Ford Escort RS 2000: Primeiro estranha-se…

Confesso que nunca me senti atraído por produtos de marcas mais mainstream como é o caso da Ford. Quase achava estranho o culto pelos Escort RS, pelos motores BDA, enfim pelo folclore que acompanha estes automóveis. Mesmo com uma carreira invejável nos ralis, achava-os muito comuns, demasiado vulgares. A minha propensão para coisas mais estranhas e fora do vulgar terá a ver com isso.

No entanto, confesso que era uma lacuna nunca ter conduzido um, se bem que já não abundam em estado original aqui pelos nossos lados. A oportunidade surgiu há pouco tempo e tenho andado a matutar nisto desde então. Pode dizer-se que finalmente percebi o que faz gravitar tanta gente à volta deste modelo. É simplesmente coeso e refrescante ao mesmo tempo. Temo que já estaremos “contaminados” pelos produtos mais recentes da indústria automóvel, em que somos cada vez mais passageiros e temos cada vez menos intervenção no processo de conduzir. O RS faz-nos voltar a um tempo em que tudo era mais assertivo e simples. Foi construído para proporcionar gozo, e é gozo que entrega em grande quantidade.

A especificação já não impressiona actualmente embora, na altura, 110 cavalos num dois litros fosse um rendimento bastante respeitável. Também a suspensão, mesmo quando foi apresentado, não era do mais sofisticado que se produzia. Mas a verdade é que o conjunto funciona muito bem, deixando ficar uma sensação de equilíbrio entre os vários componentes, o que não é de todo vulgar. Como já referi, a leveza dos vários controlos, entre eles a direcção, a embraiagem, e a urgência do motor em subir de regime e, talvez mais importante, o à-vontade e disponibilidade nesses altos regimes, é algo a que já não estamos habituados. A combinação destes com o ruído do propulsor, revelam que o RS2000 pede para ser conduzido, diria mesmo pilotado, a fundo.

A caixa tem um escalonamento correcto e um comando que exige firmeza e precisão, como de resto é suposto e aconselhável. Não será confortável no sentido a que estamos habituados: é firme sem ser seco. Deixa a sensação de competência e eficácia. Mesmo o ruído de rolamento dá um ar de competição. Não é excessivo, mas nunca nos deixa esquecer o fim para o qual foi criado. O único reparo será para os pneus que o equipavam. Não pela falta de qualidade ou performance, mas pelo contrário. Esta unidade está equipada com o que se designa vulgarmente por semi-slicks, o que faz maravilhas na aderência, mas uma certa deriva, principalmente do eixo traseiro, era de esperar, com transições mais suaves e mais facilmente moduladas. Enfim, nada que não se resolva facilmente.
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O que fica da experiência é a leveza e a agilidade do RS. A impressão geral é a de que o RS continua a ser, mesmo hoje, um produto muito focado, dirigido a uma gama muito específica de apreciadores, com predicados muito particulares. Para quem gosta de conduzir a sério não há muitos concorrentes nesta gama de preços.

Esta viatura foi cedida pela Lotus Emblematic (917 266 269)

Hélio Valente de Oliveira

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