Ao Chiado, a heróica luvaria Ulisses

Olisipo, a cidade de Ulisses, ameaça transformar-se num nova Ciclópia. A cidade vive atormentada por um gigante devorador de lojas tradicionais com um só olho para o dinheiro. O Cíclope chama-se turismo de massas e é bastante voraz. Há no entanto uma minúscula ilha que resiste à gula ciclópica e cupidesca dos “promotores imobiliários”. Chama-se “Luvaria Ulisses”.

A casa comercial foi fundada em 1925 por Joaquim Rodrigues Simões em pleno Chiado, área nobre do comércio lisboeta, e desde aí se mantém orgulhosa, indiferente à passagem do tempo e das modas.
A “Luvaria Ulisses” já calçou a mão de gerações de lisboetas, desde os dedos nodosos de capitalistas e homens de negócios até às falanges artísticas e ornamentadas de jóias de baronesas e duquesas, cantoras líricas e amantes da burguesia em geral.
A “Luvaria Ulisses” dispõe de uma oficina onde são fabricadas estas requintadas luvas, cujo design foi sendo atualizado ao sabor dos tempos, preservando sempre um nostálgico tom clássico, que usado com decoro e pertinência, será sempre sinónimo de bom gosto.

Com a porta aberta há 90 anos no nº87-A do Chiado, a impecável “Luvaria Ulisses” impressiona também pela fachada neoclássica e pelo mobiliário Império. A montra, onde reluzem, sedutoras, luvas de senhora, é um discreto chamariz para quem passa no turbilhão de lojas de grandes cadeias internacionais em que as luvas, a haver, são para o esqui ou fabricadas por crianças de 11 anos algures no Bangladesh.
Quando entramos na “Luvaria Ulisses” viajamos no tempo e quase podemos imaginar sair dali com umas agasalhadoras e anatómicas luvas a acariciar os dedos e a palma das mãos.
Não há gesto mais elegante que puxar pelo dedo de uma luva e descalçá-la para estender cavalheirescamente a mão a um Fernando Pessoa que caminha meditabundo em direção à sua mesa de bronze na “Brasileira”.
Não há loja mais bonita no Chiado do que o nº87 do Chiado, onde a “Luvaria Ulisses”, pequena ilha do bom gosto, resiste com soberba dandy à voracidade dos Cíclopes padeiros que estendem as suas garras amanteigadas pelos quatro cantos da cidade e pelos folhetins de leitura burguesa.

A “Luvaria Ulisses” resistirá porque é a loja mais bonita da Baixa e também das mais pequenas – liliputiana mesmo.
Por isso nunca servirá para padarias ou franchises internacionais. A heróica “Luvaria Ulisses” é só para pessoas de bom gosto, daquelas que preferem umas elegantes luvas a um fio de manteiga a escorrer-lhe pela manápula.