Ensaio Mercedes-AMG GLC 43: Um SUV de corrida

 

A AMG tem uma pergunta para si: acha que os SUV têm todos que ser enfadonhos, secos de emoções e talhados para a família? Pense bem na resposta, pois o Mercedes-AMG GLC 43 é bem capaz de lhe subverter os preconceitos!

O mercado dos SUV está em franca expansão e, nos próximos tempos, não deverá dar mostras de acalmia, razão mais do que suficiente para muitos construtores reinvestirem “fichas” nesta nova galinha dos ovos de ouro! A Mercedes-Benz não é exceção, num mercado que, para si, já vale um terço das vendas globais! E se em números redondos isso dá qualquer coisa como 4 milhões de veículos, não custa nada a crer que haja lugar para alguns “nichos de mercado”, como um SUV desportivo! Foi por isso que a Mercedes-Benz não teve qualquer problema em “empurrar” o GLC para as mãos da AMG, que, com o seu habitual engenho e arte, o soube dotar dos artefactos necessários para nos fazer esquecer que estamos ao volante de um… SUV!

Bem-vindos ao Mercedes-AMG GLC 43 4MATIC, um familiar desportivo que, ironia das ironias, faz muito mais sentido guiar sozinho do que em família! Percebe-se porquê! Dono de uma estética apaixonante em vez de espampanante, com um interior que “cheira” a adrenalina por todos os comandos e um motor que inebria pela música e quase nos põe a levitar pela força, o mais potente GLC à venda em Portugal (entretanto foi apresentada a versão 63 e 63 S 4MATIC no Salão de Nova Iorque, mas ainda vai demorar a atravessar o Atlântico) rapidamente se afigura como um oásis no meio do deserto! GLC’s haverá sempre muitos, com o elegante lettering “AMG GLC 43” na meia linha da tampa da bagageira, certamente se contarão pelos dedos, pelo menos, em Portugal.

Esta é por isso a oportunidade para os fundamentalistas anti-SUV se converterem ou, visto no polo oposto, para as mães das crianças reconhecerem que afinal não gostam assim tanto de SUV’s! O Mercedes-AMG GLC 43 é tudo isto! Uma combinação com pouca lógica e menos sentido, mas, vá-se lá perceber porquê, tremendamente viciante! Resumindo: uma confusão deliciosa!

Vamos a factos: tratando-se do SUV médio da Mercedes, as quotas de habitabilidade são iguais à dos irmãos “terrenos” GLC, bem como a capacidade da bagageira que se cifra nuns apreciáveis 550 litros ou 1600 litros, quando os bancos de trás são obrigados a fazer a devida vénia! Mas isto, convinhamos, é tudo o que lhe temos para dizer do conceito familiar deste GLC! Com um motor biturbo, 3.0 litros a gasolina, pronto a disparar 357 Cv entre as 5500 e as 6000 rotações, a esmagar-lhe as costas com 520 Nm de binário logo às 2500 rotações e com uma fantástica melodia V6 que o faz interrogar constantemente para que serve o sistema áudio Burmester (extra de 804 €) ligado, só dá vontade de… deixar a família em casa! São 4.9s para nos fazer içar os pêlos dos braços, ou, numa métrica mais clássica, os segundos dos 0-100 km/h.

O sistema 4MATIC encarrega-se de consumir toda a motricidade deste panzer germânico, com reduzidíssimas perdas de tração, sobretudo, se ativarmos o modo “Sport +”, onde o “animal” põe todas as suas garras de fora. A facilidade com que se aproxima dos 250 km/h (velocidade máxima limitada eletronicamente) também é desconcertante, numa rápida sucessão de 9 passagens de caixa (de forma automática ou usando as patilhas por detrás do volante), cujo o número pode, à primeira vista, até parecer exagerado, mas que dado o escalonamento correto, conseguem aproveitar cada cavalo de potência.

Com a chegada das curvas, aparecem os primeiros sintomas de que, afinal não estamos ao volante de um super-desportivo, mas sim de “algo” com um centro de gravidade ligeiramente elevado e que não é propriamente um peso-pluma (1845 kg), mesmo se a “transparência” e elevado tato transmitido pela direção tudo faz para o disfarçar. Honestamente, é preciso também dizer que nas curvas realmente encadeadas e com forte transição de massas este AMG nos recorda que os seus genes são, afinal, de SUV.

Não que a suspensão adaptativa (sobretudo, na variante “Sport” e “Sport+”) não comporte o peso da carroçaria em esforço, mas a altura ao solo é o maior pecado do chassis e contra ele nada há a fazer. Mesmo com o sistema 4MATIC (tração integral) constante, a predominância é dada ao eixo traseiro no carregamento da potência, mas o ESP anula as excentricidades (à saída das curvas lentas até é demasiado interventivo), salvo se houver coragem e “unhas” para “navegar” sem “rede” isto é, por conta e risco, desligando o botão do “anjo da guarda” eletrónico. De uma maneira ou de outra, uma coisa é certa: o AMG GLC 43 pode fazer corar de vergonha muitos desportivos, até numa estrada de serra! Pelo menos, até à altura em que precisar dos discos perfurados à frente (360 x 36 mm) e ventilados atrás (320 x 24 mm), porque se não tem qualquer problema quanto à potência de ataque, estes cansam-se mais rapidamente do que seria de esperar!

Nessa altura, nada melhor que abrandar o ritmo e talvez abastecer pois é relativamente fácil esvaziar um depósito a pôr à prova a rapidez de subida do ponteiro vermelho do conta-rotações, obtendo consumos da ordem dos 25 litros/100 km, que dificilmente descem dos 11 litros, se passarmos para ritmos mais convencionais.

Essa é a melhor altura para contemplar, nas calmas, os pormenores do habitáculo, todo ele de raiz desportiva, onde, entre tantas outras coisas poderá “brincar” com o programa de Seleção Dinâmica (nos seus cinco modos – “Eco”, “Comfort”, “Sport”, “Sport+” e “Individual”) ou divertir-se com o acelerómetro, medindo as forças G a que fica sujeito e que aparecem no ecrã digital central.

Do lado de fora, a estética também impressiona, com o GLC 43 a vestir-se ao melhor estilo de “lobo em pele de cordeiro”, com uma caracterização racing, mas suficientemente equilibrada na forma e no estilo (com o principal enfoque a recair nas enormes jantes de 20’’ assinadas pela AMG que, curiosa e infelizmente para os mais puristas, têm um desenho praticamente igual às do Nissan Qashqai!). Está na hora de dizer: “Querida, afinal já quero um SUV!” e perguntar: “por acaso não tens aí 83.650 € aí à mão?”.

Filipe Pinto Mesquita

 

 

MAIS

Prestações e versatilidade.

MENOS

Travões e consumos.

11

Motor – V6, inj. direta, biturbo, gasolina

Cilindrada – 2996 cm3

Transmissão – Integral

Cx Vel – 9 vel. automática

Potência – 357 cv/5500-6000 rpm

Binário – 520 Nm/2500-4500 rpm

Vel máx – 250 km/h (limitada)

Aceleração – 4,9 s (0-100 km/h)

Consumo – Médio 8,3 l/100 km, AutoSport 11,2 l/100 km

Suspensão dianteira – Independente multibraços pneumática

Suspensão traseira – Independente multibraços pneumática

Travões dianteiros – Discos perfurados

Travões traseiros – Discos ventilados

Peso – 1845 kg

Depósito – 66 l

Mala – 550-1600 l

Emissões – 189 g/km CO2

Preço base – 83.650 €

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