Walter Rohrl – A lenda

Walter Rohl é um dos mais notáveis pilotos de rali de todos os tempos e memória viva dos amantes do desporto automóvel. Um génio que deixou o seu traço preciso e destemido nas páginas da história do Rali de Portugal. A Turbo aproveita a ocasião para recordá-lo.

Nasceu no sudeste da Alemanhã numa cidade chamada Regensburg a 7 de Março de 1947. Entre 1973 e 1987 ganhou dois campeonatos mundiais da FIA (1980 e 1984), um título europeu de rali (1974), 14 corridas de campeonatos mundiais, e quatro ralis de Monte Carlo. É piloto de testes e embaixador da Porsche desde 1993 e apesar do seu sucesso manteve-se sempre modesto. “Não preciso de um helicóptero, de um iate, ou de uma casa na Florida”, disse, por ocasião do seu 70º aniversário. “Sou feliz a passear de bicicleta pela floresta da Baviera, com dez euros no bolso para comprar um snack”.

O início

Curiosamente, nunca tinha pensado em ser piloto profissional de ralis até Herbert Marecek, o seu grande companheiro de ski ter falado no assunto. A caminho das montanhas, Herbert observou que a maneira de Walter conduzir não era normal. Era um dom. E que ele devia pensar em competir profissionalmente. “Estás maluco! Quem é suposto pagar-me o carro?”, respondeu Rohrl. Só depois de o amigo lhe prometer um carro é que se deixou convencer: “Ok, se é grátis posso tentar!”. E assim foi. Herbert arranjou-lhe um carro e nunca mais deixou de ser uma fonte de motivação para o amigo Walter. No seu quinto rali, Rohrl ia bastante atrasado quando o Herbert Marecek se chegou à frente dos jornalistas e disse: “o meu amigo Walter é o melhor piloto do mundo”. Um dos editores da revista Rallye Racing mexeu os cordelinhos e falou com algumas marcas. Não passou muito tempo até Rohrl dar a notícia à mãe: “Vou ser piloto de ralis!”. Na corrida seguinte não deu hipótese a ninguém.

Sintonia é tudo

Diz-se que Walter Rohrl é um viciado em velocidade. Mas não é bem assim. O ex-piloto alemão considera-se um “desconfiado em relação à velocidade”. Prefere definir-se como um “interessado na perfeição”, acrescentando que “sempre quis mover-me com a mesma naturalidade do dia-a-dia nos meus skis” [n.d.r antes de ser piloto, Walter era instrutor de ski credenciado pela Federação Alemã de Ski]. “O mesmo para o carro. Queria que o carro respondesse precisamente da maneira que eu queria, até ao mais leve toque, e nunca me satisfaria com menos”, acrescentou.

O sonho de Monte Carlo

Nunca tinha sonhado ser campeão mundial, mas o Rali de Monte Carlo… Era outra história. Ganhar o rali do principado era o seu principal objectivo de vida – nem que fosse uma única vez. Chegou a dizer muitas vezes que se reformava quando ganhasse o Monte Carlo. E chegou a tomar essa decisão, mas convenceram-no a continuar.

Em 1980 Rohrl cumpria o seu objetivo desportivo e esteve num perfeito delírio e durante três dias, o que não era costume. “Apareço em muitas fotografias com um ar sério depois de ganhar uma corrida. Isso é parte do meu carácter – que tende para a melancolia mais do que para a euforia. Durante a minha carreira, a minha única preocupação foi saber se era apenas um sonhador, ou se era realmente o melhor. Por isso, quando ganhei Monte Carlo foi completamente diferente. Vivi intensamente aquela vitória durante três dias. Nada podia correr mal depois daquilo: tinha conquistado tudo aquilo que queria”, conta o ex-piloto.

Amargura também toca aos mais geniais

Em 1981, Walter queria assinar contrato com a Porsche e, por essa razão, aceitou conduzir um 924 no Campeonato da Alemanha. Pouco tempo depois, a Porsche sugeriu-lhe conduzir um 911 em San Remo. O rali de San Remo era um dos preferidos de Rohrl, juntamente com o Monte Carlo e o Rali da Nova Zelândia. “Queria muito ganhar aquele rali porque uma vitória certamente ia convencer a Porsche de que valia a pena entrar nos ralis comigo”. Walter sabia que, se saísse da terra batida para a última etapa com até 4 minutos de desvantagem para o líder da prova, conseguia compensar no asfalto. “Depois das etapas na terra consegui sair com dois minutos e dez segundos de atraso em relação ao primeiro. Tudo estava a correr lindamente – até a transmissão ceder. Fiquei tão desapontado que a seguir fiquei doente quatro semanas”, recorda.

Uma vitória épica

Já depois de deixar os ralis (1987) substituía frequentemente Hans-Joachim Stuck em corridas de pista quando este, por alguma razão, não podia correr. Uma dessas ocasiões foi a corrida de Trans-Am no circuito de Niagara Falls em 1988 – um circuito citadino sem um centímetro extra de espaço em que ninguém se atrevia a passar os limites. Walter batia o recorde da pista, 2.4 segundos abaixo do tempo anterior. “Pura sorte”, disseram os americanos. “Estava a um palmo de bater na parede! Amanhã não dura cinco voltas”. No dia seguinte, com 40 graus Celsius e 100% de humidade, o piloto alemão deu uma volta de avanço a toda a gente, incluindo a Scott Pruett, que terminou em segundo lugar. Walter explicou que toda a gente subestimou o tipo de precisão dos pilotos de rali e que aquele simplesmente era o seu tipo de corrida.