O pais babados dos pilotos de Fórmula 1

À primeira vista, um operador de Caterpillar em Espoo na Finlândia, um tipógrafo da Krakow na Polónia, um pianista alemão nascido no Uruguai e um motorista britânico da pequena cidade de Frome e convertido ao ralicross, pouco tinham em comum. Mas se os seus nomes forem Matti Raikkonen, Artur Kubica, Jorge Sutil e John Button, provavelmente todos perceberão de quem falamos…

Eles são os pais de afamados antigos e afamados pilotos de Fórmula 1, homens que, na maior parte dos casos, sacrificaram as suas próprias vidas, desistiram do descanso aos fins-de-semana e investiram o que tinham e o que não tinham para perseguir um sonho que tinham em comum com os seus filhos e que viram os seus desejos realizados. Até que um dia passaram a assistir às corridas do Mundial de Fórmula 1 viajando em 1ª Classe ou em Executiva, a dormirem em hotéis de cinco estrelas e a passear pelo paddock ostentado o seu passe permanente da FIA ao pescoço. É esta a sua história, uma história de sucesso, mas que nem sempre tem um final feliz.

A Williams foi a primeira equipa a ter ao seu serviço dois filhos de ex-pilotos de Fórmula 1, quando Nico Rosberg, o filho de Keke e Kazuki Nakajima, filho de Satoru, tripularam para a equipa britânica no Grande Prémio do Brasil de 2007. Mas o outro piloto da equipa, na altura Alex Wurz também tem um pai famoso, já que Franz Wurz foi uma das estrelas do Europeu de Ralicross no final dos anos setenta.

Um mundo pequeno

Outro filho de um famoso piloto de competição é Nelson Angelo Piquet, cujo pai foi Tricampeão Mundial de Fórmula 1 e que em 2008 foi o companheiro de equipa de Fernando Alonso. Mas se estes pais atingiram a fama e o estrelato, outros existem que por falta de talento, ou de meios, não chegaram ao topo da competição automóvel, como por exemplo, o falecido John Button. Ainda conseguiu alguns resultados assinaláveis nos campeonatos britânicos de Ralicross e Autocross mas, logo que o seu filho Jenson mostrou os seus talentos no karting, John não pensou duas vezes, colocou a sua carreira de parte e dedicou-se totalmente a apoiar Jenson, o qual apenas podia ver aos fins-de-semana já que estava divorciado da mãe do piloto britânico. Em conjunto constituíam um par fantástico nas categorias juniores que corriam em Inglaterra e John deu-se tão bem no papel de preparador de motores que começou a trabalhar para outros pilotos, incluindo um ‘tal’ Lewis Hamilton… O mundo é pequeno, não é?

O pai de Lewis, Anthony, também era adepto da competição automóvel e, um pouco como John Button, colocou a prática de karting no centro das atenções de Lewis, tornando os fins-de-semana – também ele era divorciado – mais interessantes para o jovem. Durante a semana, Anthony ocupava-se da sua pequena loja de eletrodomésticos, mas aos fins-de-semana seguia o seu filho por toda a Inglaterra, com os resultados que todos agora conhecemos.

A competição nas veias

Anos antes, numa pequena aldeia perto de Oviedo, José Luis Alonso, um engenheiro que trabalhava com explosivos nas minas locais, construiu um pequeno kart para o seu filho Fernando. Bem cedo, o miúdo começou a destacar-se nas provas locais, mas José Luis teve de manter o seu trabalho habitual, já que o dinheiro não abundava em casa dos Alonso e foi apenas quando Fernando assinou o seu segundo contrato com a Renault que ele conseguiu abandonar o seu perigoso trabalho e passar a seguir o filho pelos quatro cantos do mundo.

Mas o pai de Alonso não foi o único que fez correr nas veias do filho a competição automóvel. Enzo Trulli e a sua mulher eram adeptos tão convictos do desporto motorizado que batizaram o seu filho como Jarno – um nome finlandês – como tributo ao grande Jarno Saarinen, uma lenda do motociclismo mundial que morreu em Monza em 1973, vítima de um acidente. Trabalhando como mecânico numa garagem de Pescara, Enzo colocou o seu jovem filho num kart, pediu o apoio do seu amigo Lucio Cavuto e o resto, tal como se diz, é história!

Praticamente ao mesmo tempo, algumas centenas de quilómetros a sul de Pescara, em Roma, Roberto Fisichella, outro mecânico apaixonado pela competição, também construiu um pequeno kart para o seu filho Giancarlo e, num curto espaço de tempo, os dois jovens pilotos italianos lutavam pela supremacia do hiper competitivo mundo do karting italiano.

Esforços financeiros

Alguns anos mais tarde, bem mais a norte e junto da Lapónia, Seppo Kovalainen enveredou pelo mesmo caminho, construindo um kart para o seu filho Heikki, enquanto em Espoo, nos arredores de Helsínquia, Matti Raikkonen e a mulher colocaram todas as suas economias na carreira do seu filho no karting, já que Kimi Mathias mostrava ter um talento espantoso para a competição. E mesmo não tendo dinheiro para melhorar a sua casa – apenas tinham uma casa de banho colocada no exterior da casa – a família de Kimi nunca teve dúvidas em apoiar o sonho do filho. Como se percebe, fizeram bem. Era, também, o seu sonho, já que Matti era um grande adepto do desporto automóvel, mas tinha de se contentar em guiar um Caterpillar para o município local, já que nunca tinha tido dinheiro para experimentar as suas potencialidades nas corridas ou nos ralis.

Artur Kubica também era um adepto da competição e tinha mesmo feito alguns ralis, mas os seus dias de trabalho eram passados numa pequena tipografia em Krakow, da qual era proprietário. Quando percebeu que o seu filho tinha um talento especial, sobressaindo em relação às outras crianças, quase desistiu do seu emprego – a empresa esteve prestes a falir já que não lhe dedicava a atenção necessária – e começou a viajar ao volante do seu Polski Fiat por toda a Polónia, numa primeira fase, e depois pela Europa, para ser o mecânico do kart do seu filho nas corridas. Tudo isto antes de Robert se ter mudado para Itália com 14 anos de idade, tendo passado a dormir e a viver na garagem da sua nova equipa. Mesmo assim Artur ainda continuou a acompanhar o filho por toda a Europa, mas deixou de ter um papel ativo a desempenhar e, por falta de dinheiro acabou mesmo por deixar de o fazer.

Caminhos mais fáceis

Já quanto a Alan Webber, sendo proprietário de uma loja de venda de motos, perto de Melbourne, era natural que o jovem Mark mostrasse interesse na competição, mas o jovem australiano passou logo para as quatro rodas, em lugar de iniciar-se apenas com duas.

Outros tiveram caminhos mais fáceis até ao topo, como é exemplo Ralf Schumacher. Com dois anos de idade o seu pai Rolf colocou-o ao volante de um pequeno kart na pista que geria em Kerpen e, desde então, o jovem alemão seguiu o seu irmão mais velho Michael até à Fórmula 1, não tendo dificuldade em encontrar patrocinadores, managers e equipas, já que o nome Schumacher abriu quase todas as portas.

Mas mesmo sem um passado ligado à competição, muitos pilotos chegaram ao topo das suas carreiras, como são exemplos David Coulthard e Adrian Sutil. David Coulthard sénior geria a empresa de transportes familiar, desde a morte do seu pai e não era, propriamente, um entusiasta do desporto automóvel. Mas tinha o dinheiro suficiente para que o seu filho guiasse um kart competitivo e, no final dos anos oitenta, um bom Formula Ford, proporcionando-lhe a ajuda indispensável no caminho para a Fórmula 1.

Nasceu para a música

Mas a figura mais ímpar no que diz respeito à competição automóvel é Jorge Sutil. Nascido no Uruguai emigrou para a Alemanha com a família ainda muito jovem. Jorge desenvolveu um enorme gosto pela música e em breve tornou-se pianista de uma banda de jazz. Criado num ambiente dominado pela música, o mais natural teria sido Adrian ter abraçado esta carreira e, com 14 anos, já era um virtuoso pianista clássico. Mas foi precisamente nesta altura que um amigo da família o desafiou para dar umas voltas de kart e, num curto espaço de tempo, Jorge e Sutil trocaram os palcos pelas corridas, apesar de Jorge ainda continuar a tocar, sempre que não seguia o seu filho através do mundo.

Quanto aos mais recentes pilotos brasileiros na Fórmula 1 ambos são oriundos de famílias de classe média, mas tiveram um enorme apoio dos seus pais até chegarem à Fórmula 1. Rubens Barrichello sénior transformou a sua empresa de comunicação numa empresa de marketing para ajudar o jovem Rubens na sua progressão desde o karting até à Formula Ford 2000 e antes de o enviar para a Europa. Quanto a Luís António Massa foi um piloto de turismos mediano, atividade que praticava em concomitância com a gestão conjunta, com o seu irmão, de uma fábrica de moldes e peças. O seu irmão era também o seu segundo piloto em provas de resistência e ambos puseram Felipe, então com seis anos de idade, ao volante de um kart. Cedo perceberam que ele tinha, de facto, muito mais talento que os dois juntos.

Finais pouco felizes

Mas a história não é só “cor de rosa” em relação às tentativas dos pais para que os seus filhos cheguem à Fórmula 1. E, em alguns casos, mesmo quando isso acontecia, a pressão dos muitos anos passados com pouco ou nenhum dinheiro, numa luta incessante pela mais pequena migalha, acaba por destruir a relação entre pai e filho e leva ao corte de todos os laços. Outros foram tão longe na sua tentativa de conseguir arranjar dinheiro para ajudar a carreira dos seus filhos que, em desespero total, fazem-no através de formas ilícitas e existe um pequeno grupo de “Pais da Fórmula 1” que passaram algum tempo atrás das grades, condenados por fraude. Há alguns anos um piloto francês viu o seu pai ser preso por negociar com carros de luxo roubados e outro, um piloto alemão, que preferimos não revelar, poucos os nenhuns contactos mantém com o seu pai devidos a suspeitas de envolvimento em casos similares.

Vagueiem pelo paddock e ainda hoje poderão ver quase tantos pais como pilotos, já que de uma forma ou de outra a maior parte deles está a viver os seus próprios sonhos através dos filhos. Alguns estão presentes em todas as corridas, outros apenas falham algumas, havendo ainda outros que só são vistos de tempos a tempos, preferindo seguir a carreira dos seus filhos ao longe, dando-lhes o espaço necessário e suficiente para respirarem. O melhor exemplo é o do atual Campeão do Mundo, Nico Rosber, cujo pai, Keke, quase nunca apareceu nos Grandes Prémios, de modo a não desviar a atenção que queria sempre mantida no filho e não nele próprio.

Bem lá no fundo todos sabem o que fizeram pelos seus filhos e estes tendem a mostrar a sua gratidão, olhando pelos seus familiares mais diretos, pedindo-lhes para deixarem o seus empregos e viajarem com eles, agora que têm o dinheiro suficiente para o fazer. Tal como disse Jenson Button após ter assinado o seu primeiro grande contrato, “o meu pai não teve que voltar a trabalhar e a minha mãe também. Depois do que fizeram por mim foi mesmo o mínimo que pude fazer por eles!”

José Luis Abreu/Autosport