A Vespa do meu pai

Sempre tive inveja de quem anda de moto, de quem anda de moto depressa, o vento, a velocidade, o perigo, o prazer, enfim. Imagino, apenas, não sei bem descrever como é porque nunca o fiz. A única vez que tentei andar mais depressa, já lá vão quinze anos, caí, destruí a moto do meu primo e fui parar ao hospital com escoriações múltiplas e uma clavícula partida.

Ainda hoje, quando o tempo muda, me dói aquela curva. Ele teve direito a uma moto nova, melhor, mais adulta, uma Yamaha DT, qual o rapaz de província que não teve uma DT?, eu perdi aquela que estava prestes a conquistar. Desde então nunca mais se falou de motos na casa onde nasci. Durante década e meia a expressão duas ruas foi exclusivamente sinónimo de bicicleta e mesmo assim com calma, sobretudo nas descidas, até o meu pai ter comprado uma Vespa.

Uma PX 125. Apresentada em 1977, nunca foi das mais bonitas nem das mais carismáticas da marca, apesar da Piaggio afirmar que vendeu três milhões em todo o mundo, mas com a sua ressurreição em 2011 parece também ter ganho outro charme. Pode não ser um clássico, apenas uma reprodução barata – se bem que custe mais de 3.500 euros –, mas não deixa de ser uma Vespa. A única que oferece quatro velocidades de mão. Eu que nasci para ser guarda-redes e que nunca tive jeito para meter mudanças com os pés (a única verdadeira moto que guiei foi uma Casal Boss de duas velocidades e mesmo assim não me safei), lá fui me afeiçoando à nova menina dos olhos do meu pai. Ele que também nunca foi de motos nem de modas mas que agora não quer outra coisa. Nunca subestimar a força das paixões tardias.

Comigo acontece o mesmo. Sempre que vou a casa deles, das poucas vezes que vou a casa deles, a minha casa?!, a primeira coisa que faço é fazer-me à estrada. “Rais parta a Vespa, para o que é vos haveria de dar com esta idade”, escudado será dizer de quem são as palavras. Aproveito qualquer momento livre e lá vou eu. Já escrevi sobre isso no Grande Turismo. Quando passamos a vida a falar dos mesmos temas ou não temos assunto ou temos um assunto mal resolvido: “A comida ainda não está pronta, aproveito aquela hora da Primavera em que devia ser proibido estar em casa a não ser para, pego na Vespa do meu pai e lá vou dar uma volta pela aldeia. Nunca gostei da aldeia onde nasci, continuo a não gostar, mas hoje, com este sol, com os Creedence e o capacete na cabeça, tudo me parece ligeiramente diferente. Pela primeira vez em muitos anos, pela primeira vez, parece-me que talvez isto não seja assim tão mau, que o problema talvez seja meu.
Será a maturidade a bater à porta? Espero bem que não, que esta semana tenho mais que fazer.”

Desta vez estávamos a ver o ciclismo, a Volta à França, outra das nossas paixões, mais uma subida, mais uma contagem de montanha, as paisagens do costume – ainda há alguém que duvide que a França é um dos mais bonitos países da Europa? – e eis-me com vontade de ir para a rua. A bicicleta dos anos 80 que mandei recuperar e me vai custar os olhos da cara ainda não está pronta, aproveito por para ir de Vespa, todos os motivos são bons. “Vai passar por aqui alguma etapa da Volta a Portugal? – pergunto-lhe, “Uma delas que termina no alto da Nossa Senhora da Assunção” – responde-me de pronto. Assim seja. Passo pela Vila das Aves e meto à esquerda para Monte Córdova/Nossa Senhora da Assunção, sempre a subir. Não é este o percurso que os ciclistas farão, nem é suposto que os turistas o façam, afinal não há nada para ver, apenas resquícios da minha infância. Estradas e tempos que julgava perdidos.

Chego finalmente ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção. Também não é o Sameiro, nem o Bom Jesus, em Braga, muito menos um qualquer château francês, ainda assim vale a pena a subida, imagino de bicicleta. Poderão ver no próximo dia 4 de Agosto, na quinta etapa da nossa Volta. Hei-de cá vir a pedal, é uma promessa, para já desço, devagar não vá o diabo empurrar, em direcção à cidade. Quando andava da Universidade, estranha fase de vida em que as pessoas não têm nome nem apelido, chamavam-me Tirsense. Nunca me recompus. Pelo sim pelo não, passei a dizer que nasci em Guimarães, afinal o charme é outro e o clube (Vitória até morrer) é meu.

Talvez por isso tenha acabado sentado num banco de jardim, frente ao restaurante Tirsense, na Praça Conde São Bento. “Fusão de estilos e sentidos, urbano, diferente, de rigorosa actualidade, com ambiente acolhedor num edifício secular e emblemático onde predominam a qualidade e a excelência pelo detalhe…”, diz no site. Experimentem e digam-me como foi. Eu continuarei às voltas, com as minhas origens, na minha terra, na terra dos outros, sempre que possível na Vespa do meu pai. Pode ser que um dia consiga escrever um artigo de viagem sobre Santo Tirso. Por enquanto é cedo e a comida está outra vez na mesa.