fiabilidade era substancialmente pior que a solução do ano passado, com diversos problemas a enviar para abandonos Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne.

O principal problema dos japoneses passa pela falta de correlação entre os dados que obtêm nas ferramentas de simulação e a sua verificação em pista, algo que foi já há algum tempo admitido por Yusuke Hasegawa. “Não conseguimos criar as condições necessárias no dinamómetro. Temos que criar as condições da pista no dinamómetro. As condições operacionais são diferentes, portanto, temos que perceber o que está a fazer a diferença na fiabilidade. O ano passado, conseguíamos comprovar a fiabilidade do motor no dinamómetro, portanto, temos que perceber por que motivo agora existe uma diferença entre o dinamómetro e o circuito – não é fácil. Temos que melhorar a precisão”, afirmou o responsável máximo pelo programa de Fórmula 1 da Honda.

Este parece continuar a ser o grande problema da marca japonesa, não tendo conseguido mudar de paradigma com as restrições a testes que existem atualmente. Nas suas anteriores passagens pela Fórmula 1, anos oitenta, noventa e princípio do século, sem falar na primeira aventura dos anos sessenta, os responsáveis da Honda testavam consistentemente em Suzuka os seus motores e evoluções, adoptando uma postura empírica.

Hoje em dia, com as restrições aos testes em pista, tudo tem que ser avaliado em ferramentas de simulação, mudando completamente a forma como são concebidos e desenvolvidos carros e unidades de potência. Este foi um problema que também foi sentido pela Ferrari que, com um circuito à porta, qualquer novo componente era motivo para ir para a pista, estando agora ultrapassar essa deficiência, podemos ter, portanto, uma ideia do desafio que a Honda enfrenta, que talvez não estivesse pronta para abraçar um atual projecto na Fórmula 1.

Para além disso, a cultura japonesa e a filosofia da Honda, que insiste em manter apenas os seus técnicos no projecto, não contratando pessoas com experiência de Fórmula 1, atrasa a busca de novas soluções, uma vez que dificilmente ‘bebem’ das dificuldades dos outros construtores através de sangue novo.

“O Éric fala da cultura de Fórmula 1. O local onde o motor está a ser construído, as pessoas envolvidas, precisam de mais experiência de Fórmula 1 e para isso, têm que ter uma mente mais aberta. Algo tinha que mudar. Continuar a fazer a mesma coisa, vai ter o mesmo resultado, e é isso que a Honda está a fazer há já um par de anos. Tinham que fazer mudanças, assumir alguns riscos, fazer algumas coisas que não fariam normalmente. Mas não podiam continuar a fazer o mesmo, a alcançar o mesmo resultado, e depois pensar que por milagre as coisas poderiam mudar na corrida seguinte. Tinham que ter uma abordagem distinta”, avisou Zak Brown.

Indiánapolis – tiro pela culatra

Apesar de todas as contrariedades, quando a McLaren, a Honda e a Andretti Autosports se uniram para levar Fernando Alonso até ás 500 Milhas de Indianápolis essa parecia ser uma medida para poder dar uma possibilidade de a marca japonesa salvar a face e até uma operação de charme para que os nipónicos pudessem abrir-se um pouco às ideias que os responsáveis da estrutura de Woking consideram ser necessárias para que a sua união pudesse ser bem-sucedida.

Porém, e muito embora a Honda tenha ganho a clássica norte-americana, foi o V6 biturbo nipónico que colocou um ponto final na corrida do espanhol quando este estava na luta pela vitória, quase parecendo uma extensão da sua temporada de Fórmula 1 – performances extraordinárias para serem terminadas numa berma com um escape a fumegar de forma terminal. Após a prova de Indianápolis todos do lado da McLaren, inclusivamente Fernando Alonso, que não se coíbe de dizer o que pensa, foram pouco vocais, mas isso seria sol de pouca dura.

A explosão de Zak

A McLaren esperava ter no Grande Prémio do Canadá uma nova versão do V6 turbohíbrido, mas performante e mais fiável, mas os problemas de correlação de dados entre os bancos de ensaio e a pista impediram que a Honda alcançasse as garantias que desejava, preferiu manter-se na sua zona de conforto e continuar com o material que vinha a usar desde o início da temporada, sem grande sucesso, diga-se.
Brown ficou possesso e não se conteve. “Falhar evoluções, evoluções que não alcançam o desejado, não podemos aguentar tudo. Estamos próximos do nosso limite. Até agora não tem funcionado. Um ano na Fórmula 1 é uma eternidade. Três anos é uma década. Não podemos continuar assim indefinidamente”, disse na altura o CEO da McLaren.

Brown continuou, acabando por deixar escapar que não tinha esperança na Honda: “A Honda está a trabalhar muito arduamente, mas parece perdida. Apenas recentemente nos foi dito que não teríamos a evolução e não temos uma previsão, o que é preocupante, dado que é doloroso e não podemos esperar indefinidamente. Esperamos ansiosamente por esta evolução, assim como os nossos pilotos, e é um grande desapontamento que não a tenhamos ainda. Não se trata de falta de esforço, mas estão a ter dificuldades em conseguir o que é pretendido”.

Mais claro, o americano que dirige a McLaren não podia ser: reconhece o esforço, mas sublinha que a Honda não tem a capacidade técnica para conceber, desenvolver e construir uma unidade de potência competitiva para a Fórmula 1. É evidente que estas declarações para um japonês, uma acusação pública de pouca preparação, é um verdadeiro ataque à sua honra e Brown sabe exactamente disso, e ao escolher proferi-las demonstrou claramente que o futuro da McLaren não passa pela Honda. E Mesmo assim ainda aguentaram todos estes meses…

O futuro

O americano que dirige os destinos da estrutura de Woking terá que tomar uma decisão brevemente e ter um aval da FIA para mudar de motor uma vez que o prazo para definir as unidades de potência de cada uma das equipas em 2018 já passou, mas isso não será um problema, estando convencido que rapidamente tudo estará definido. “Estamos a começar a trabalhar no carro de 2018 – 2018 chegará rapidamente. Tínhamos que tomar as decisões para impactar em 2018 até à pausa de Verão mas também tínhamos um plano B e plano C. Temos planos. Somos amigos de toda gente no ‘pitlane’, tomamos um café e conversamos sobre diversas coisas. Estamos bem”, afirmou o americano com confiança.

Nem mesmo o buraco financeiro que sofrerá, recebe cerca de cem milhões de euros por temporada, será um entrave, acabando por ser um mal menor face ao dinheiro que está a perder da FOM devido às más classificações que tem vindo a ter no Campeonato de Construtores. Para além disso, só terminando a sua relação com a Honda. E neste particular, as coisas vão ser complicadas. É que a Toro Rosso já disse que não há discussões com a Honda e não sendo hipótese, não há mais possibilidades, mas por outro lado isso também cria um problema à McLaren pois a Renault não tem atualmente estrutura para ter mais um cliente.

O negócio Toro Rosso/Honda faria sentido pois por um lado ajudaria a equipa de Faenza a compor bem o seu budget e por outro lado permitiria que a Honda se mantivesse na F1. Se este negócio não for para a frente, confirmando-se o divórcio da McLaren com a Honda, estamos a falar de um enorme problema. A quebra de contrato por parte da McLaren levará certamente aos tribunais, a Honda ficará fora da F1.

Por fim, joga-se aqui também o futuro de Alonso, e não sabemos até que ponto, vendo o que está a suceder com Max Verstappen, até que ponto o espanhol acredita na unidade motriz da Renault para resolver todos os seus problemas e também até que ponto os responsáveis da Renault não se importam de ter mais um cliente do calibre da Red Bull no seu portfólio. De qualquer forma, pensamos que será suficiente para o espanhol, e ficará na McLaren se a Honda sair.

Portanto,a gora resta aguardar, mas a decisão deverá redundar mesmo numa nova associação McLaren-Renault. Depois de ao longo da sua história ter sido equipada por dez construtores de motores, Mercedes, Ford Cosworth, Honda, TAG Porsche, Peugeot, BRM, Alfa Romeo, Ford, Serenissima e Climax, o ano de 2018 pode ficar marcado por uma novidade ‘chamada’ McLaren-Renault.

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