O segundo MG A mais antigo em Portugal

Por baixo de uma carroçaria que não esconde as rugas de um sexagenário elegante, este MG A de 1955, um dos primeiros mil produzidos, revela excelente forma. O motor de quatro cilindros e 1,5 litros tem cerca de 70 cavalos, uma força equestre que compensa as suas limitações com muita disponibilidade, mesmo a baixo regime, e um relinchar rouco e grave.

Há 60 anos, seria uma estrela nas estradas nacionais, graças à carroçaria, tão bela e moderna quanto simples, mas também às suas competências dinâmicas, então superiores às de qualquer familiar de gama média. Hoje, é uma visão rara, mas igualmente bem recebida por espectadores de todas as idades.

O MG A é bastante baixo e a linha do seu capô dá-me pela cintura. Para entrar no habitáculo de forma graciosa é preciso treino. Há que abrir a porta com a mão direita, puxando uma pequena corda no interior, avançar com a perna direita por baixo do volante e deslizar no banco, ao mesmo tempo que se traz a outra perna para dentro e se fecha a porta com a mão esquerda. Complicado? É questão de ver com atenção o video que acompanha o artigo — após algumas tentativas, acho que consegui…

O motor arranca sem demora. A caixa de velocidades exige precisão e um punho decidido, mas sem pressa. A primeira não é sincronizada e os sincronizadores das restantes precisam de tempo e uma ajuda do condutor para fazer passagens de caixa suaves.

A direcção é bastante precisa e fundamental para o prazer de condução que o MG A proporciona.

A suspensão por amortecedores de alavanca, assegura um controlo muito equilibrado dos movimentos da carroçaria. Em bom piso, o conjunto funciona mesmo muito bem. Quando aquele se degrada, as oscilações da carroçaria diminuem significativamente o nível de conforto. Mas tudo na vida é relativo e quem quiser mesmo viajar confortavelmente num clássico, tem outras opções mais adequadas. O MG A é um desportivo à inglesa. Não faltando o essencial, se há motivo para reclamar, a falha é humana…

Dos primeiros
Este exemplar foi produzido na fábrica de Abingdon, no Reino Unido, em Setembro de 1955, sendo um dos primeiros mil exemplares fabricados. Foi matriculado a 21 de Janeiro de 1956 em Portugal, pelo representante da Morris e da MG em Portugal, a A. M. Almeida Lda., o segundo MG A a ser registado no nosso país, uns dias depois do primeiro, que também sobrevive, no Norte do país.

O seu primeiro proprietário foi Joaquim Luiz da Cunha e Silva Cardoso, de Lisboa.

Já nos anos 80, foi adquirido por José Manuel Mercês de Mello, por coincidência, primo do primeiro proprietário.

Muitos outros MG A chegaram ao nosso país nos anos seguintes, até à sua substituição na gama MG pelo MG B, em 1962.

Todavia, o que distingue este exemplar dos restantes é o facto de nunca ter recebido um restauro profundo. Em Setembro próximo cumprir-se-ão 62 anos sobre a data da sua produção, um acontecimento raro, numa época em que raramente se resiste a restaurar um clássico interessante.

Perguntará o leitor porque é tão importante nunca ter sido restaurado, quando ficaria mais bonito com uma pintura nova ou cromados refeitos. A verdade é que qualquer objecto só é original uma vez. A partir do momento em que se restaura e se substituem componentes, a percentagem de originalidade vai-se reduzindo.

Claro que não se deve ser fundamentalista. Peças de desgaste pronunciado com o uso, como pneus, borrachas, calços de travão e tubagens — muitas delas com papel importante a desempenhar na segurança do automóvel — devem ser substituídas. Mas intervenções mais profundas desvirtuam a autenticidade do conjunto. A verdade é que não se pode “des-restaurar” um automóvel. Uma vez restaurado, nunca mais se pode recuperar aquele momento no tempo em que tudo o que tem lhe foi atribuído no local onde todos os seus elementos foram conjugados pela primeira vez.

Como nenhum automóvel foi pensado para durar 60 anos, é um acontecimento podermos conduzir um MG A assim preservado, pelo que chega de teoria e vamos contemplar esta máquina que sobreviveu tão bem ao passar do tempo.

Finalmente um MG novo!
O A foi o primeiro MG de aspecto moderno após o final da II Guerra, substituíndo uma longa linhagem dos Midget, que remontava ao início dos anos 30. As suas características estavam definidas desde 1955, mas por questões internas na British Motor Corporation, o seu lançamento foi adiado até 1955. Para colmatar a lacuna, a BMC lançou o MG TF, que prolongou a dinastia dos Midget dos anos 30 mais alguns anos.

Quando finalmente surgiu o MG A, surpreendeu pelas linhas modernas, mas também pela simplicidade. A carroçaria não tinha janelas laterais e contava com uma capota de lona muito fina. Era um verdadeiro “roadster”. Mantendo a chassis separado, o MG A não era uma referência em termos técnicos, contando com a mecânica do TF 1500. O digno e fiável motor série B, com 1489cc e 68 cavalos permitia, ainda assim, prestações correctas para um pequeno desportivo acessível, com uma velocidade máxima de 155 km/h.

Ao longo dos anos, o MG A receberia melhoramentos significativos, como motores de 1,6 litros (com dupla árvore de camas no raro Twin Cam ou árvore de camas lateral, no 1600), carroçaria coupé, entre outras. E teria uma brilhante carreira comercial, com mais de 101 000 unidades produzidas.

Em Portugal
A A. M. Almeida anunciou-o como “O Automóvel que se distingue pelo seu reduzido preço, grande economia e notáveis performances”. E era verdade.

O MG A 1500 roadster custava, quando era novo, cerca de 84 contos (419 euros), sensivelmente o dobro do preço de um utilitário como o Renault 4CV “Joaninha”. O mais refinado MG A Coupé era também mais dispendioso: 92 contos (459 euros). Para comprar um coupé de carácter, as alternativas não eram muitas e eram mais caras. Um Alfa Romeo Giulietta custava 129 contos (643 euros), enquanto um Porsche 356 A custava 117 contos (584 euros). O Twin Cam, a escolha daqueles que queriam o mais rápido e potente dos MG A, custava uma centena de contos (499 euros).

O MG A foi utilizado com grande sucesso tanto em provas de velocidade como em ralis, destacando-se ao volante, por exemplo, José Lampreia, Luis Fernandes, António Peixinho, Ruy Martins Silva e Jorge Nascimento.

Ficha técnica
MG A 1500 – 1955-56

Motor de 4 cilindros em linha; 1489 cc; dois carburadores SU; 68 cv às 5200 rpm; Transmissão às rodas traseiras; caixa manual de 4 vel.; suspensão independente à frente, eixo rígido atrás; Direcção de pinhão e cremalheira; Travões de tambor; Chassis separado, tipo escada; Carroçaria roadster em aço prensado; Comprimento: 3960mm; dist. entre eixos: 2380mm; Peso: 890 kg; Velocidade máxima: 155 km/h

 

Agradecemos a colaboração de Rui Silva Carvalho. O MG A encontra-se à venda na Great Old Classics.

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