Bali o turismo de massas e o paraíso do surf

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

A ilha de Bali, para quem está à espera de praias paradisíacas desilude bastante. É uma ilha vulcânica e por isso as praias são de areia escura, pouco atrativa. A que chamam “double six” perto do pequeno hotel onde fiquei e onde fui no dia em que cheguei, era grande em extensão mas de areia dura e escura. Ao fim da tarde enchia-se de locais a jogarem futebol e os bares, frequentados por bifalhada de classe média tinham música ao vivo de fraca qualidade. Uma chungaria pouco atrativa.

A capital, Denpasar, é de ruas estreitas muito movimentadas com milhares de “scooters” e carros a provocarem enormes engarrafamentos pelo meio de muitas lojas e restaurantes virados para estes turistas do tipo que vemos em Albufeira no verão.

A situação melhora muito na parte sul da ilha. Aqui, uma pequena ilha que não tinha origem vulcânica foi ligada à principal através de um istmo. Esta zona, muito mais calma, já tem praias de areia clara, embora poucas. Curiosamente, sendo de longe as melhores praias de Bali, têm pouca gente e pessoas com muito melhor aspeto. Muitos deles são miúdos que vêm para o surf e de facto o local é um verdadeiro paraíso de surf.

Uma das praias a que fui formava uma esquerda de dois metros que parecia feita de propósito, com os bons surfistas a fazerem tubos fabulosos.

Depois, para além das praias há vários “spots” de surf onde não existe areia, mas apenas rochas só que no mar as rochas que se estendem mar dentro provocam ondas ideais para o surf. Assim amontoam-se estas centenas de praticantes que andam de “spot” em “spot” nas suas “scooters” equipadas com um suporte lateral para as pranchas. É um ambiente giro.

Outra praia que visitei tinha umas cabanas em colmo na areia que eram restaurantes e locais onde alugavam pranchas com um ar muito “tropical cool”.

Isto, sim, é o que eu verdadeiramente esperava de Bali. Mas resume-se a três ou quatro praias.

O que mais me encantou acabou por ser o interior da ilha, principalmente uma vila também turística, mas com muito melhor ambiente que a capital. Chama-se Ubud e tem restaurantes e lojas com bom aspecto, templos hindus, uma “Monkey Forest”, cheia de macacos e campos de arroz nos arredores. Muita vegetação formando uma paisagem natural deslumbrante que se encaixa bem nos templos e Palácio do antigo Sultão. Não há gente a mais e o ambiente é giro.

Um museu particular, com quadros pouco interessantes, alberga uma impressionante coleção de espadas e punhais.

Talvez a única vantagem de visitar estes locais mais turísticos é a qualidade dos hotéis e restaurantes. Em Bali consegui comer um excelente bife, o que não me acontecia desde que saí de Portugal, há mais de dois meses.

Fiquei quatro dias num pequeno hotel que tinha um quarto óptimo e limpo, com uma decoração simples mas gira e a particularidade de a casa de banho, bem arranjada, ser enorme e ao ar livre. Ou seja, a parte do duche e banheira não tinham teto. Já tinha tomado muitas vezes duche ao ar livre mas agora foi a primeira vez que tomei um duche à chuva, ou seja, um chuveiro quase do tamanho da casa de banho.

O hotel pertencia a um simpático italiano casado com uma indonésia que, no dia em que tinha lá dois amigos também italianos a jantar me convidou. Fez uma esparguetada do melhor e acabámos a noite a provar uma aguardente Balinense que ele dizia tem causado muitos problemas na ilha por haver gente a morrer depois de beberem a que é mal feita, mas aquela era de confiança, segundo ele, fabricada por uns amigos especialistas do norte da ilha. Pelo menos no dia seguinte estávamos os quatro vivos e de boa saúde.

Este hotel tem à porta uma lavandaria que é explorada pelo mesmo casal com duas empregadas que, de cada vez que me viam sair na moto me faziam milhares de recomendações, visivelmente preocupadas em verem o que consideravam um velho maluco numa moto com tamanho desadequado à capacidade física do condutor. Eu dizia-lhes sempre que sim e mais também e lá seguia viagem.

No outro dia, estavam as duas e a patroa à porta quando saí e me fizeram as recomendações habituais, quais mães preocupadas.

Quando vou a arrancar, enquanto lhes respondia automaticamente que não havia qualquer problema, distraí-me, passei com a roda da frente por cima de uma grande pedra, desequilibrei-me e … “catrapum”, moto no chão. Elas vieram as três a correr ajudar-me a levantar a moto e pude ler na cara das três: “como é que este tótó chegou até aqui, não nos entra na cabeça”.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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