As sandálias do pintor de Darwin

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Tinha planeado que a moto fosse enviada de Timor por barco para estar em Darwin em Agosto de forma a já cá estar quando chegasse.

O problema é que a única companhia de navegação a operar em Timor funciona muito mal e, depois de três meses de tentativas para que fosse embarcada, acabei por chegar a Darwin com a moto ainda a caminho. Com a agravante que a mandaram através de Singapura. As coisas complicaram-se e estou em Darwin há mais de quinze dias à espera e pelo menos mais outro tanto vou ter que por aqui ficar. A ler e a jogar golf, que pouco mais há para fazer nesta terra onde estão 30º permanentes, mas não se pode ir à praia por causa dos crocodilos.

Aqui só têm duas estações no ano, seca e molhada. A temperatura não varia muito mas enquanto agora é seco, para o mês que vem começa a chover quase ininterruptamente durante quatro meses. O que vale é que, à medida que for para sul, o clima é mais ameno e lá será verão.

Depois de dois dias num hotel mudei-me para um quarto alugado na casa de uma filipina onde o filho e a namorada, que viviam no andar de baixo, davam festas que duravam a noite toda e quando eu saia para o golf, às oito da manhã, ainda estavam espalhados pelos sofás do terraço, alguns em coma aparente.

Como a filipina só me fornecia duas horas de internet por dia resolvi mudar e ontem instalei-me num Bed and Breakfast mais perto do campo de golf e com bom Wi-fi.

Ao negociar o preço da estadia, que aqui são caras, o dono propôs-me fazer umas pinturas no estabelecimento, para pagar menos renda, de maneira que hoje comecei a minha vida de pintor de casas. Comecei por “atacar” um alpendre e amanhã, então já com mais experiência, atiro-me para as paredes.

Como a roupa que trouxe é pouca e não a queria sujar de tinta, resolvi ir a uma loja de beneficência na esquina comprar uma t-shirt e uns jeans em segunda mão que me custaram menos de um euro cada. Comprei também uns sapatos, que me pareceram bons, em pele cinzenta e atacadores roxos, por dois euros.

Quando cheguei ao “serviço” a Erika, uma estónia estupenda que aqui trabalha na recepção, virou-se para mim e disse:

— Uau vai pintar o alpendre com sapatos Dolce Gabana?

— Pois é, Erika. Eu sou assim. Dolce Gabana para as pinturas e sapatos da feira para o dia-a-dia.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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