À conversa com um camionista turco em língua nenhuma

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor
Hoje tive um dia calmo e fiz mais de 400 Km numa estrada com longas retas, onde me senti o Peter Fonda no “Easy Rider”, a circular a 120/130 km/h só que sem estar pedrado. Pelo meio duas partes montanhosas com algumas curvas boas e onde a temperatura baixou dos 8 a 12º com que circulei a maior parte do dia, para 5º. A paisagem continuava árida, a fazer lembrar certas zonas de Marrocos.
Pelas duas da tarde parei numa tasca manhosa, junto a uma bomba de gasolina, onde comi qualquer coisa que tinha um ovo estrelado e era picante, não sei se por o ovo estar estragado ou se era mesmo assim. De qualquer forma não me fez mal. Bebi uma Fanta laranja, a segunda bebida oficial dos Turcos. A primeira é o chá que, tal como no sul do Brasil com o café, oferecem a cada oportunidade “free of charge”.
Depois daquele almoço, para desenjoar parei na bomba seguinte e comi umas bananas que tinha no saco desde o dia anterior, das quais consegui aproveitar três metades menos podres. O homem da bomba convidou-me para beber um chá e lá fiquei a tomar chá à conversa com um camionista durante uma meia hora. O engraçado é dizer à conversa porque ele só falava turco e eu ia dizendo palavras em várias línguas conforme a que me apetecesse no momento. Era indiferente o que era porque ele não percebia nenhuma.
É espantoso como há três dias que não encontro ninguém que fale outra coisa senão turco e tenho-me feito entender.
Na conversa com este simpático camionista ele perguntou-me de onde eu era e depois se falávamos a mesma língua que os espanhóis e os mexicanos, que países havia a seguir a Portugal, etc. Falámos sobre o frio que eu ia apanhar no Irão, sei lá, uma longa conversa baseada em gestos, palavras inventadas e expressões com que nos fizemos entender perfeitamente. Apareceu outro amigo a quem ele lhe disse de onde eu era e por fim despedimo-nos e cada um partiu na sua direção. O trânsito por ali é quase só camiões e como estamos perto da fronteira com o Irão e não longe da fronteira com a Síria começam-se a ver mais veículos militares que carros de polícia e passei mesmo por uma operação “stop” em sentido contrario ao que eu circulava que era feita por militares de metralhadora ao ombro e não por policias. Provavelmente também para controlarem as movimentações dos rebeldes curdos do PKK.
Amanhã vou tentar entrar no Irão mas o mais provável é ainda não ser possível. Nesse caso terei que voltar a uma cidade a 300 Km da fronteira onde há um consulado Iraniano, para pedir os papéis que me exigirem.
Se entrar só espero que os americanos ou israelitas não se lembrem de bombardear o país na semana em que lá estiver. Não que tenha medo de levar com uma bomba, que é pouco provável, mas receio que se isso acontecer o pessoal lá fique com mau humor para com quem vem deste lado.
Está-me a pingar água em cima do computador. Estes hotéis que eu arranjo …
Há bocado, para explicar que não havia toalhas na casa de banho fiz sinal ao recepcionista como se estivesse a esfregar as costas mas ele deve ter pensado que eu estava a pedir um banho turco ou qualquer coisa do género. Fez uma careta como quem diz “não temos cá disso” e falou para uma miúda que era suposto falar inglês mas … bute, não percebia nada. Até que ela disse: “então eu vou aí ao hotel dentro de 5 minutos. Quando chegou mostrei-lhe o toalheiro vazio e então resolveu-se o enigma. O camionista teria percebido à primeira.
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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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