Passagem para Myanamar

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Finalmente voltei a pegar na moto e soube-me que nem queijo fresco em cima de pão alentejano com muita manteiga. Foi para isso que me meti nesta aventura, embora a parte burocrática da viagem, no que se refere a vistos e autorizações para a moto entrar em cada país, seja um mal necessário.

A Embaixada de Myanmar em Delhi abriu uma porta à possibilidade de me passarem o visto que me tinha sido recusado na delegação de Dhaka de maneira que aproveitei a oportunidade, apanhei um avião e fui lá tratar do assunto. Chegado a Delhi disseram-me que o processo implicava autorizações especiais de dois ministérios que demorariam pelo menos um mês a obter por isso, enquanto esperava, fui até Portugal passar Natal e ano novo.

Regressei a New Delhi no início de janeiro e, com a imprescindível ajuda da Embaixada Portuguesa, lá consegui o famoso visto que me garantiram ser o primeiro que passavam para alguém atravessar o país de moto ou carro.

Tive que me deslocar várias vezes à embaixada de Myanmar e o caricato é que exigiam sempre a minha presença mas, quando lá chegava, não me deixavam passar do portão e falava com a secretaria por um telefone que o porteiro me estendia através do guichet. Uma das vezes, durante este processo, o motorista da Embaixada portuguesa que me tinha vindo trazer, veio chamar-me aflito porque a polícia o estava a multar por mau estacionamento. Fui lá explicar a situação e o polícia disse que não podia desculpar e teria mesmo que me multar mas que passaria uma multa de baixo valor.

–  Quanto?, perguntei eu.

–  100 rupias, respondeu o polícia, ou seja pouco mais de um euro. Há coisas que me encantam neste país.

Com o visto no passaporte parti então para o Bangladesh ter com a moto, na vaga esperança de também aí ter a famigerada autorização para atravessar o país.

O Bangladesh esteve praticamente parado desde que de lá saí até dois dias antes do meu regresso, com greves que implicavam a oposição não autorizar veículos a circularem nas estradas, com os que se atreviam a furar a greve a serem queimados, junto com os veículos, dentro de carros e camiões. Vários comboios foram descarrilados por os protestantes retirarem carris em muitas das linhas.

Cheguei ao aeroporto de Dhaka num clima de grande confusão com a país ainda em caos depois do fim da greve.

À minha espera estava o secretário de cônsul, homem dos seus 65 anos que não consegui distinguir no meio da multidão porque, quando o deixei há um mês era loiro e agora apresentou-se de cabelo e bigode castanho escuros.

Não tendo ainda conseguido obter a autorização para que eu pudesse atravessar o país com a moto pedi que me levasse de imediato à estação de comboios com a ideia de partir nesse mesmo dia para Hilli, a dez horas de distancia, onde tinha deixado a moto. Quando lá chegámos uma multidão acotovelava-se para conseguir um lugar nos poucos comboios que começavam a circular, ainda sem horários.

Conseguimos falar com o chefe da estação que nos informou que sim, viria um comboio que partiria naquela direção dentro de duas ou três horas mas no qual não haveria lugares marcados e o mais provável era que tivesse que fazer a viagem em pé. Lugar sentado ou deitado ele achava que só já mesmo no tejadilho.

Instalei-me então no hotel em que já tinha ficado no mês anterior e no dia seguinte consegui partir para uma cidade a 65 Km de Hilli, de avião.

Era um bimotor a hélices de uma companhia local, sujo por fora e por dentro e com a tinta exterior a cair da fuselagem. Deve ter sido comprado em quinta mão e certamente não para nem para as revisões.

Lá arrancou com uma barulheira infernal. Quando aterrámos no pequeno aeroporto de Sadair um miúdo veio a correr estender um degrau de madeira para completar os do avião. Só então reparei que viajava no mesmo voo um importante deputado local. Ainda na pista esperava-o uma enorme comitiva e os poucos passageiro que viajávamos no mesmo voo entrámos no aeroporto por um pequeno corredor aberto no meio de uma multidão com dezenas de ramos de flores para entregarem ao seu herói.

O homem entrou a seguir a nós e cantaram, louvaram-no, encheram-no de flores e partiram todos. Cinco minutos depois o aeroporto estava completamente vazio com o chão coberto por restos de flores.

Depois de recolher a minha mala na pista, diretamente do carrinho que a traz do avião, sentei-me sozinho à espera que um homem que tinha contratado ali, na altura, para me transportar a Hilli chegasse com o carro.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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