Era (mesmo) assim em 1974

Em abril de 1974 a Fiat era a marca de automóveis mais vendida em Portugal (15 432 unidades), um Fiat 127 custava 95 contos (475€) e em Portugal era produzidos 100 000 automóveis. O Autódromo do Estoril, inaugurado em 1972, acolhia o Troféu Datsun 1200 (a primeira competição monomarca) e por um litro de gasolina pagávamos na Sacor 7$50 (lê-se: sete escudos e cinquenta centavos ou… 0.035 cêntimos). Raffalle Pinto, em Fiat 124 Abarth, vencia o Rali de Portugal, num ano em que não houve campeão nacional de ralis.

Não é grande coisa dizermos que Portugal era, no início dos anos 70, um país muito diferente. Mas quanto diferente, realmente?

No virar de página da década de 60 para a de 70, quase 80% dos partos eram realizados em casa e mais de 60% da população não tinha frequentado a escola (apenas 1% dos portugueses tinha um curso superior). Existiam mais de 200 jornais e revistas neste país onde uma das primeiras medidas saídas da revolução foi fixar o salário mínimo em 3 300 escudos (16,5€). Alugar um T2 “às portas” de Lisboa custa cerca de mil escudos (5€) e por uma bica ao balcão pagamos dois escudos (0.01 cêntimos). A forte instabilidade no mundo árabe (nomeadamente a guerra de Yom Kipur, determina que entre outubro de 1973 e março de 1974 o petróleo registe um aumento médio superior a 400%. A primeira Crise do Petróleo inicia uma recessão prolongada nos EUA e na Europa e acelera as consciências para os problemas da poluição e da dependência dos combustíveis fosseis.

Por cá, o preço da gasolina atinge os 7$50 por litros (0.0375€) numa altura em que o VW Golf MK1 estava prestes a revolucionar a paisagem automóvel.

O mercado de automóveis novos rondava as 88 mil unidades com a Fiat a liderar de forma destacada (15 432 unidades) graças à boa performance do 127, apesar do preço claramente acima da média (95 contos, ou 475€), facto justificado pela popularidade do “Carro do Ano” de 1971 e líder destacado de vendas na Europa. Na segunda posição no “ranking” de vendas surgia a Toyota(10 970 unidades), consequência do sucesso do Corolla, logo seguida pela Datsun (Nissan) a colher frutos do bom desempenho do 1200 (8582 unidades). A Ford (7511) e a Renault (6355) eram as marcas que se seguiam, num ano conturbado politicamente mas em que, ainda assim, se venderam 3334 BMW, 1142 Mercedes e… 2 Rolls-Royce.

Por esta altura estará pensar que nos esquecemos do Mini. A verdade é que o modelo era comercializado sob as marcas Morris (cujas vendas atingiram nesse ano as 3307 unidades) e Austin (4302), dispersão que explica esta posição mais modesta daquele que era um dos carros mais populares da época, com um preço que se situava ao redor dos 55 contos (275€).

De recordar, por fim, que em abril de 1974 existiam em Portugal nada menos do que 21 empresas que se dedicavam à montagem de veículos, casos da GM e Ford (Azambuja), Fiat, Renault e Citroen (a estrutura de Mangualde que data do inicio dos anos 60 é mesmo a mais antiga entre nós). No total a produção automóvel em Portugal situava-se nas 100 000 unidades, volume que subiria para cerca de 140 mil no final da década.

As profundas mudanças económicas e sociais que Portugal conheceu a partir de 1974 estão também espelhadas no significativo aumento dos preços dos principais modelos à venda no país, como pode ver na galeria de imagens referente a alguns dos automóveis mais vendidos no país em 1978, ou seja, apenas quatro anos depois da revolução.

(nota: na fotogaleria, quando após o valor em euros colocamos a equivalência nos dias de hoje tomamos como base o site da Pordata que efetua esse calculo levando em conta a inflação)

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