O dia em que Nuvolari correu contra um avião

Dos muitos duelos travados por Tazio Nuvolari, a corrida contra um biplano Caproni destaca-se, pela originalidade e desfecho inesperado.

Foi com o moral elevado, após uma temporada de muitos que Nuvolari aceitou, a 8 de Dezembro 1931, um desafio diferente do habitual, numa pista do autódromo de Littorio, na periferia de Roma. Ao volante do Alfa Romeo 8C 2300 Monza, teria como antagonista o piloto-aviador da força aérea italiana (Regia Aeronautica Italiana), Vittorio Suster, aos comandos do seu biplano Caproni CA100 com a matrícula “ I-AAYG“ – que também utilizara num dos seus modelos motores produzidos pela Alfa Romeo.

Estaria também presente Piero Taruffi, com uma Norton 500, que enfrentaria e venceria o piloto-aviador Furio Niclot Doglio num Fiat AS.1.

A segunda corrida, a mais esperada, colocou frente a frente Nuvolari e Suster.

O comandante italiano Vittorio Suster, nascido em Trento a 28 de Agosto de 1889, era um“ás dos ares“, veterano da I Guerra Mundial — medalha de ouro pelos altos serviços prestados –- Capitão-Piloto do “Serviço Aéreo Especial da Regia Aeronautica Italiana“ e, mais tarde piloto da pioneira linha área desde Itália para várias cidades da Europa.

A prova consistia em cinco voltas a circuito, num percurso total de 17 quilómetros. O avião vence a moto e o Alfa Romeo com o tempo de 6 minutos e 12 segundos, a uma média de 164,237 km/h. Desta vez, o Alfa Romeo de Nuvolari teve de contentar-se com o segundo lugar, alguns metros atrás…

Quase 50 anos depois, a 21 de Novembro de 1981, este duelo teria continuidade, com a benção do Enzo Ferrari. Os protagonistas foram Gilles Villeneuve, num Ferrari 126CK (chassis #58) e um avião F-104S 51-03, pilotado pelo tenente-aviador Daniele Martinelli. Desta vez, venceria o automóvel.

Quanto a Nuvolari, neste mesmo mês de Agosto, no dia 11 do longínquo ano de 1953, assinala-se mais um aniversário do seu desaparecimento. Sobre ele, o mago da mecânica Ferdinand Porsche disse, um dia, que era “o maior piloto do passado, do presente e do futuro!“

Tazio Giorgio Nuvolari, eternizado por “ Nivola “ ou “ Il Mantovano Volante“, nasceu em Castel d´Ario, Mântua, a 16 Novembro de 1892. Conheceu os píncaros da glória, mas extinguiu-se, em isolamento, após um acidente vascular cerebral. Sofria havia anos com problemas pulmonares, mas atormentavam-no ainda mais as suas tragédias pessoais, sobretudo a morte dos seus dois filhos ainda jovens.

Das inúmeras vitórias do “Mantuano Voador“ desde os seus primeiros tempos na competição, pilotando motos e mais tarde automóveis de diversas marcas — como a Chiribiri, Bianchi, Bugatti, Maserati, Alfa Romeo, Auto Union e Cisitalia — destacam-se alguns feitos particulares. Ao volante dos Alfa Romeo da Scuderia Ferrari onde ingressou em 1930, venceu as Mille Miglia, a Targa Florio, Le Mans e os principais Grandes Prémios europeus do seu tempo incluindo a Taça Vanderbilt nos Estados Unidos da América em 1936.

Vários duelos marcaram a sua carreira desportiva — nem todos ao volante — com Giuseppe Campari, Achille Varzi e Hans Stuck, aquando da sua passagem pela equipa da Auto-Union, e o próprio Enzo Ferrari. Para que regressasse à Scuderia Ferrari, foi necessária a intervenção do próprio ditador Benito Mussolini.

Enquanto piloto e ao volante das suas máquinas voadoras, das duas às quatro rodas, um dos despiques mais interessantes que viveu foi precisamente com Varzi, nas Mille Miglia de 1930. Durante a noite, Nivola manteve por horas os faróis apagados, correndo em alta velocidade atrás deste, até ao momento da surpreendente ultrapassagem muito perto da Meta, vencendo com a sua ousada estratégia. Varzi nunca mais esqueceria esta derrota.

Nem sempre a sorte protege os audazes, e entre outros tantos factos ocorridos, recordo um outro duelo entre Nivola e um animal, quando em 1938, atropelou um veado aos comandos do seu Auto-Union Tipo-D “ flecha de prata “ no decorrer dos treinos para GP de Donington.

Ou o eterno duelo com a velocidade que lhe permite bater o record mundial de velocidade , para a Scuderia Ferrari, com o Alfa Romeo Bimotore de 16 cilindros em 1935.

Contudo o mais notável duelo, sem dúvida, foi a sua vitória “impossível”, a 28 de Julho de 1935, no GP da Alemanha em Nurbürgring.

Ao volante do seu Alfa Romeo P3 de menor cilindrada e potência ante toda a armada alemã dos Auto-Union e Mercedes-Benz. Foi de tal modo foi inesperado o seu triunfo que, quando chegou a altura da entrega de prémios, a organização não tinha a gravação do hino italiano nem a bandeira nacional. Mas Nuvolari vinha preparado e providenciou ambos!

Nesse dia chuvoso e nublado, ecoou no “Inferno Verde” o quente hino da “Marcia Reale Italiana“ e a bandeira italiana voou mais alto, sob o olhar incrédulo das altas patentes nazis e dos milhares de alemães nas bancadas. Entre o gotejar do champanhe, os louros e ovações do alto do seu metro e 65, esta subida ao mais alto lugar do pódio, imortalizou-o como o maior piloto do seu tempo.

Como homenagem ao grande piloto Tazio Nuvolari, ficou-nos a frase esculpida nas portas do seu túmulo no cemitério Degli Angeli, situado entre a sua natal Mântua e Cremona: “Correrai ancore più veloce per le vie del cielo“ (Correrás ainda mais veloz pelas estradas do Céu).

Marco Pestana/Jornal dos Clássicos

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