As comemorações da morte do Iman Hossei

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Ontem fui com a minha amiga Hasala assistir ao último dia das comemorações da morte do Iman Hossein, que deu a vida pelo Islão há 1400 anos. Está um dia de sol lindo e a minha amiga conta-me, com uma certeza inabalável, que naquele dia, mesmo quando antes e depois estão tempos de tempestade, o sol brilha e não há nuvens no céu.

Aqui as semanas têm a mesma duração que as nossas, mas metade dos meses do ano têm 29 dias e a outra metade 30. Os meses começam em alturas diferentes (ontem foi dia 10 do mês de Moharam), enquanto os fins-de-semana são à nossa quinta e sexta feiras. A passagem do ano, por exemplo, que a eles calha no início da Primavera, nunca é no mesmo dia do ano, pois os 12 meses somam apenas 354 dias.

De manhã começámos por ir ver os desfiles no bairro dela, talvez os mais espectaculares aqui de Teerão. Novos e velhos não só percorrem as ruas com correntes a bater nas próprias costas, ao som de enormes tambores e com um pregador ao microfone de uma carrinha de caixa aberta que os segue a passo de tartaruga, como alguns rapazes se revezam para transportar sozinhos enormes estruturas metálicas, com estátuas de dragões e outras figuras, que se estendem pela largura das artérias do bairro.

Conseguem dar poucos passos com aquele peso às costas e acreditam que só o podem fazer ajudados pela força sobrenatural que o Imã Hossein lhes transmite. Depois passam o fardo a outro candidato que enfia as correias nas costas onde apoia a armação. Os mais velhos encorajam aqueles rapazes com apoio moral e beijos na cara. É um pouco a versão deles de ir a pé a Fátima, neste caso talvez mais próxima de dar a volta ao recinto de joelhos. Numa grande praça com um jardim e lago no meio outro animador leva as pessoas a rezarem enquanto andam à volta do lago a bater com a mão no peito.

As cenas espalham-se por várias ruas com grandes grupos, numa enorme algazarra de tambores e barulho de correntes a baterem nas costas dos dedicados fiéis, gerando a confusão no trânsito. Passeámos de grupo em grupo e a Hasala até me perguntou se não me queria juntar ao sacrifício, reservado aos homens. Disse-lhe que estava melhor no papel de espectador e ficou um pouco desiludida. Da parte da tarde fomos assistir a uma espécie de teatro que decorre num enorme espaço em terra batida, do tamanho aproximado de um campo de futebol e onde recriam a cena em que, há 1400 anos, depois de terem sacrificado o Iman Hossein, mataram toda a sua família, incluindo mulheres e crianças, para tal arrastando os miúdos pelo chão e pegando fogo às tendas onde viviam. Esta cena começa com um homem a chorar aos altifalantes, enquanto conta a história do massacre, entusiasmando as pessoas para se juntarem a ele no choro. Vi mulheres a soluçarem, comovidas com aquela recordação de há 14 séculos. A fase mais espectacular é quando os supostos malfeitores pegam fogo às tendas que quase explodem com o combustível que têm dentro. A cena acaba com as crianças, presas por correntes, algumas com ar assustado perante tanta confusão e outras verdadeiros artistas a fingirem ser pontapeados e arrastados por homens armados de enormes espadas.

O teatro ao ar livre envolve camelos, o suposto cavalo de Hossein com manchas de sangue no dorso e homens que transportam lanças com réplicas de cabeças humanas espetadas na ponta. Um espectáculo único.

_______________________________________________________________________

*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

ler + em Volta ao Mundo em Crosstourer