Austrália: 500 quilómetros de helicóptero para beber uma cerveja e cangurus mortos na estrada

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Three Ways é perdido no meio de nada. O posto de abastecimento mais perto para Norte fica a 200 Km e para Oriente a 300 Km. Fiquei por lá a acampar. Tinham uma pequena piscina com a vantagem de a água não estar morna.

Contam-me que aqui, ainda há pouco tempo, alguns dos rancheiros locais, baseados a centenas de quilómetros, aterravam as suas avionetas na estrada e vinham à bomba abastecer e beber uma cerveja. Um que vivia a 500 Km vinha de helicóptero só para beber uma cerveja e fazer dois dedos de conversa com quem por lá estivesse.

Estes ranchos, que tinham algumas das maiores manadas do mundo, com milhares de cabeças de gado, mudaram-se, na maioria, para terras com melhores pastagens, quando a zona começou a ficar mais seca.

Arranquei para Oriente, depois de atestar o depósito, pelas dez da manhã. Nos 300 Km seguintes cruzei-me com dois carros e três camiões.

De resto, não se vê ninguém nem qualquer construção. Cangurus, que esperava que se atravessassem à minha frente, só os encontrei já cadáveres, atropelados, na estrada. Um ou outro de grande porte.

A vegetação passou a rasa, só umas ervas secas que se estendem a perder de vista. Por vezes, rabanadas de vento fazem abanar a moto. Os poucos camiões que se cruzam comigo, monstros de cinquenta metros que se deslocam a mais de 100 Km/h, formam quase que uma parede de ar, que mais uma vez me chocalham, qual andorinha em vendaval.

Durante o trajeto há uma ou duas áreas de descanso dessas que não são mais que um banco com uma sombra e onde por vezes paro para beber água e sou assaltado por moscas. “Touph”.

Depois de percorrer os 300 Km parei no posto de abastecimento para descansar. Nestes locais estão muitas vezes miúdas suecas, francesas, alemãs, etc. que decidem vir trabalhar para a Austrália e, depois de um ano por cá, dão-lhes vistos para mais um se vierem três meses para um destes sítios recônditos a que chamam “rural Australia”. Elas lá se sujeitam e dão um ambiente agradável a estes locais, perdidos no meio do nada. Lá estava uma a limpar as ventoinhas de tecto.

Uma delas quis convencer-me a acampar por ali, mas ainda eram duas da tarde e decidi avançar até ao próximo posto, 150 Km à frente.

Apanhei um ótimo parque de campismo em Camooweal, com uma piscina de água que refrescava e onde pude lavar roupa numa máquina e cozer um esparguete. Tinha acabado de entrar na província de Queensland.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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