Porque tem o Rali de Portugal de ser cada vez melhor

Ciclicamente, surge novamente a ‘conversa’ relativa ao futuro calendário do WRC. Há muito se sabe que a ‘vontade’ do promotor esbarra na realidade, e hoje em dia o calendário do WRC nunca poderá ser posto de pé somente por um motivo. Há, como sempre, um conjunto de interesses, e um deles é fazer crescer o WRC também fora da Europa.

Na Europa, o WRC é um produto muito bem estabelecido, mas isso não acontece noutros países, onde o promotor quer fazer crescer a modalidade. E não há melhor maneira de o fazer, que ir lá. Mesmo sabendo que demora tempo uma disciplina afirmar-se num determinado contexto. Veja-se o Rali do México, tem hoje um significado no WRC que não tinha quando para lá foi em 2004, não se pode esperar que as pessoas se coloquem em frente de uma TV ou a ver ao vivo um desporto que nunca tenham contactado, portanto faz parte do trabalho do Promotor identificar esses países, que tenham grande interesse no WRC, ou que os construtores entendam que é um mercado que vale a pena explorar, onde possam vender muitos carros, e dessa forma tornar cada vez mais atrativo o campeonato para eles próprios.

É nesse contexto que o Promotor ‘tenta’ que a FIA aceite 16 provas, sendo a ideia oito na Europa e mais oito no resto do Mundo. Neste momento, há dez ralis na Europa e apenas três no ‘Resto do Mundo’ (México, Argentina e Austrália). E é aqui que chocam duas ‘ideologias’. Por um lado a FIA que está segura com o que tem, os ralis existentes estão bem estabelecidos, e trocar boas provas europeias pela ‘incerteza’ da ‘Resto do Mundo’ é arriscar decréscimo global de interesse no WRC, e isso não pode acontecer quando o WRC luta para se manter entre as disciplinas de topo no interesses dos adeptos. Mas por outro lado, se não sair da zona de conforto o WRC não vai crescer…

Quem não gostava de um regresso a África? Estados Unidos da América do Norte, China, Nova Zelândia. Todos estes são regressos. Sabendo das preferências dos adeptos, qualquer um ‘aceita’ a Nova Zelândia, mas isso significa desde logo a alternância com a Austrália. A China é importante para os construtores, mas pouco para os adeptos. Visto de ‘cá’ é fácil sermos egoístas e não querermos um Rali da China, mas se queremos um WRC maior, melhor e mais global, não há volta a dar. Fala-se no Canadá com um rali de inverno, aí seria quase certo que a Suécia ficaria em risco. Até mesmo mais a norte nos EUA, em que a neve seria ‘segura’. Ainda ‘sobram’ Japão, Coreia, Turquia, Rússia e Índia. A grande ideia de Oliver Ciesla são quatro ralis na América, quatro na Ásia – Oceania e oito na Europa. Mas para já a FIA está irredutível, e no máximo ‘permite’ 14 ralis. A grande questão é se o WRC deve concentrar-se nos eventos com maior tradição e sucesso ou, pelo contrário, procurar novos países emergentes que respondam às necessidades de mercado dos construtores.

Oliver Ciesla diz que “o desafio é conseguir a mistura correta, tentando sempre conservar os ralis mais fortes e emblemáticos. Isso é um ponto forte do WRC, o facto de existirem eventos com muita tradição. Novos países poderiam ser benéficos mas nunca é fácil introduzir um novo rali no calendário. A nossa tentativa de trazer novos países prende-se com a procura de novas paisagens e imagens, e de novas circunstâncias para a própria competição. Gostaríamos de conciliar estes nossos objetivos com a vontade dos próprios construtores. Mas também sabemos que é duro impor o WRC a um país sem grande tradição, principalmente devido ao nível das nossas organizações e devido aos requisitos impostos pela FIA. Portanto, não podemos alargar ou alterar radicalmente o calendário de um ano para o outro. A nossa estratégia é identificar os sítios onde queremos estar e ajudar as organizações locais a atingirem um nível que lhes permita entrar no WRC”. Portanto, como se percebe, o WRC não vai mudar por completo de um ano para o outro, mas vai, forçosamente, ter alterações. A Mais fácil, para já é ‘acrescentar’ um rali…

Os avanços e recuos do WRC

Brasil, China, Rússia, África do Sul, Índia, Coreia, Japão, Turquia, Croácia, Canadá, EUA, Nova Zelândia. Há muito se ouve falar da possibilidade dos países ‘emergentes’, e não só, poderem entrar ou regressar ao WRC. Mas afinal, o que tem mudado. Um olhar rápido pelos calendários na última década permite concluir que o WRC está claramente bem enraizado em alguns países e noutros, apesar das tentativas, não consegue a desejada estabilidade.

Com uma única exceção – Chipre – o calendário de 2000 e 2001 do WRC englobava as mais tradicionais provas da competição, mas foi a partir daí que tudo começou a mudar aos poucos. A primeira ‘vítima’, o Rali de Portugal, que em 2001 perdeu o seu lugar para a poderosa Alemanha.

Em 2002, foi a vez do mítico Safari dar o lugar à Turquia e em 2004 o WRC foi alargado de 14 para 16 provas entrando as provas do Japão e do México. Tudo se manteve inalterado até 2007, ano em que entraram três novas provas, a Noruega e Irlanda, novidade absoluta no WRC e Portugal, na altura ainda no Algarve. Saíram Chipre e Turquia, que pouco acrescentaram ao WRC e Austrália, devido a falta de fundos para levar a cabo a prova.

Numa fase de rotatividade do calendário do WRC, Austrália ficou novamente de fora (preparando-se para mudar de local e ‘gerência’), tal como Noruega, Irlanda e Portugal, estreando-se a Jordânia como novidade e reinserida a Turquia. O ano de 2009 trouxe-nos uma das maiores modificações ao calendário, que foi reduzido de 15 para 12 provas. A maior baixa foi o Rali de Monte Carlo, que trocou o espartilho do WRC pelo IRC e a possibilidade de traçar um percurso à sua vontade, sem o ‘caderno de encargos’ da FIA. A Suécia foi ‘trocada’ pela Noruega, a Nova Zelândia pela Austrália, e outra das provas míticas, a Córsega, saiu. Regressou uma prova muita antiga (1973) do WRC, a Polónia. O Rali de Portugal voltou finalmente a fixar-se na modalidade, e depois de reentrar em 2009, tem tido presença assegurada.

Em 2010 o calendário cresceu novamente uma prova, foi fortemente remisturado, com apenas quatro provas (entre elas Portugal) a manterem o seu lugar sendo a única novidade absoluta a Bulgária, um evento, a exemplo (recente) da Polónia, foi exemplo único. Os franceses regressaram, mas agora na Alsácia, terra de Sébastien Loeb.

Novas grandes alterações para 2011, com a Sardenha/Itália, Argentina, Grécia e Austrália a regressarem por troca com a Turquia, Nova Zelândia, Bulgária e Japão, uma prova dum país de grandes Construtores, mas que nunca conseguiu reunir o interesse dos adeptos locais, mesmo com várias alterações de localização. Em 2012, Austrália e Jordânia saíram dando o lugar a duas provas com grande história no WRC, Monte Carlo e Nova Zelândia, especialmente a primeira, absolutamente fundamental na competição. No calendário de 2013, só se notou a troca da Nova Zelândia pela Austrália.

No final de 2013 foi a vez da Grécia perder o seu rali, e em 2014 foi a Alsácia que deu lugar ao regresso da Córsega. Ficou tudo dentro do mesmo país. No ano seguinte, uma troca sensível no WRC, com a passagem do Rali de Portugal do Algarve para o Norte e desde aí o calendário só abanou em 2016 com a anulação do Rali da China.

Portanto, pelo que se percebe, não há falta de interessados, mas também não há provas no calendário que se possa dizer que estão claramente a mais. Há boa variedade, mas compreende-se e aceita-se que o WRC tenha que ter maior percentagem de provas fora da Europa. Mas para isso a FIA não pode permitir que se ‘meta’ um Rali no Mundial como o da China, sem plano B para ultrapassar uma derrocada numa zona da prova.

Por outro lado, por tudo isto percebe-se porque o Rali de Portugal tem que continuar a ser ‘The Best’. A concorrência é cada vez maior e melhor e a pressão vai acentuar-se nos próximos anos. Portanto, não só a organização tem que colocar de pé o melhor rali possível, pois tudo o resto vem por acréscimo.