Road Rage: Stop para a cabeça, luz verde para o corpo

As razões de um comportamento agressivo na estrada podem ter diferentes origens. Do ponto de vista psicológico interno, há um conjunto de fatores que, quando em sintonia, são incontroláveis para qualquer pessoa. Daí que qualquer um de nós possa ser uma possível vítima de um comportamento agressivo em qualquer situação. Basta que sejam conjugados certos estímulos internos que, ao atuarem na mesma altura, se sobrepõem a qualquer tipo de atitude lógica ou racional. Segundo Mário Horta, Psicólogo, Chefe do Departamento de Psicologia da Prevenção Rodoviária Portuguesa, a condução apresenta-se hoje como um mundo algo à margem de tudo o resto, isto é, “faz parte da nossa cultura embora seja, por si só, um sistema cultural muito particular”.

Efeitos do automóvel sobre o ser humano

Escudo protetor → Efeito imaginário

Reflexo do condutor → Efeito simbólico/afetivo

União com o veículo → Efeito traumático

Em primeiro lugar a condução pode criar uma espécie de escudo à nossa volta, levando a que “cada pessoa conduza para si própria, sem cumprir muitas regras de socialização”. Esta é uma justificação que Mário Horta encontra para explicar o poder, meio real meio fictício, que as pessoas sentem assim que entram nos seus carros. Por um lado, exemplifica Horta: “se há uns anos se demorava dias para ir ao Porto, podemos hoje fazer a viagem em cerca de 3 horas”. Esse é o poder real de que fala – uma autonomia – que está ao alcance de qualquer um. Por outro lado, e já no campo da “magia ou do imaginário”, Horta adverte para uma omnipotência que é aparentemente percecionada pelas pessoas mas que, na verdade, não existe porque “o corpo nada sente em relação à condução”.

Existe uma sensação de alheamento e poder ilimitado/imaginário (pelo conforto, pela potência e pelo “pseudo-controlo”) que o carro nos dá que é rapidamente eliminada quando “há quem nos mostre que não somos assim tão poderosos”, através de uma “descida crua e rápida à realidade“, fazendo-nos, por exemplo, travar e reduzir a velocidade. Há então uma reacção agressiva porque alguém desafiou a nossa vontade, alguém nos impôs uma contrariedade.

“Há quem nos mostre que não somos assim tão poderosos”

Tendo em conta o valor, monetário ou afetivo, que as coisas têm para nós, “o amor que uma pessoa sente pelo carro pode ser encarado como o reflexo de si próprio”. Quando alguma situação põe em causa o estado do veículo esse valor é questionado contribuindo assim para despoletar uma reação agressiva. É o caso de muitas pessoas que saem dos seus veículos, aparentemente calmas após acidente mas que, quando veem o estado do carro ficam automaticamente furiosas, podendo partir para a agressão. Nesta situação, avaliando o estado psíquico em que a pessoa se encontra, é o indivíduo, e não o carro, que é alvo de um ataque, sendo contrariado no seu desejo de ter o carro em condições. O valor simbólico ou afetivo que o carro tem é levado ao extremo e desencadeia atitudes de agressividade.

Outra causa para iniciar reações agressivas deve-se dos acidentes de viação. Para além do conflito interno natural que advém da colisão, há alturas em que “o carro é visto como uma espécie de prolongamento do corpo”. Há uma espécie de união com o veículo que quando é posta em causa ou “eventualmente agredida” (pelo acidente) gera sentimentos de trauma criados por um afluxo de estímulos que o cérebro não consegue processar. A pessoa acaba por perder o controle porque se apercebe que houve algo exterior a ela que comandou a situação e que foi apanhada desprevenida sem se encontrar preparada para gerir tanta emoção.

A tentativa de interpretar os comportamentos, desde o primeiro impulso até à agressão física, levou o Dr. John Larson, psicólogo americano, à elaboração de uma tabela dividindo, tanto quanto possível as etapas comportamentais.

Os quatro “degraus” de comportamento face a um incidente na estrada:

1º Grau – Simples gesto, ameaça ou agressão oral com intenção punitiva;

2º Grau – Juízos de valor sobre a pessoa, repetidos palavrões, incapacidade de reflexão;

3º Grau – Constantes sinais de luzes, razias ao carro, encostos à berma, paragem súbita em frente ao carro – Loucura das Auto-Estradas

4º Grau – Agressão intencional ao condutor e ao carro – Road Rage

Após uma simples análise das quatro fases de comportamento e tendo em conta o atual panorama português, qualquer condutor terá presenciado a primeira fase de comportamento. Outros tantos já foram vítimas do estado mais avançado da situação. Na verdade, uma hierarquização tão linear do comportamento pode acabar por ser enviesada. Isto porque o que acontece na maioria dos casos é a uma mistura de comportamentos que pode acabar em agressão propriamente dita. A brigada de Trânsito tem conhecimento de vários registos mas que não são alvo de algum tratamento ou porque são resolvidos na altura sem nenhum conhecimento da GNR ou porque nem chegam ao conhecimento das brigadas que andam nas estradas.

Road Rage Vs Condução Agressiva

Quando se anda na estrada, é comum ver alguns carros que estão alterados na sua estética, seja com grandes ailerons traseiros, rodas mais largas ou barulhos de escape um pouco acima da média. Com mais ou menos alterações, todos têm um amor comum – andar depressa. São os adeptos do Tuning e do Street Racing. Preferem lugares isolados e longe de muita confusão para não terem problemas com as autoridades.

No entanto, estes dois conceitos em nada estão relacionados com a prática de “Road Rage”. O que pode acontecer é, pela velocidade excessiva que muitas vezes praticam, haver um maior índice de acidentes neste tipo de grupos organizados.

No que diz respeito à condução agressiva, não está subjacente um comportamento físico agressivo mas sim uma condução que, pelo eventual risco ou teste de limites, é considerada agressiva. Caracteriza-se pela prática de uma condução diferente do normal, muitas vezes no limite dos carros, a alta velocidade, por andar muito perto do carro da frente ou por chiar pneus. Esses são os comportamentos dos Street Racers que veem na estrada um móbil de divertimento. Aquilo que mais aflige esses grupos é o limite de velocidade, nomeadamente nas auto-estradas, a deficiência ou o mau estado das estradas e certos condutores que os “atrapalham”.

Mad Max em português

Ainda que em Portugal não haja grandes registos de mortos por incidentes de Road Rage nas estradas, há bastantes situações em que uma simples disputa de faixa, a não cedência de passagem ou a teimosia em relação à potência de um carro leva a situações extremas de violência. O Rui, o Nuno e o Diogo são exemplos, embora diferentes, de como se pode entrar em maus lençóis. E como nestas questões raramente a razão está só de um lado, como todos eles reconhecem, a identificação dos intervenientes é feita apenas pelo nome, idade e profissão.

Rui, 31 anos, formador de informática. Decorria o ano de 1999. Naquele dia caía aquela chuva miudinha mas que chegava para deixar tudo molhado. Com dois bilhetes já comprados para ir ao cinema com a namorada Rui previa um serão agradável. Iniciando a história, relembra: “a avenida de Ceuta encontrava-se completamente entupida de uma ponta à outra e em todas as faixas”. Estava calmamente no seu carro quando subitamente vem um condutor que, ao passá-lo pela direita (numa zona já fora do limite da estrada) se coloca à sua frente, no curto espaço que ele tinha para o carro da frente. Descontente com a situação, Rui deslocou-se ao carro que havia parado à sua frente “sem o intuito de andar à pancada mas sim de tirar satisfações”. Se fosse para andar à pancada teria deixado os óculos no carro, afirma. “Perguntei-lhe se ele [condutor] se achava mais esperto que os outros.” Obteve uma resposta em tom de gozo e voltou para o carro, não muito satisfeito. Descontente com a resposta voltou lá a segunda vez, já sem os óculos, e assim que o condutor saiu de carro “a coisa deu logo para o torto.” Envolveram-se corpo a corpo embatendo em vários carros que estavam, como eles, numa fila de trânsito, até irem parar ao chão. Quando levou um pontapé na face a coisa complicou-se. Ficou atordoado mas quando voltou a si deu-se o auge da raiva: nessa fase “estava-me marimbando se fossem dois ou três […] já não via nada à minha frente, viessem quantos viessem”. Por entre socos e pontapés de parte a parte a cena de pancadaria durou cerca de 3 minutos até que intervieram duas senhoras que vinham com o “infrator”. O Rui andou durante cinco semanas com um derrame no olho direito e com o nariz torto. Perdeu o relógio e, claro está, não foi ao cinema. Quanto à questão da agressividade, Rui considera-se uma pessoa calma mas admite que a partir do momento em que entra no carro se torna uma pessoa mais agressiva.

“estava-me marimbando se fossem dois ou três […] já não via nada à minha frente, viessem quantos viessem”

Bem mais calmo foi aquilo que aconteceu ao Nuno, dentista de profissão, 25 anos. A caminho da sua casa de praia, na Areia Branca, conduzia o carro da namorada. A estrada tinha várias curvas e “como o carro era novo, ia devagarinho a fazer a rodagem”. A certa altura repara que tem um carro atrás de si muito chegado e que parecia querer ultrapassar. Como havia um traço contínuo, o condutor não se atreveu a passar apesar das várias declarações dessa intenção. “Eu vi que ele queria passar mas continuei na minha, naquela velocidade e sempre sem problemas”, recorda Nuno. O condutor seguiu atrás do Nuno até porque era uma estrada comprida e só com uma faixa até que teve hipótese de o ultrapassar. Assim que o faz, “acelera a fundo, ganha distância e mais à frente faz uma derrapagem e mete o carro de lado a bloquear a minha passagem”, ainda na faixa de rodagem. Os dois ocupantes saíram do carro já prontos para tirarem satisfações mas o Nuno ao aperceber-se disso deu a volta à questão: “Quando eu vi que eles pararam e iam sair também parei logo o carro”. Saiu, acenou-lhes e fez um gesto que os deixou algo perplexos. De seguida “entrei no carro, fiz inversão de marcha e arranquei”. Resolveu-se assim uma questão que, caso contrário, certamente teria algo mais para contar.

“Tu vê lá com quem é que te metes, ouviste”

Para o Diogo, há uns anos, a coisa foi algo diferente: o técnico informático de 25 anos vinha de um jantar, na zona da Praça do Comércio, em Lisboa, quando, numa curva mais complicada, foi encostado por um Saxo Cup que o “empurrou” a ir parar à outra faixa obrigando-o a circular em sentido contrário durante alguns segundos. “No semáforo imediatamente à frente, saí do carro e dirigi-me logo ao condutor.” Nem sequer houve lugar a palavras. Começaram logo as agressões. A certa altura o Diogo agarra a cabeça do outro condutor por baixo do seu braço e desfere uma quantidade de murros violentos. Engalfinham-se os dois até irem parar ao chão e, após alguns minutos envolvidos, soltam-se, levantam-se e o Diogo dirige algumas palavras mais intimidatórias ao condutor: “Tu vê lá com quem é que te metes, ouviste”. Nisto, dirige-se cada um para seu carro. Quando o Diogo já sentia que a situação tinha acabado ouve a porta da mala do outro carro a fechar com violência. Qual não é o seu espanto quando nota que o indivíduo com quem se tinha travado de razões há segundos tinha ido à mala buscar uma chave de cruz. Rapidamente faz o mesmo e encontram-se, novamente, frente a frente com as chaves em punho. Até hoje, e ainda sem saber porquê, relembra: “olhámos um para o outro e fomos cada um para seu lado”.

Resultado final: o Diogo foi para o hospital, dando entrada nas urgências para fazer radiografias à mão, tendo desmaiado a meio. “Tinha a mão cheia de sangue e depois começou-me a doer tanto que mal conseguia mexer”. Ficou com os nós dos dedos algo deformados e esteve durante um ano e meio com dores na mão.

Cartão vermelho para as estatísticas

A competição que se assiste entre alguns condutores e o risco patente em certas manobras são potenciais ingredientes geradores de comportamentos agressivos. Numa altura em há cada vez menos tempo e mais solicitações, fatores como o stress diário são altamente “inflamáveis”. A enorme vontade de chegar a casa, por exemplo, a par da fadiga acumulada durante a semana gera toda uma situação em que “é menos a cabeça a pensar e mais o corpo a mandar”, afirma Horta. Por outro lado o espaço rodoviário tem vindo a aumentar a um ritmo algo reduzido quando comparado com o ritmo do aumento do parque automóvel.

Parque Automóvel em Portugal (Unidades)

1970 – 555 000

1980 – 1 200 000

1990 –  2 195 000

2000 –  4 750 000

2001 –  5 000 000
2010 –  5.800.000
2015 –  4.500.000

Com o constante aumento de pessoas encartadas a par do grande número de automóveis que circula em Portugal, quer a PSP quer a GNR-BT têm grandes dificuldades, físicas e logísticas, em acompanhar todos os incidentes que daí advêm. As situações de stress, raiva e agressão aumentam consideravelmente à medida que as pessoas têm menos tempo para percorrer o mesmo espaço ou, também assim, que têm que dividir o mesmo espaço com outras pessoas.

Os problemas do conceito

Se falarmos de “Road Rage” no Reino Unido, na Alemanha ou em Itália rapidamente nos indicam um vasto leque de reflexões, estudos e até teses sobre o assunto. O cidadão comum português não saberá então do que se trata pela falta de incidência nesta matéria o que, neste caso particular, até nem é totalmente negativo. Mas se lhe vier à memória aquele último incidente que teve na estrada talvez esteja perto daquilo que se trata…

O conceito terá surgido pela primeira vez em 1988, em Inglaterra, numa simples troca de palavras, sem ter sido alvo de muita discussão. Advém, muito provavelmente, de “Roid Rage”, expressão que caracteriza uma atividade repentina e violenta por parte de pessoas sob o efeito de esteróides. Mas foi só em 1994 que houve registos a publicitar o conceito. Daí em diante, “Road Rage” passou a ser o mote para inúmeros textos e reflexões por parte das pessoas e dos média.

Desde então, o seu significado está longe de reunir consenso. “O comportamento de um condutor enraivecido sobre outro” parece ser a definição mais aceite pela maioria. Foi proferida pelo Dr. Arnold Nerenberg, Psicólogo Clínico americano há mais 30 anos, considerado o fundador do movimento “Road Rage”. No entanto, há opiniões divergentes que consideram a expressão como mais uma invenção dos média, dos lobbies e de forças políticas para catalogar um tipo de comportamento que não prima pela novidade.

Em Portugal são várias as situações em que um condutor é interpelado por outro, com ou sem razão aparente, por ter feito algo despropositado ao outro condutor. Desde gestos com a mão ao efetivo embate entre carros, tudo pode levar a um comportamento excessivo que culmina em agressão. Não passa um dia em que não haja, pelo menos, umas buzinadelas ou uns quantos sinais de luzes para o veículo que vai à frente. Venha aquele que atire a primeira pedra…

Texto: Rúben Neves