Automóveis portugueses, uma história de empreendedorismo

A história da indústria automóvel portuguesa é uma verdadeira odisseia. E para a compreender temos, em primeiro lugar, que atender às suas motivações. Se por um lado, a maior parte dos automóveis desenvolvidos em Portugal eram feitos numa perspectiva egoísta, já que serviam para os seus criadores poderem entrar em competições de forma mais económica ou ostentando a sua própria marca num acto de egocentrismo e/ou espírito nacionalista, por outro lado, houve quem ambicionasse produzir automóveis à escala industrial, tentando ir mais longe e deixando a sua marca na sociedade portuguesa.

O primeiro caso está repleto de histórias de sucesso, e, cada um à sua maneira, fez história. Fosse pelas vitórias obtidas, mesmo quando se batiam contra as grandes marcas internacionais nos circuitos nacionais, fosse pela capacidade técnica e criativa de encontrar soluções à medida de cada desafio que se erguia em cada fase do projecto. Um bom exemplo disso foi o motor desenvolvido de raiz pela Alba. Quando a Maserati apresentou um orçamento demasiado elevado para fornecer um motor para o automóvel de António Augusto Martins Pereira, este contornou o problema, desenhando e produzindo o seu próprio motor na fundição que detinha. Resumindo, mediante os obstáculos erguidos, a autodeterminação e capacidade portuguesa de responder de forma pragmática esteve sempre presente.

E se a prioridade era quase sempre a performance ou o factor económico, também o design não saiu descurado nos projectos nacionais. Apesar de alguma tentativas mais ao lado, objecto de limitações técnicas ou financeiras, na sua grande maioria, as carroçarias do produto nacional até ao final dos anos 50 eram de elevada estética e elegância, facilmente confundidas com as produzidas internacionalmente ao mais alto nível. Basta ver o Edfor, o Felcom, o Alba, o Olda ou o DM, facilmente confundíveis com automóveis estrangeiros da época.

Até no UMM, o mais popular e conhecido automóvel de fabrico português, a simplicidade das suas linhas geométricas e rectilíneas estão inundadas de carisma, transmitindo força e resistência. No segundo caso, a história regista menos aspirações. Das várias tentativas de instaurar uma indústria verdadeira, poucas passaram do papel ou protótipo (como é o caso do IPA, que ambicionou ser o Carocha português mas que por razões políticas nunca avançou).

Como projectos realmente concretizados, ficam o UMM, o Sado e o Portaro, que servem hoje como embaixadores da indústria automóvel portuguesa na nossa memória colectiva. Mas mais importante, fica a prova de que apesar da indústria automóvel não ter vingado em maior escala (grande parte dos seus projectos não chegou a ver sequer a luz do dia), existiu uma vontade e capacidade empreendedora fora de vulgar para um país desprovido de capital ou tradição automóvel.

Hoje, felizmente, restam ainda vários dos automóveis portugueses que fizeram história há mais de 80 anos. Sobreviventes do tempo que servem de registo vivo do que foi a aventura dos primeiros anos da indústria automóvel portuguesa. Além de peças históricas e esteticamente muito bonitas, estes automóveis servem também para prestar tributo ao nosso espírito empreendedor secular, desde o sonho à concretização, passando pela inspiração, mobilização e criatividade, faculdades que merecem ser realçadas hoje mais do que nunca.

Salvador Patrício Gouveia/Jornal dos Clássicos